São Paulo, Domingo, 28 de Novembro de 1999


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SISTEMA FINANCEIRO
Bradesco ainda é o maior, mas ações do concorrente valem mais; em 2000 pode haver inversão
Itaú já é o líder em valor de mercado

RICARDO GRINBAUM
da Reportagem Local

Qual é o maior banco privado brasileiro? A resposta óbvia seria o Bradesco, que tem o maior patrimônio, mais agências, mais funcionários e administra mais dinheiro do que qualquer outra instituição financeira privada.
Aos olhos dos investidores do mercado financeiro, porém, o Itaú é o maior banco do país. Se os dois bancos fossem vendidos pelo preço de suas ações na Bolsa de Valores, o Itaú valeria R$ 3,59 bilhões a mais do que o Bradesco.
A soma de todas as ações do Bradesco valeria R$ 9,72 bilhões. Já o banco das famílias Setúbal e Vilella sairia mais caro, por R$ 13,36 bilhões, de acordo com a consultoria Economática. Estão incluídas na conta todas as ações dos bancos, mesmo as que estão em poder dos sócios e que não são negociadas em pregão.
É um resultado surpreendente porque o banco sediado na Cidade de Deus, em Osasco, tem poder de fogo bem maior do que o do Itaú. O Bradesco tem R$ 78 bilhões em ativos (soma de todos os bens e créditos) -R$ 24 bilhões a mais do que o rival.

Predileto dos investidores
Há uma explicação para o fato de o preço das ações não refletir o que cada banco guarda em seus cofres. Mesmo que temporariamente, o Itaú se tornou o predileto dos investidores.
"O Itaú está sendo premiado por sua administração e pela estratégia adotada nos últimos tempos", diz Patrick O'Grady, responsável pela gestão de renda variável do banco Pactual.
A ultrapassagem do Itaú reflete o crescimento do lucro do banco, que é o principal indicador observado pelos analistas financeiros.
Em 1995, o Itaú apresentou uma rentabilidade equivalente a 10% do patrimônio do banco. Com os lucros de 1999 (R$ 1,4 bilhão até setembro), a rentabilidade pulou para cerca de 25% do patrimônio.
Os resultados do Bradesco também melhoraram, mas num ritmo mais lento. A rentabilidade do banco cresceu de 12% para 15% do patrimônio em 1999.
O resultado é que o Itaú virou o jogo na Bolsa. Há cinco anos, o Bradesco valia o correspondente à soma de um Itaú e um e meio Unibanco. Agora, o Itaú vale pouco mais do que um Bradesco somado a dois terços do Unibanco.

Calotes
O Itaú diminuiu a distância em relação ao Bradesco ano a ano, mas a grande virada ocorreu em 1999. Em novembro do ano passado, o Bradesco valia R$ 484 milhões a mais do que o Itaú. Mas, nos últimos 12 meses, o valor do Bradesco teve um acréscimo de R$ 1,6 bilhão, contra uma alta de R$ 3,6 bilhões do Itaú.
A principal explicação para a virada é a diferença de estratégia dos dois bancos em relação à concessão de empréstimos. Em 1999, o Itaú decidiu fechar o cofre e não aumentar sua base de créditos.
O banco apostou mais em investimentos em títulos públicos, que renderam muito dinheiro porque os juros praticados pelo governo estiveram entre os mais altos do mundo.
"O Itaú é muito focado nos serviços bancários. Mantivemos o crédito no mesmo nível de 1998 porque os riscos de inadimplência aumentam muito com a recessão e a alta dos juros", diz Henri Penchas, vice-presidente do Itaú.
Já o Bradesco é, tradicionalmente, mais voltado para os empréstimos e é sócio de muitas empresas. Embora tenha lucrado R$ 739 milhões até setembro, seus resultados não foram tão bons quanto os do rival devido à inadimplência dos clientes.
De acordo com o balanço, o Bradesco perdeu R$ 190 milhões com créditos ao Mappin e à Mesbla que não foram honrados pelo empresário Ricardo Mansur. Além disso, o banco contabilizou perdas de R$ 258 milhões com os títulos precatórios não pagos pelo governo de Pernambuco.

Mais empréstimos
A vantagem que o Itaú obteve em 1999 pode ser uma exceção. Boa parte dos motivos que explicam a valorização do Itaú este ano podem ajudar o Bradesco a virar o jogo no ano 2000.
"Em 1999, os resultados do Bradesco foram prejudicados pela estratégia de longo prazo adotada pelo banco e por alguns empréstimos ruins. No ano que vem, a mesma estratégia pode beneficiar o Bradesco", diz João Paulo Tucci, analista de bancos da corretora Fator Doria-Atherino.
Para os analistas, os resultados do Bradesco devem melhorar porque o ambiente econômico mudou. No ano 2000, devem ser beneficiados os bancos que concedem mais empréstimos.
"Os juros estão caindo e a rentabilidade dos bancos deve vir, cada vez mais, da concessão de empréstimos", diz Tucci, da Fator.
O Bradesco pode se beneficiar por estar mais ativo na área de crédito. Já o Itaú pode demorar a deslanchar seus empréstimos porque, se correr, pode errar na mão e sofrer muitos calotes.
Há outra razão para se esperar uma reação do Bradesco. Com a economia em crescimento e os juros em queda, as famílias de baixa renda e de classe média devem voltar a comprar a prazo. É exatamente este tipo de público que frequenta as agências do banco.
Algumas projeções para o ano 2000 prevêem uma recuperação do Bradesco. Nas contas da corretora Fator, o Itaú deve lucrar R$ 1 bilhão no ano 2000 (cerca de metade de 1999) e o Bradesco deve chegar a R$ 1,2 bilhão (R$ 200 milhões a mais do que em 1999).


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