São Paulo, domingo, 30 de julho de 2006

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JUCA KFOURI

Devagar com o andor, Dunga



O técnico da seleção precisa tomar cuidados imediatos para não desgastar sua imagem muito rapidamente NO DIA 16 de agosto, a seleção brasileira jogará contra a norueguesa, em Oslo.

No mesmo dia, decide-se a Taça Libertadores, ao que tudo indica, no estádio Beira-Rio, entre Internacional e São Paulo.
Os dois times estão, de certa maneira, redimindo o fiasco nacional na Copa da Alemanha, não só ao mostrar um futebol tecnicamente melhor que o da seleção como, também, por mostrar muito mais apetite e em terrenos mais hostis.
Normalmente, dos dois deve ser o maior número de jogadores para uma seleção que, segundo Dunga já anunciou, será formada por atletas que atuam no país.
Nada mais inoportuno, no entanto, mesmo que se leve em conta a necessidade de o novo treinador mostrar serviço logo de cara e diante de um adversário que, por dessas coisas do futebol, leva vantagem no confronto direto com a seleção pentacampeã -sim, lembremos, a seleção é pentacampeã mundial, por mais que desagrade aos cervejeiros que davam a sexta estrela como líquida, por hábito, e certa.
Convocar jogadores dos dois melhores times do Brasil neste momento, quiçá da América, seria simplesmente um crime contra o futebol, apesar de um crime amparado pela lei, por ser o dia 16 a chamada data Fifa.
Aliás, é impressionante como a Conmebol incide freqüentemente neste erro, de ter jogos de suas competições agendados para datas da entidade maior.
Mas nem São Paulo nem Inter têm culpa disso, e puni-los seria o fim da picada.
Pior ainda será convocar de um e não de outro e ainda mais grave, porém impensável, será chamar só do time paulista, pelas ligações óbvias de Dunga com o clube gaúcho.
Só lhe resta, portanto, esquecer de ambos e se virar como puder, o que, no mínimo, demonstrará bom senso e dará uma desculpa antecipada e verdadeira para eventual fracasso na estréia.
Mas não é só aí que Dunga deve moderar suas ações e expectativas.
Que ele se mire no exemplo de Zagallo, demitido sem dó nem piedade como se fosse um funcionário ordinário da CBF, o que, por mais críticas que possa receber, evidentemente não é -ou não era.
E que Dunga atente, ainda, para uma certa liturgia que o novo cargo impõe -ou deveria impor.
Fazer propaganda do que quer que seja virou parte do jogo, mas estrelar uma campanha para vender automóveis no terceiro dia após sua efetivação como técnico da seleção parece um pouco açodado.
Louve-se, é claro, a rapidez dos publicitários, que estão no papel deles, embora seja exagerado o gesto que associa vender um veículo à comemoração de um gol como o que o então capitão da seleção do tetra fez diante da Itália, na decisão por pênaltis da Copa de 1994.
Que Dunga não se esqueça que amanhã terá de pedir moderação aos seus jogadores para que não percam o foco no futebol, como claramente os Ronaldos perderam ao vender de cerveja (deplorável, sempre é bom sublinhar, quando se trata de quem vive do esporte) a desodorante (recomendável para quem, ao menos, deveria mesmo suar nos gramados).
Nada contra, portanto, que Dunga também vire garoto-propaganda, porque faz parte.
Entrou para a história, por exemplo, aquele anúncio com Sebastião Lazaroni gravado no Vaticano, num carro italiano, perante um policial perplexo e incrédulo:
"Seu nome é Lazaroni, você está em Roma, num carro italiano e ainda me diz que é o técnico da seleção brasileira?". E arrematava: "Pois bem. Então, eu sou o papa!". E multou o treinador.
Te cuida, Dunga!

blogdojuca@uol.com.br


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