São Paulo, quarta-feira, 08 de março de 2000


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POLÊMICA
Estado do instrumento, restaurado no ano passado e avaliado em US$ 3 milhões, causa divergências
Órgão do Municipal opõe especialistas

Divulgação
O órgão do Teatro Municipal, reinaugurado em dezembro de 1999


IRINEU FRANCO PERPETUO
especial para a Folha

Reinaugurado em dezembro do ano passado, após sete meses de restauro, o órgão do Teatro Municipal de São Paulo está no centro de uma polêmica.
De um lado, está a Associação Paulista de Organistas (APO), que enviou uma comissão ao teatro às vésperas do concerto de reinauguração e elaborou dois relatórios concluindo que o órgão estava "inadequado para utilização em recitais, necessitando o instrumento ainda de muitos reparos".
Do outro, estão os Patronos do Teatro Municipal, a partir de cujo projeto o organeiro Ricardo Clerice fez o restauro do instrumento, que apresentam dois pareceres favoráveis assinados pelo maestro e organista Édson Leite, além de um relatório do organista alemão Martin Sander.
Sander tocou no concerto de reinauguração do instrumento, em 7 e 8 de dezembro do ano passado, ao lado da Orquestra Sinfônica Municipal e Coral Paulistano, sob regência de Samuel Kerr. A última récita sofreu uma interrupção, o que levou a especulações sobre o estado do órgão.
"O que aconteceu foi um problema banal", diz Clerice. Segundo o organeiro, o instrumento tem um comando duplo, podendo ser acionado tanto pelo organista, do console, quanto internamente.
"Ao fazer o repasse de afinação do órgão, antes do concerto, eu acabei deixando um jogo de tubos ligado", explica. "Assim sendo, esse jogo não poderia ser controlado do console por Sander. Entrei no instrumento, desliguei o jogo de tubos e ele voltou a ficar disponível ao organista."
O órgão do Teatro Municipal de São Paulo é um G. Tamburini, construído na Itália, em 1968, e com valor estimado em US$ 3 milhões. Tendo sofrido estragos com a reforma do teatro, no final dos anos 80, estava com menos de 20% de sua capacidade sonora. O Deutsche Bank investiu R$ 277.500 no patrocínio de mão-de-obra, compra de materiais, manutenção e concerto de reinauguração do G. Tamburini.
"A APO tem uma comissão que orienta, gratuitamente, a aquisição, reforma e restauração de instrumentos", explica o organista José Jorge Zacharias, presidente da entidade. "Logo que soubemos da reforma do órgão do Municipal, nos colocamos à disposição para acompanhar a obra."
A primeira visita da comissão da APO ao teatro aconteceu em 16 de novembro. Teve acesso a apenas parte do instrumento -dois dos quatro manuais do órgão, alguns registros e parte da pedaleira, ficando sem avaliar os tubos e a memória.
"Não verificar os tubos é como querer comprar um carro e não poder abrir a tampa para olhar o motor", afirma Zacharias. A primeira visita rendeu um relatório apontando uma série de deficiências no instrumento e um manifesto de preocupação com o "tempo hábil para a condução dos trabalhos".
A comissão retornou em 3 de dezembro. Novamente, não teve acesso aos tubos e foi informada de que, em virtude de "vazamento no sistema de ar condicionado do lado direito do teatro", a afinação e harmonização do órgão haviam sido comprometidos.
O relatório produzido nesta ocasião aponta problemas de notas mudas, falhas na repetição e atraso em vários registros, além de necessidade de "ajustes" nas memórias do instrumento que, por necessitar ainda de reparos, não deveria ser utilizado em recitais.
O maestro Édson Leite tocou o órgão do teatro nas mesmas datas das visitas da APO ao Municipal, utilizando, em ambas as ocasiões, os mesmos manuais, registros e partes da pedaleira que estiveram à disposição da Associação.
Em seu primeiro parecer, concluiu que "o instrumento está seguindo um processo de restauro corretamente administrado e executado, restando ainda muito trabalho a ser realizado para que todos os recursos do instrumento possam estar à disposição do organista".
Na segunda visita ao G. Tamburini, Leite escreveu que "as correções realizadas a partir da primeira visita ao instrumento, somadas às melhorias da segunda visita para o concerto inaugural, demonstram a perícia e competência do mestre organeiro e ressaltam sua capacidade de administrar o exíguo tempo de que dispunha, mesmo sob a evidente pressão da proximidade da reinauguração".
"O instrumento segue um processo de restauro corretamente administrado e executado, e que restam apenas pequenos reparos, alguns dos quais somente com o uso regular e constante poderão ser sanados. Não há dúvidas de que ocorreu uma grande restauração do instrumento, ficando para o futuro pequenos ajustes dependentes da manutenção do mesmo", completa.
Sander vai pela mesma linha, afirmando que, "tanto quanto eu sou capaz de julgar, Ricardo Clerice muito cuidadosamente vem restaurando o órgão de acordo com o conceito original".
De acordo com Marcelo Romoff, superintendente da Associação Patronos do Teatro Municipal, o restauro do órgão já estava pronto à época do concerto de inauguração, "à exceção do quarto manual, ou manual de coro, cujos efeitos, de qualquer forma, não seriam necessários naquela apresentação, já que seus recursos só costumam ser utilizados em óperas".
De acordo com Romoff, o quarto manual já está pronto, e o desafio, agora, é a manutenção do órgão. "Os trabalhos começaram em janeiro, mas sabemos que, só colocando o órgão no uso é que vamos ver se ainda são necessários alguns ajustes ou trocas."
Elisa Miranda, diretora de marketing do Deutsche Bank, afirma confiar no "trabalho sério e bonito" dos Patronos. "O órgão estava parado há muitos anos, e a gente sabia da necessidade de um trabalho de acompanhamento ainda a ser feito ao longo deste ano."


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