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Juca Kfouri

O Barcelona não acabou

Jornalistas, como eu, têm mania de decretar o fim das coisas, principalmente das boas

NÓS, JORNALISTAS, temos o hábito de botar pontos finais em histórias em curso.

Seja o político que perdeu a eleição e nunca mais será nada na vida, o compositor cuja veia poética secou, o ator que nunca mais repetirá o sucesso do filme que o tornou famoso, o time de futebol que acabou.

No começo dos anos 70 do século passado, quando comecei minha carreira, havia uma pauta recorrente na "Placar" semanal, sempre que o Santos, ainda de Pelé, perdia dois jogos seguidos: "O Santos acabou?", perguntava-se na Redação mal acostumada com a década de 60, dominada estadual, nacional, continental e mundialmente por aquele mágico time de branco.

Daí o Santos, ainda de Pelé, enfileirava uma série de vitórias e a má consciência coletiva obrigava que se produzisse uma nova reportagem, afirmativa: "Não, o Santos não acabou!".

Eis que acabamos de viver situação idêntica com o Barcelona de Messi.

A derrota em Milão já foi vista como prenúncio do fim do domínio europeu, e as duas derrotas para o Real Madrid, a primeira em Camp Nou, com baile, e a segunda contra um time misto dos merengues, no Santiago Bernabéu ressuscitado, decretavam o fim da soberania nacional, mesmo que com o título espanhol assegurado.

A ira do zagueiro Piqué na entrevista coletiva antes de enfrentar o Milan no jogo de volta era justa, ao cobrar a memória das pessoas, as façanhas recentes do time catalão, as exibições, mas, com tudo isso, senti pena dele.

A mesma que sentia, e outro dia fiz referência a isso aqui, quando via a derrota estampada no rosto daquele time do Santos. Ou no de Tostão, de Gérson, no dos campeões mundiais no México em 1970, uma gente que, para mim, era tão vitoriosa e exemplar que nunca merecia perder, nem quando o time de um enfrentava o time do outro.

Sentimento semelhante me abate quando vejo o time masculino de vôlei do Brasil perder.

Sempre parece haver uma coisa fora do lugar, por mais que os adversários tenham merecido, eventualmente, a vitória.

Desnecessário dizer que o Barça me desperta a mesma sensação.

Sentei diante da TV para ver a sinfonia que foi a goleada sobre o Milan certo de que veria a pá de cal definitiva e vi a ressurreição.

Mentira!

Vê como nós, jornalistas, somos? A derrota não seria pá de cal alguma e a vitória não foi ressurreição, porque ninguém estava morto.

Apenas diferente, com David Villa voltando a ser um atacante mais de referência, como em 2010 com Pep Guardiola. Com Daniel Alves mais livre para atacar, com a volta de um futebol mais vertical que horizontal, marcando a saída de bola adversária de maneira impiedosa, mas, sobretudo, com Lionel Messi provocado por quem o viu sem apetite.

Porque Deus castiga quem o craque fustiga, disse Armando Nogueira.


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