São Paulo, domingo, 21 de novembro de 2010

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Ator retorna aos palcos depois de 55 anos

Após período na direção, José Renato, fundador do Arena, atua no espetáculo "12 Homens e Uma Sentença"

José Renato esteve por trás de montagens que revelaram Augusto Boal, Gianfrancesco Guarnieri e Vianninha

LUCAS NEVES
DE SÃO PAULO

A curva dramática do Jurado nº 9, personagem que José Renato, 84, interpreta na peça "12 Homens e Uma Sentença", emula a da carreira dele: uma convicção inicial logo vai ao chão.
Em cena, ele é um dos primeiros a questionar os argumentos que sustentam a acusação de que um jovem matou o pai a facadas.
Pula do rebanho dos que urram "culpado!" para a ala dos que, diante da falta de provas cabais, defende o veredicto oposto. Já na porção não ficcional de sua vida no teatro, ele saltou cedo do transatlântico da atuação para o bote da direção.
Formado ator na primeira turma da Escola de Arte Dramática da USP, em 1950, fez sua estreia a bordo de "Os Pássaros", do grego Aristófanes. Depois, vieram textos de Kafka, Pirandello, Brecht e Martins Pena. Ao fim do sétimo cruzeiro, "O Prazer da Honestidade" (1955), desceu da embarcação.
"Tenho um tipo físico especial", diz o senhor franzino. "Não sirvo muito para ser ator. Precisa ter uma disposição especial, estar lá toda noite. Mas agora estou fascinado com essa possibilidade [de voltar]."
Para o regresso, fez exercícios de voz e postura. "A dificuldade é decorar o texto. Quando dirijo, decoro a peça toda nos ensaios. Aqui, fora dessa posição, me senti meio acuado", afirma José, aqui sob os auspícios de Eduardo Tolentino, do grupo Tapa.
No hiato de 55 anos, José se fez diretor. Fundou e esteve à frente do Arena, um dos faróis a iluminar a cena nacional na longa noite da ditadura militar. Da miúda sala em forma de círculo na rua Teodoro Baima, no centro de São Paulo, vinham lampejos sobre os impasses e gargalos da sociedade brasileira.
As montagens também revelavam nomes como o Gianfrancesco Guarnieri de "Eles Não Usam Black-Tie", o Augusto Boal de "Revolução na América do Sul" e o Vianninha de "Chapetuba Futebol Clube" (dirigido por Boal).
José deixou o timão do Arena em 1962, mas seguiu em águas brasileiras. Nas décadas seguintes, montou criações de Juca de Oliveira, Millôr Fernandes, Dias Gomes e João Bethencourt.

"CHAPETUBA"
Em 2008, na reabertura do Arena depois de uma reforma, foi chamado pela Funarte para guiar jovens atores em nova versão de "Chapetuba". A volta para casa foi abreviada, no ano seguinte, pelo lançamento de um edital para ocupação compartilhada da sala por duas companhias, durante três meses.
"Isso é uma bobagem, uma besteira. Um teatro tem de ficar com alguém, com um grupo por no mínimo três anos, como na Europa", opina, em tom de mágoa.
"A minha ideia era continuar com o elenco de "Chapetuba", formar um corpo permanente de atores. Mas as pessoas são imediatistas, não querem saber de mais tempo, mais profundidade."
No mesmo período, ele dirigiu o Teatro dos Arcos, na região central de São Paulo, onde criou o grupo Casa da Comédia. Há alguns meses, a trupe teve de zarpar dali por conta da subida do aluguel. Mais uma desilusão.
Por ora, José prefere se deter sobre a peça com toques de ficção científica que guarda na gaveta (sim, ele também escreve): uma fantasia em que um grupo de homens volta à superfície depois de viver um século sob a terra.
Ou imaginar papeis para a nova velha carreira. "Há personagens de [Harold] Pinter que podem ser feitos por atores da minha idade." Tem fôlego esse marinheiro.


12 HOMENS E UMA SENTENÇA
QUANDO de qui. a sáb., às 19h30, dom., às 18h; até 19/12
ONDE CCBB (r. Álvares Penteado, 112, tel. 0/xx/11/3113-3651)
QUANTO R$ 15
CLASSIFICAÇÃO 12 anos




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