São Paulo, domingo, 05 de março de 2000


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RALI
Velejador, que disputou pela primeira vez neste ano o Dacar, diz que a prova é artificial e decepcionante
Amyr Klink renega aventura terrestre

CLÁUDIA CROITOR
da Reportagem Local

A primeira grande experiência do velejador brasileiro Amyr Klink em terra, no Rali Dacar deste ano, não foi muito bem-sucedida -e não foi só por causa da 53ª colocação obtida por ele.
Após ter participado pela primeira vez do rali, Klink fez duras críticas à competição, dizendo considerá-la "artificial".
"Para mim, aquilo tudo é uma grande babaquice", disse Klink à Folha antes de embarcar para Lisboa, de onde partirá, na próxima quarta-feira, a regata Brasil 500 Anos, da qual ele participa com o veleiro Paratii.
Klink disse que sempre teve vontade de participar da competição para "conhecer o maior rali do mundo". "Mas fiquei decepcionado. É incrível a falta de solidariedade entre os participantes, é algo realmente impressionante. Ninguém parece se importar com ninguém", disse o velejador.
O brasileiro participou do rali como navegador junto com o piloto Cacá Clauset, na categoria Carros-T3. A dupla fez parte da equipe Hollywood Troller. Klink diz só ter concordado em participar do rali porque a Hollywood se comprometeu a doar verba para um hospital, já que ele não aceita apoio de fabricantes de cigarros.
Segundo o velejador, o que mais o decepcionou no rali foi a falta de preocupação social com as populações locais.
"Passamos por lugares onde a pobreza é imensa, mas parece que, para a organização do rali, os habitantes daqueles países são apenas um bando de negros que atrapalham a competição", disse.
"E há um desperdício enorme. Para resolver qualquer problema durante a prova, são gastas quantias que eu acredito ser semelhantes a um orçamento inteiro de saúde de um daqueles países", completa. "Acho que não tem sentido o rali existir sem ter uma motivação social."
O Rali Dacar deste ano começou em Dacar, no Senegal (norte da África), passou por Mali, Burkina Fasso, Níger e Líbia até chegar ao Cairo, no Egito. Esses países, com exceção da Líbia, ocupam entre a 120ª e a 173ª colocação no ranking mundial de IDH (Índice de Desenvolvimento Humano da ONU, que mede o desenvolvimento dos países com base na expectativa de vida, nível educacional e renda "per capita"). O Brasil aparece na 79ª posição.
Klink também criticou o suposto "espírito de aventura" do rali.
"É uma aventura totalmente artificial. Aventura de verdade deve ser viver em uma situação de pobreza extrema como a da gente daqueles lugares."
Mas, mesmo com tanto descontentamento, o brasileiro não descarta sua participação em outras edições do Dacar. "A gente passa por lugares espetaculares."


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