São Paulo, domingo, 24 de março de 2002

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ENTREVISTA

Para presidente do banco, financiamento é vital para viabilizar empresa e lucro só virá com crescimento do PIB

Eleazar justifica BNDES na Globo Cabo

GUILHERME BARROS
EDITOR DO PAINEL S.A.

O presidente do BNDES (Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social), Eleazar de Carvalho, 44, está disposto a falar, falar e falar exaustivamente até conseguir explicar a operação de injeção de R$ 284 milhões da instituição na Globo Cabo.
Carvalho não acha, no entanto, que terá muitas chances de sucesso. Segundo ele, os meios de comunicação, de uma forma geral, já consideraram a operação errada antes mesmo de sua estruturação ser concluída.
Carvalho afirma que o BNDES tem experiência na avaliação de empresas, e a Globo Cabo oferece condições de se tornar rentável dentro de alguns anos. De acordo com ele, o retorno para o investimento deve ocorrer dentro de cinco a sete anos. A premissa básica para isso é o crescimento do PIB (Produto Interno Bruto). "A economia não precisa crescer a taxas de 8% ao ano para a empresa se tornar rentável", diz o presidente do BNDES.
A BNDESpar, o braço do BNDES no mercado de ações, decidiu participar da operação de recapitalização de R$ 1 bilhão na Globo Cabo, junto com mais três outros sócios, as Organizações Globo, o Bradesco e a RBS, a rede de TV do Sul do país. De acordo com Carvalho, menos do que R$ 1 bilhão seria pouco.
O presidente do BNDES considera que todo esse barulho em torno da operação se deve ao fato de ser um ano eleitoral. Se fosse em outra época, nada disso aconteceria, argumenta.
Nesta entrevista, concedida por telefone na sexta-feira, um dia depois de anunciar o resultado da venda de ações da Vale do Rio Doce, Eleazar de Carvalho afirmou que a operação com a Globo Cabo só será aprovada pelo BNDES depois da oferta pública de ações, cuja data ainda não foi marcada. Disse que, se na oferta pública nenhum novo acionista se interessar pelas ações da empresa, o banco só irá participar da operação de recapitalização se o preço da ação for atraente.
 

Folha - Quando começou a ser estudada a operação de refinanciamento da Globo Cabo?
Eleazar de Carvalho
- Em primeiro lugar, é bom deixar claro que não se trata de uma operação de refinanciamento, e sim de recapitalização. Bem, nós acompanhamos a empresa há muito tempo, como acionistas que somos. Eu diria que há uns seis meses os acionistas nos procuraram.

Folha - Quem?
Carvalho -
O executivo principal, Mauro Molchansky, pela Globopar, e outros executivos da Bradespar, que também é acionista da empresa. Desde então, começamos a estudar como poderíamos viabilizar a empresa.

Folha - Como se chegou ao valor de R$ 1 bilhão?
Carvalho -
Desde o início, nós sempre achamos que os R$ 800 milhões que se falava em novembro e dezembro era pouco. A gente achava que teria que ser mais. Gostaria de deixar bem claro uma coisa. Nunca houve um pedido de financiamento para o banco de qualquer valor que fosse. A empresa não precisa de financiamento. O que sempre se discutiu foi a idéia de uma recapitalização. Por isso, quando começamos a olhar os números, nós achávamos que seria necessário R$ 1 bilhão para recapitalizar a empresa. Fomos à empresa e olhamos os números e chegamos a esse valor.

Folha - O sr. foi à empresa?
Carvalho -
Eu não, mas um bom time de técnicos foi conversar com a empresa.

Folha - E qual foi a conclusão dessa avaliação? A Globo Cabo é rentável? A BNDESpar vai fazer um bom negócio ao injetar R$ 284 milhões na empresa?
Carvalho -
A operação está condicionada a uma série de eventos. Se todos esses eventos ocorrerem, a operação vai sair. Além disso, a operação dependerá da oferta púbica de ações. Dependendo da oferta pública, o banco irá entrar com mais ou menos dinheiro.

Folha - E se, na oferta pública, ninguém se interessar em comprar ações da Globo Cabo?
Carvalho -
Se nenhum acionista de fora achar conveniente investir nas ações da Globo Cabo, nós iremos decidir participar ou não do negócio, dependendo do preço das ações. Se o mercado não quiser, o preço terá que se tornar atraente para tomarmos a decisão de entrar no negócio.

