São Paulo, quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

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Crítica/DVD/"Grande Sertão: Veredas"

Série traduz épico roseano com falhas e boas atuações

Adaptação erra ao colocar Bruna Lombardi em papel de perfil andrógino

JOSÉ GERALDO COUTO
COLUNISTA DA FOLHA

Adaptar o livro "Grande Sertão: Veredas" para qualquer outro meio de expressão é um desafio tão grande quanto traduzi-lo para outra língua que não seja a inventada por seu autor, João Guimarães Rosa.
A saga do jagunço, professor e fazendeiro chamado Riobaldo, com seu amor atormentado pelo companheiro de armas Reinaldo/ Diadorim, é uma das grandes obras da literatura do século 20.
Em 1965 os irmãos Geraldo e Renato Santos Pereira quebraram a cara ao tentar levar o livro ao cinema. Vinte anos depois, com a infraestrutura da Rede Globo a ampará-los, Walter George Durst (roteirista) e Walter Avancini (diretor) tomaram para si a tarefa. O resultado da empreitada foi uma minissérie que marcou época na TV brasileira e que agora é relançada numa caixa com quatro DVDs.
Ao apresentar a série aos espectadores, antes do primeiro episódio, Avancini diz que concebeu a adaptação pensando no grande público iletrado, que não tinha lido e nem viria a ler o livro. É a partir desse propósito declarado que a obra deve ser avaliada. Vamos combinar que a grandeza e o brilho do original nunca serão alcançados. Mesmo porque, para uma transposição audiovisual à altura do texto, seriam necessários os talentos conjugados de um Sergio Leone, um Akira Kurosawa e um Glauber Rocha.
Dito isso, vamos aos problemas. Pensando no espectador que não conhece o livro, a escolha de Bruna Lombardi para o papel de Reinaldo/Diadorim foi um grande erro de casting.
Não por supostas deficiências da atriz, que faz seu trabalho com brio e competência, mas porque o personagem exigiria alguém com um perfil mais ambíguo, para não dizer andrógino. De preferência, alguém desconhecido dos telespectadores. Ora, Bruna Lombardi, além de ter um dos rostos mais lindos e delicadamente femininos que se conhecem, já era uma celebridade.

Perspectiva
Outro problema, que dilui muito a densidade do relato, foi a opção de abolir a narração em primeira pessoa por Riobaldo. No livro, ele conta retrospectivamente sua história, com avanços, recuos e inúmeras digressões, a um interlocutor instruído. Na série, tudo é narrado linearmente, e como que em terceira pessoa, por uma câmera onipresente. Há uma apresentação objetiva de fatos e personagens, que não passam pelo "filtro" da subjetividade de Riobaldo, ao contrário do livro.
É essa subjetividade (bem como a fala peculiar em que ela se expressa) que, no romance, dá unidade às várias dimensões da narrativa -a épica, a lírica e a trágica.
Na minissérie, há "saltos" de tom e estilo, como enxertos de melodrama numa epopeia, ou de cenas épicas num drama romântico. Nada disso anula os méritos da série, a começar pela atuação matizada de Tony Ramos como Riobaldo. Rubem de Falco como Joca Ramiro, José Dumont como Zé Bebelo e sobretudo Tarcisio Meira como o demoníaco Hermógenes demonstraram-se escolhas muito acertadas.
No mais, transparece um grande esforço de produção, em termos de locações, figuração, figurinos etc. Mas, como a grandeza da epopeia roseana não está na quantidade de cavalos e de tiros, mas no coração do drama humano, ainda não foi desta vez que se chegou lá.


GRANDE SERTÃO: VEREDAS

Direção: Walter Avancini
Lançamento: Globo Marcas
Quanto: R$ 71,90
Classificação: 14 anos
Avaliação: bom




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