São Paulo, sexta-feira, 21 de abril de 2000


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GASTRONOMIA

De ponta-a-ponta é tudo praia-palma...

NINA HORTA
Colunista da Folha

Estou como que de ressaca dos 500 anos. E quem não está? Todos esmagados pela informação deglutida rapidamente nos livros e revistas. Afinal são 500 anos, não podemos continuar nesta inocência.
Que venha mais uma biografia, um artigo, uma anedota, um documentário. Uma indigestão de nomes de tribos e de índios. O cauim, cantigas, índios de grife, jacuba, aluá, macacos, jacus e as vergonhas das índias de Caminha, tão altas, tão cerradinhas que até davam gosto.
Temos festejado como convém a tão magna data. Inaugurações, vernissages, lançamentos de livros, festas mil, tudo com comida de índio.
Acontece que os peixes, a caça e as frutas exóticas andam, se não extintas, com certeza pelo olho da cara, e sobrou-nos a mandioca. Nunca fomos tão inventivos quantos às múltiplas receitas da fundadora raiz.
Antes isso, no entanto, porque a mais visceral e completa receita de índio nos foi dada por Hans Staden. Vale a pena lê-la no livro "Portinari Devora Hans Staden", da editora Terceiro Nome, 2000, SP. É a primeira receita passo a passo que temos, com ilustrações fortíssimas de botar a correr o mais corajoso dos portugueses. Vejam.
"Nisto o algoz golpeia o prisioneiro na nuca de forma que lhe jorre o cérebro. Imediatamente, as mulheres pegam o morto, arrastam-no para cima da fogueira, arrancam toda a sua pele, deixam-no inteiramente branco e tapam seu traseiro para que nada lhes escape. Depois que a pele foi limpa, um homem o segura e lhe corta as pernas acima dos joelhos e os braços rente ao tronco (....) A seguir, separam as costas junto com o traseiro da parte dianteira. Dividem tudo entre si. As vísceras ficam com as mulheres. Fervem-nas, e com o caldo fazem uma massa fina chamada mingau, que ela e as crianças sorvem. As mulheres comem as vísceras da mesma forma que a carne da cabeça. O cérebro, a língua e o que mais as crianças puderem apreciar elas comem. Quando tudo tiver sido dividido voltam para casa e cada um leva um pedaço."
Convenhamos que já começamos violentos com o bispo Sardinha, fomos caminhando com um português aqui, outro ali, e levamos 500 anos para terminar as nossas pendengas com pizza.
Confesso que me desapontei um pouco com as pesquisas sobre a comida do Descobrimento até aqui.
Imaginei teses ferventes de novidades, jovens universitários, de óculos e lentes, curvados sobre nosso dia-a-dia alimentar de Norte a Sul, mas não. Pelo menos eu não vi.
Honras foram dadas a quem as merecia. Desenterramos de vez Câmara Cascudo e Gilberto Freyre. Talvez seja culpa deles a nossa inércia nos estudos de comida. Talvez por termos começado por onde outros acabaram. Quantos países podem se gabar de livros como "A História da Alimentação no Brasil?" e "Casa-Grande & Senzala"?
Por sinal, acabaram de sair do forno dois livros pontuando na hora H este 21 de abril. Um deles é "500 anos de sabor. Brasil", 1500 a 2000, Eda Romio, ER Comunicação, 2000.
A autora pesquisou por dois anos. Começa com a chegada de Cabral, percorre os ciclos de nossa economia, pega atalhos como a comida de santo, de estrada, de imigrantes. Sua originalidade está na pesquisa recente, os primeiros supermercados, fast food, a nova mulher de um mundo globalizado. Apresenta cerca de 215 receitas.
Sílvio Lancellotti escreveu "500 Anos de Gastronomia em Terra Brasilis", LPM, SP, 2000. Um livro curto, de texto ágil e econômico, simpático, fluente e inteligente. Em 12 páginas consegue resumir a origem da cozinha brasileira, coisa que muito autor não consegue em cem... Elegeu 40 receitas e adaptou-as muito bem aos dias de hoje.
Como leitura comemorativa dos 500 anos deste nosso Brasil, sugiro a carta de Caminha, inigualável na sua graça e engenho ao descrever esta terra nossa: "E, em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo, por bem das águas que tem". Evoé, salve, tucumandu, seja lá o que for!


ninahort@uol.com.br



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