São Paulo, segunda-feira, 26 de setembro de 2005

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FUTEBOL

De volta à trincheira

JUCA KFOURI
COLUNISTA DA FOLHA

"E nenhuma sensação de que já vou tarde".
Esta é a última linha da coluna que escrevi nesta Folha, em 21 de novembro de 99, quando me despedi para trabalhar no "Lance!".
Quase seis anos se passaram, e é com imensa alegria que volto.
Porque tinha mesmo que voltar.
Não tenho sequer um motivo para me queixar desse período, ao contrário. Ter visto de dentro a consolidação de um corajoso projeto para implantar um diário esportivo foi uma experiência notável e rejuvenescedora.
Graças a uma política editorial de absoluta independência, o "Lance!" está aí na trincheira pela modernização do futebol brasileiro. Seu editor, Walter de Mattos Jr., é hoje interlocutor obrigatório na luta por um futebol mais bem organizado, transparente (pobre palavrinha, tão espancada no Brasil), rentável e digno dos atletas que aqui nascem.
Luta que esta Folha trava ainda antes de o "Lance!" nascer, oito anos atrás. E para a qual volto com disposição renovada, neste momento em que o país passa por mais uma faxina, tomara que verdadeiramente profilática.
O fato é que o futebol nacional progrediu nos últimos tempos, principalmente por tudo que aconteceu no último ano da gestão FHC, com a redação do Estatuto do Torcedor (que, é verdade, ainda não pegou como deveria) e com a Lei da Moralização (que também precisa ser aplicada com muito mais rigor), além do Brasileirão em pontos corridos.
Se nos primeiros quatro anos de FHC o esporte andou para frente com a Lei Pelé, nos três seguintes regrediu, com o estupro da mesma lei e com os ministros que se revezaram desgraçadamente, até a chegada de Caio Carvalho e a atuação brilhante do "ministro do Futebol", José Luís Portella, principal responsável pelos textos legais que estão em vigor.
Infelizmente, no entanto, e embora o presidente Lula tenha tido a grandeza de assiná-los como as primeiras leis de seu mandato, eis que da assinatura para cá só houve retrocessos. Voltou a promiscuidade do governo federal com a cartolagem, numa política de acomodação onde a necessária ruptura, que contaria com o apoio da opinião pública, foi trocada pelo deslumbramento de um ministro fraco e fisiológico.
A Timemania, sem contrapartidas de mudança no modelo de gestão e responsabilização dos dirigentes, também chamada de "mensalão do futebol", é apenas uma das faces dessa política deletéria, loteria que o Congresso Nacional não pode aceitar nos termos em que está posta.
Por um jogo da seleção brasileira no Haiti, o governo ajoelhou-se diante da CBF, denunciada fartamente em duas CPIs e até agora impune, como seus dirigentes. E tome mais escândalos no esporte, como os que envolveram o velho e bandido bingo para derrubar mais ministros, como já acontecera com Rafael Greca, ou como os atuais, fruto das relações com a Multiaction de Marcos Valério.
O cidadão-torcedor tem o direito de saber. E os jornalistas têm a obrigação de contar.

E os chefes?
Hoje a intenção da coluna era tratar de futebol, pelo menos aqui neste cantinho, já que o texto principal teria mesmo de ser, digamos assim, mais institucional. Como, no entanto, fazer de conta que não existiu a denúncia de "Veja", principalmente por envolver um árbitro que, sabe-se desde 2003, falsificou um diploma do curso colegial (do colégio Antonio Afonso, de Jacareí) para apitar? E os chefes de Edílson Pereira de Carvalho, que permitiram que ele trabalhasse na CBF mesmo com tal passado, não têm culpa? Lembremos: os árbitros são escolhidos por sorteio, ou seja, só podem avisar os apostadores em cima do laço. Imagine se fossem escalados. Aí, os apostadores escolheriam os jogos que os malandros apitariam e eles influenciaram nas escalas.

@ - blogdojuca@uol.com.br


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