São Paulo, sexta-feira, 27 de dezembro de 2002

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O selvagem da motocicleta


Walter Salles conclui filmagens de longa sobre a viagem do jovem Che Guevara pela América do Sul, em 1952


SILVANA ARANTES
DA REPORTAGEM LOCAL

"O menino é o pai do homem" é uma idéia machadiana. Há um eco desse pensamento do genial escritor brasileiro no próximo filme do cineasta Walter Salles, 46.
Em "Diários de Motocicleta", seu sexto longa-metragem, o diretor pretende retratar o homem Ernesto Guevara antes de ter se transformado no mito Che.
O longa se baseia no relato da viagem em que o futuro líder revolucionário -então com apenas 22 anos de idade e na exclusiva companhia do amigo Alberto Granado- cortou a América do Sul, da Argentina até a Venezuela.
"Foi uma viagem de cristalização de identidades, eleições éticas e morais, realizada em um continente cuja identidade também estava em processo de transformação", diz Salles.
Falado em espanhol, produzido pelo norte-americano Robert Redford e protagonizado pelo mexicano Gael García Bernal, o longa teve suas 14 semanas de filmagens, feitas na Argentina e no Chile, concluídas no mês passado.
Na entrevista a seguir, Salles comenta o projeto do filme e sua aproximação com o pensamento de esquerda.

Folha - Como fazer um filme-de-personagem sobre Che que se sustente em si mesmo, e não seja ultrapassado pela figura mítica do personagem?
Walter Salles -
A dimensão de uma vida como a de Ernesto Guevara transcende em muito o cinema. Qualquer tentativa de narrar a sua trajetória completa seria um exercício redutor.
"Diários de Motocicleta" é uma pequena história que antecede a história com h maiúsculo, o relato de uma viagem de descobrimento ocorrida durante os anos de formação de dois jovens latino-americanos.
Para chegar aonde chegamos, fizemos três anos de pesquisas, percorremos duas vezes a rota que Ernesto e Alberto trilharam através do continente, ouvimos a família Guevara, entrevistamos Granado muitas vezes.
Por mais pesquisas que tenhamos feito, tenho consciência de que nossos esforços serão incompletos.

Folha - O que "Diários de Motocicleta" quer comunicar, para além do fato histórico da viagem do jovem Che pela América Latina?
Salles -
Qual a pertinência de um projeto como esse hoje em dia? O filme tem o desejo, talvez utópico, de mergulhar num continente que merece ser conhecido "desde su propia mirada", para usar um termo em espanhol. Há 50 anos, dois jovens mostraram que esse não é um continente irrelevante.
Na escola, aprendemos mais sobre os gregos e os fenícios do que sobre as culturas que nos são próximas. Aprendi dezenas de coisas que desconhecia, informações que me ajudaram a entender um pouco melhor de onde viemos, quem somos. Talvez o filme consiga passar essa sensação.

Folha - Enquanto você realiza "Diários de Motocicleta", baseado na vida de Che, o documentarista João Moreira Salles, seu irmão, prepara um filme sobre a campanha vitoriosa de Lula à Presidência. É uma coincidência ou um diálogo?
Salles -
Esse projeto ["Diários de Motocicleta"" começou em 99, muito antes das transformações que estamos vivendo. Na época, falava-se em morte das utopias, e não na necessidade de revitalizá-las. O fato de o relato de "Diários de Motocicleta" vir na contramão do momento que experimentávamos foi uma das razões que me levaram à frente.
Se o projeto adquiriu sincronicidade com o seu tempo, isso faz parte das surpresas que a vida reserva... Quanto ao João, todo o seu trabalho de documentarista sempre esteve de mãos dadas com o batimento do país -"Notícias de uma Guerra Particular", a série sobre futebol etc.

Folha - Por que a esquerda é, neste momento, um tema cinematograficamente sedutor para você? Com "Diários de Motocicleta", o cineasta Walter Salles se coloca como um pensador à esquerda?
Salles -
Respondo com uma lista dos filmes e documentários que produzimos ou co-produzimos na Videofilmes [empresa dos irmãos Salles" nos últimos anos: "Babilônia 2000" e "Edifício Master", de Eduardo Coutinho. "Raízes do Brasil", a série "Casa Grande e Senzala" e "Meu Compadre Zé Ketti", todos de Nelson Pereira dos Santos. "Madame Satã", de Karim Aïnouz. "Cidade de Deus", de Fernando Meirelles e co-direção de Katia Lund. "O Invasor", de Beto Brant, esses dois últimos em regime de co-produção.
Ou seja: se há algo em que acreditamos há anos, é em projetos que possam ajudar a pensar um país diferente, mais justo e socialmente responsável. E não se constrói um país assim sem mudanças estruturais. Quanto a "Diários de Motocicleta", também vejo o filme como a extensão de um trabalho iniciado há tempos. Por trás da busca daquele pai(s), "Central do Brasil" [1998" tentava mostrar que o Brasil valia a pena, depois do trauma do desgoverno Collor.


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