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Juca Kfouri

Bruno e o Bardo

O drama do goleiro na hora do frango, uma humilhação que ninguém merece, nem o inimigo

SER OU NÃO SER goleiro, eis a dúvida de muito menino que sonha em jogar futebol.

Os bons de bola, normalmente, jogam na linha. Quem é ruim vai para o gol pisar onde não nasce grama.

A dúvida hamletiana jamais fez parte das angústias de Bruno Cardoso que se apresenta como goleiro desde os cinco anos de idade e é fã de futebol americano e de Michael Jordan.

Tudo com as mãos.

Pois foram elas que o traíram miseravelmente na noite de anteontem, uma noite que tinha tudo para dar certo e que virou pesadelo.

Mentirá quem contar esta história e disser que mais de 72 mil olhos a viram no Pacaembu, além de incontáveis milhões pela televisão.

Porque não são poucos os relatos de quem diz que nem olhou para Bruno depois do peteleco de Riascos, do mexicano Tijuana.

Também o goleiro palmeirense não se preocupou em fazer a defesa, mas se preparou para repor a bola em jogo, quem sabe para proporcionar um contra-ataque ao seu time que acabara de mandar uma bola no travessão e incendiara de vez o estádio em jornada de alta voltagem.

"Estava com meu tablete no colo e tirei os olhos da TV depois do chutinho", disse um.

"Olhei para o posicionamento do ataque no gramado", disse outro.

Confesso que também não vi, na hora da tragédia.

Só ouvi o grito do narrador, com voz perplexa. Levantei os olhos para entender que loucura era aquela e, segundos depois, incrédulo, assisti à repetição do lance.

A cena era tão brutal que logo apostei com meus botões que o Palmeiras daria a volta por cima e que teríamos um jogo tão épico como o da vitória do Watford sobre o Leicester, no derradeiro segundo, depois que seu goleiro defendeu um pênalti e o rebote nos pés do cobrador. Porque só o futebol faz dessas coisas.

Bruno, prata da casa alviverde, herói da Copa do Brasil, não falhou.

Quem falhou foi São Marcos, na decisão do Mundial de clubes contra o Manchester United, em 1999, no Japão. Falhou no fundamento e na concentração. Simplesmente falhou.

Bruno não. Bruno apenas engoliu um frango que, ao contrário da crase, existe para humilhar.

Vítima de cruel fatalidade, como se estivesse passeando na calçada e lhe caísse, do parapeito de uma janela distraída, um vaso na cabeça.

A William Shakespeare, o Bardo inglês, jamais ocorreu tragédia tão sinistra, porque em seu tempo não existiam nem o futebol como o conhecemos, criado por seus conterrâneos, nem o frango em versão dramática.

Tivesse Duvier Riascos, nascido na colombiana Buenaventura, a dimensão do príncipe da Dinamarca, e não comemoraria o gol improvável.

Ao contrário, se ajoelharia diante do goleiro na hora do frango e cortaria seu pescoço, para evitar a humilhação que se seguiria.

Bruno entrou pela porta da frente do panteão trágico da história do futebol.


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