São Paulo, quinta-feira, 06 de abril de 2006

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Metrossexual, Braga põe imagem corintiana à prova

Treinador, que tem como seu hobby predileto cuidar da aparência, faz jogo decisivo pela Libertadores, contra a Universidad Católica, no Chile

EDUARDO ARRUDA
DA REPORTAGEM LOCAL

O Corinthians decide hoje, contra a Universidad Católica, a vida na Libertadores, sua prioridade, com um personagem incomum sentado no banco de reservas.
Ademar Braga teve a grande chance de sua vida, segundo ele mesmo, somente aos 61 anos.
Formado em educação física, direito e pedagogia, o técnico que tem a missão de levar o elenco mais caro do país ao inédito título da principal competição da América se define com um metrossexual, aquele que cuida da aparência com cuidado quase feminino.
Um fracasso contra os chilenos hoje deixa o time sem depender de suas próprias forças para avançar na Libertadores.
Viúvo há três anos, Braga divide seu tempo entre os treinamentos no Parque São Jorge e o Studio W, salão de beleza luxuoso da capital, também freqüentado pelo santista Vanderlei Luxemburgo.
Seu passatempo predileto é arrumar o cabelo, fazer as unhas e limpeza de pele. Gasta R$ 250 por semana para ficar bonito.
"Eu tenho que me cuidar, não é? Já ganhei tudo na vida em termos materiais. Não guardo dinheiro", diz o ex-auxiliar, que recebeu aumento por sua efetivação.
Nesta entrevista à Folha, Braga diz estar decepcionado com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, mas acredita que ele foi traído.
 

Folha - Quando o senhor disse que o Corinthians será campeão da Libertadores e não terá outro técnico...
Ademar Braga -
Essa foi uma resposta ao que me foi perguntado. Eu tenho um cargo de liderança. Se eu fraquejo numa hora dessas é o caos. Não posso dar uma outra resposta. É como você perguntar para sua mulher depois de dez anos se ela gosta de você.

Folha - Mesmo que o Corinthians seja eliminado, já valeu a pena essa experiência?
Braga -
Sem dúvida. O Corinthians me deu uma visibilidade que jamais tive em minha vida.

Folha - O seu desejo é seguir a carreira como técnico?
Braga -
Isso é a lei da oferta e da procura. Se me convidarem para ser gerente de futebol, eu vou. Tenho formação para isso. Se me convidarem para ser assistente de novo, vou porque amo futebol.

Folha - O senhor disse que sua contratação foi consenso. Mas quem disse que seria o técnico?
Braga -
Foi o presidente [Alberto Dualib]. Pode parecer demagogia, mas fiz a seguinte colocação: eu gostei de São Paulo, da seriedade e da grandiosidade daqui. Sei o dia que entrei como técnico, mas não sei quando vou sair.

Folha - Por falar nisso, até que ponto vai sua relação de pai para filho com os atletas?
Braga -
Eu acho que o que determina o treinador é a vitória. Posso ser paizão, posso ser durão, ou o que for. Infelizmente, é isso que faz a pessoa ser respeitada. Não ganhou, não presta.

Folha - O senhor já está planejando o Brasileiro?
Braga -
Nós temos seis jogos do Brasileiro intercalados com a Libertadores. Não podemos brincar, temos de estar nas primeiras colocações porque temos time e elenco para isso.

Folha - Como é sua relação com o Tevez?
Braga -
Ele é um jogador diferenciado. O meu relacionamento com ele é ótimo. Ele tem vontade de ganhar. Sabe da importância de ganhar a Libertadores pelo Corinthians. É um desafio para ele.

Folha - Quais são os técnicos que te inspiraram?
Braga -
Eu trabalhei com grandes treinadores. O Zagallo, um estrategista, sabe conversar com o jogador e colocá-lo na posição certa. Trabalhei com o Carlos Alberto Torres, com o Antônio Lopes. Um que reputo de grande qualidade é o Pinheiro [ex-técnico de Fluminense e Botafogo].

Folha - O Rodrigo [zagueiro que deve reforçar o clube] pode arrumar o sistema defensivo?
Braga -
Pode. Deu provas disso no São Paulo, estava muito bem lá fora. Tem personalidade forte, é um jogador de chegada que vai trazer confiança. Está entre os seis melhores zagueiros brasileiros.

Folha - O senhor tem acompanhado os times da Libertadores?
Braga -
Eu tenho acompanhado o meu grupo. Mas o River Plate está muito bem. O Internacional, o São Paulo, que tem grande experiência de Libertadores. O Velez também é um bom time.

Folha - O senhor está gostando de morar em São Paulo?
Braga -
Eu sou carioca, né? Moro há alguns anos na frente da praia, na Barra [da Tijuca]. É uma pequena diferença [risos].

Folha - Hoje o senhor trabalha ao lado do rio Tietê...
Braga -
É [risos]. Procuro aproveitar o que há de melhor em cada lugar. Trabalhei em seis países.

Folha - E o que o senhor gosta de fazer na cidade?
Braga -
Eu gosto de shopping, do salão de beleza. Fazer unha, cabelo, limpeza de pele. Vou uma vez por semana.

Folha - O senhor é um técnico metrossexual...
Braga -
É [risos]. Não sei.

Folha - E freqüenta que lugar para cuidar da aparência?
Braga -
O Studio W. Já ganhei tudo que tinha que ganhar na vida. Não guardo mais dinheiro.

Folha - Depois que virou técnico do Corinthians o tratamento no salão mudou?
Braga -
Comecei a ter outro tratamento. Tem um rapaz, o Ronaldo, que quando chego já prepara tudo. Foi o Corinthians quem me deu tudo. Mudou minha vida.

Folha - O que o senhor acha do governo Lula?
Braga -
É uma decepção. Votei nele, mas não sei se votarei de novo. Acho até que não é o Lula pessoalmente. Ele foi envolvido. Não tem como você tomar conta de tudo. Você delega poderes, e as pessoas pisam na bola. As pessoas não foram fiéis ao compromisso que ele tinha com o povo.

Folha - Mas, como advogado, o que o senhor acha da quebra de sigilo bancário de um cidadão?
Braga -
Não foi o governo. É o sistema. [O governo] tem que defender o lado dele, senão vai para a lama também. Quem nomeia o presidente da Caixa Econômica é o presidente, mas ele não nomeia para fazer isso.


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