Folha - Mas como o BNDES chegou à conclusão de que o negócio pode ser rentável para o banco?
Carvalho -
O banco tem mais de 20 anos de experiência nesse tipo de análise, nós usamos um método de avaliação consagrado internacionalmente. Dispomos de uma equipe competente para fazer esse trabalho.
Quando avaliamos uma empresa, nós usamos uma projeção realista. Ela não é otimista nem completamente pessimista. Depende muito dos cenários de crescimento da economia para os próximos anos. Nós temos participações em 141 empresas. O valor de mercado dessas empresas em setembro, portanto depois dos atentados nos EUA, era de R$ 15,5 bilhões. O valor contábil (quanto o banco investiu) é R$ 10 milhões. Portanto, os nossos resultados são bastante satisfatórios.

Folha - Mas o BNDES errou quando entrou na Globo Cabo. As projeções do banco com relação a esse mercado não se confirmaram.
Carvalho -
Na época, a avaliação do BNDES foi correta. Hoje, você pode dizer que o negócio não deu o retorno esperado, mas o fato é que isso precisa ser feito dentro de um contexto.

Folha - O que garante que o BNDES não está, de novo, cometendo um outro erro?
Carvalho -
Trata-se de um investimento de risco, e risco e retorno sempre andam juntos. Naquele momento, no passado, o mercado todo errou. Mas a ação, que hoje está em 50 centavos, já chegou a valer R$ 4, quando houve o boom das telecomunicações. Eu acho que as pessoas enxergavam essa empresa dentro desse contexto. Mas o passado eu não resolvo.
Minha preocupação agora é proteger o investimento que está lá. Nós achamos, com base nas avaliações que fizemos, que há uma perspectiva de rentabilidade, mas só o tempo vai dizer se fizemos um julgamento correto.

Folha - Em que bases o BNDES acredita no crescimento desse mercado de TV por assinatura?
Carvalho -
No crescimento da economia. Esse mercado vai crescer dependendo do PIB. Essa é a premissa básica.

Folha - E qual a projeção do BNDES para o crescimento da economia para os próximos anos?
Carvalho -
Nós somos impedidos pela CVM (Comissão de Valores Mobiliários) a dar esse tipo de informação, mas o que posso dizer é que os nossos cálculos foram feitos com base nas estimativas de crescimento compatíveis com a média do mercado, inclusive do Banco Central. Para essa empresa ter retorno, não precisa ter um crescimento da economia de 8% ao ano.

Folha - Em quanto tempo o sr. acha que o BNDES pode ter retorno do investimento?
Carvalho -
O investimento em ação é sempre de longo prazo. Trata-se de um investimento de cinco a sete anos de maturação. Isso não significa que a ação não pode ser vendida antes do prazo.

Folha - Até lá, a empresa irá continuar dando prejuízo?
Carvalho -
Mesmo se der prejuízo, o preço da ação não será zero. Mas quem deve falar sobre projeções de resultados da empresa são os analistas.

Folha - Por que a Microsoft não entrou na operação?
Carvalho -
Você é que está dizendo que a Microsoft não entrou na operação.

Folha - A Microsoft vai entrar?
Carvalho -
Não tenho essa informação.

Folha - Por que o BNDES vetou operações semelhantes a outras empresas de comunicação?
Carvalho -
Em primeiro lugar, quero dizer que a operação de cabo é diferente da operação de mídia. Uma empresa de cabo não produz conteúdo. Mas, de qualquer forma, o banco está aberto a qualquer tipo de proposta, desde que as empresas tenham governança corporativa, estejam enquadradas no nível 2 do novo mercado da Bovespa e tenham perspectiva de rentabilidade. O problema é que muitas propostas não se enquadram nesse perfil.

Folha - Como o sr. pretende convencer a opinião pública de que a operação da Globo Cabo é boa para o BNDES?
Carvalho -
Vou falar sempre, exaustivamente, até conseguir me explicar. O problema é que eu sinto que os veículos de comunicação já assumiram, a priori, a posição de que a operação é errada. Portanto, independentemente do que eu falar, a cobertura será parcial. O problema é que essa operação está acontecendo agora, em época de eleições. Se fosse em qualquer outra época, não teria esse barulho todo.

Folha - O sr já comprou ações da Globo Cabo?
Carvalho -
Nunca tive ações da Globo Cabo, mas eu tinha limitações, como chefe de um banco de investimento, para a compra de ações.



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