São Paulo, segunda-feira, 20 de abril de 2009

Texto Anterior | Próximo Texto | Índice

Nana lança CD e planeja parar de fazer shows

Cantora conclui "Sem Poupar Coração" depois de fase dedicada aos pais, Dorival e Stella Caymmi, que morreram no ano passado

"Quero viver como meu pai", diz a carioca, que quer trocar o Rio de Janeiro por Pequeri, em Minas Gerais, e gravar apenas eventuais discos

LUIZ FERNANDO VIANNA
DA SUCURSAL DO RIO

Nana Caymmi estava chateada, na semana passada, com uma nota de jornal que via significado de luto no roxo da blusa que ela vestiu para a capa do CD "Sem Poupar Coração".
"Escolhi uma blusa linda, bem puta, aí dizem que é luto. Fiquei triste", lamentava, com seu jeito marcante de falar.
A confusão da nota talvez possa ser explicada pelo silêncio que antecedeu o disco. Nana largou os palcos em dezembro de 2007 para cuidar dos pais. Dorival Caymmi morreu em 16 de agosto do ano passado, aos 94 anos; Stella Caymmi, 11 dias depois, aos 86.
"Sou estupidamente passional, emocionalmente destrambelhada, então não foi fácil enterrar pai e mãe [em pouco tempo], ficar fazendo footing no cemitério. Pensei: "Vou sentar aqui para ver se tem mais um freguês". O coveiro já estava me beijando", diz.
Só em dezembro passado, por insistência da novelista Glória Perez, ela voltou aos estúdios para gravar, com Erasmo Carlos, "Não se Esqueça de Mim", que está na trilha de "Caminho das Índias" e em "Sem Poupar Coração". Em janeiro, emendou as outras 13 faixas, todas inéditas ou pouco conhecidas, algo que não acontecia desde 2001.
"Quando a poeira baixa, é mais fácil. Agora, eu tenho domínio da minha pessoa. Eu chorava a qualquer palavra, olhava para qualquer coisa e via meu pai e minha mãe", conta ela, que parou com os shows, ainda com Dorival e Stella lúcidos, porque percebeu que "vinha bomba pela frente".
"Meu trabalho é muito traiçoeiro. Você tem que estar muito bem, mesmo as músicas não sendo para sair dançando porque não sou nenhum axé. Eu disse: "Não vou fazer isso comigo'", recorda.
Segundo a cantora, mesmo que alguns neguem, toda a família Caymmi está sem chão depois da perda do casal.
"Ninguém está preparado para isso. Eu era grudada neles. Mijava e mandava a mamãe olhar a cor, para ver se estava bonita. Infelizmente, ela criou os filhos assim. E tirou os meus filhos de mim, criou os meus filhos, ela se metia com a vida de todos nós", diz.
Nana se ocupa com o inventário e restaurando quadros. E negocia com o governo do Rio a entrega ao Museu da Imagem e do Som do acervo do pai.
Para "Sem Poupar Coração", como de hábito, a família se uniu. As primeiras músicas escolhidas foram as dos irmãos Dori (uma em parceria com Chico Buarque, "Fora de Hora") e Danilo e a da sobrinha Alice. Os três também estão no coro, e Dori, em parte dos arranjos do álbum.
A preocupação maior de Nana é com João Gilberto, seu filho de 42 anos, mas com retardo por causa das sequelas de um acidente de moto sofrido em 1989. Para dar a ele "qualidade de vida", pensa em apressar um plano antigo: parar de fazer shows, apenas gravar eventuais discos, e se mudar para Pequeri (MG) -"a terra da minha mãe e onde meu pai foi muito feliz".

Saindo de cena
"Só de ver uma jabuticabeira no quintal, você não entende por que vai ficar [no Rio] numa linha cruzada de fogo. Quero viver como meu pai, ouvir canto de passarinho, escutar boa música, estar com as pessoas e conversar sem choques", diz a carioca, que completará 68 anos no próximo dia 29, e, pela primeira vez, não dividirá a comemoração com o pai, que aniversariava no dia 30.
Nana se diz satisfeita por ter gravado, nos últimos sete anos, enquanto ele estava vivo, quatro discos dedicados à obra de Dorival Caymmi -além de um com músicas de Tom Jobim. Mas reconhece que já era hora de mostrar canções que fossem novas na sua voz, como "Senhorinha" (Guinga/Paulo César Pinheiro), dedicada à sua mãe e que estava "grudada" na sua cabeça há 20 anos.
No repertório, montado em poucos meses com o auxílio do produtor José Milton, estão de autores veteranos como João Donato e Sueli Costa a mais novos como Simone Guimarães e Márcio Ramos, passando por Rosa Passos e Fátima Guedes, presenças frequentes nos álbuns de Nana.
"Acham que é fossa o que eu canto, que é para baixo. Deixo cada um dizer o que quer, mas sabe o que eu quero? Melodia e letras bonitas. Escolho assim", resume.


Texto Anterior: Velho Spock aparece em novo filme
Próximo Texto: Frase
Índice



Copyright Empresa Folha da Manhã S/A. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita da Folhapress.