São Paulo, sexta-feira, 21 de abril de 2000


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TEATRO CRÍTICA

"Mais Perto" entrelaça paixão e máscaras

NELSON DE SÁ
da Reportagem Local

Na cena mais engraçada de "Mais Perto", um jornalista (Dan) e um médico (Larry) estão num chat, na Internet, mas não são nem o jornalista nem o médico. Fazem "sexo virtual" num ritmo histérico, excitando um ao outro com provocações as mais obscenas. A cena, como as demais, mostra o domínio que o inglês Patrick Marber tem do humor, ele que foi comediante "stand up" e redator de programa humorístico antes de dramaturgo.
Mas a cena é mais: é um reflexo da obsessão contemporânea pela representação, da vitória final da virtualização. O jornalista e o médico são seres insatisfeitos com suas máscaras existenciais, vivendo outros personagens para se aliviar do cotidiano.
A cena é anedótica. Mas não é anedótica a personagem Alice, uma jovem que o jornalista encontra machucada e à qual ele se liga. Não se sabe quem ela é. Seu nome e sobrenome, descobre-se depois, foram criação sua, bem como as histórias que conta. Ela gosta de dançar, é agressiva e vulnerável, na personagem de si mesma que fascina o jornalista.
Com "Mais Perto", São Paulo fecha a encenação da trilogia do novo teatro inglês, completada por "Shopping and Fucking" e "A Rainha da Beleza de Leenane", montadas em 99. Trilogia que provou que a dramaturgia é capaz de se renovar e erguer um espelho à sociedade de hoje.
Sobressaltos como os que vivem os quatro personagens de "Mais Perto". Dan, Larry, Alice e a fotógrafa Anna são seres angustiados de cidade grande que, cada um à sua maneira, buscam paixão e sexo. Eles se apaixonam uns pelos outros (Dan e Larry não vão além da histriônica cena de computador, muito bem resolvida pela encenação), logo a paixão se esgota, e eles seguem em frente.
A única que se mantém quixotescamente envolvida é Alice, perdida em sua personagem. Interpretada por Guga Stresser de maneira enternecedora, mas sem o fervor que era de esperar, Alice é o centro do desejo na peça: aquele em torno do qual giram os já desesperançados, quase cínicos Anna, Dan e Larry. Esse último, vivido por José Mayer com um perfeito viés de cafajeste, jamais se deixa envolver, na verdade -ele que identifica paixão com posse e sexo. É o personagem mais superficial de "Mais Perto".
Anna, a fotógrafa, é aquela que apreende melhor o que se passa com os demais, aquela que vê "mais perto", mas é a mais distante. Como uma espectadora, ela se liga a Dan e a Larry, mas sem se deixar levar inteiramente como Alice. É representada por uma Renata Sorrah que exacerba tais características, que esfriam a encenação. O mesmo se pode dizer de Marco Ricca, que faz Dan. Sente-se a falta de um arrebatamento em sua atuação, o que se deve talvez à interpretação literal do jornalista como um cansado autor de necrológios.
A encenação de Hector Babenco, que abusa dos blecautes a ponto de deixar a impressão de se estar diante de esquetes, tem seu ponto maior na cenografia impactante de Gringo Cardia: um engenhoso entrelaçamento de planos e painéis e texturas, como no entrecruzar das existências que, no palco, afinal se perdem umas das outras.


Avaliação:    

Peça: Mais Perto
Quando: sex. e sáb., às 21h; dom., às 18h Onde: Teatro Cultura Artística (r. Nestor Pestana, 196, tel. 0/xx/11/258-3616)
Quanto: de R$ 20 a R$ 40


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