Saltar para o conteúdo principal Saltar para o menu
 
 

Lista de textos do jornal de hoje Navegue por editoria

Ilustrada

  • Tamanho da Letra  
  • Comunicar Erros  
  • Imprimir  

Minha vida dá uns livros

Tendência de autoficção coincide com fase de superexposição de escritores

Aproximação entre narrador e autor é característica recorrente nos últimos livros da nova geração

RAQUEL COZER COLUNISTA DA FOLHA

Eu nunca estive tão em alta na literatura brasileira. Ou melhor, o "eu", esse personagem que se apresenta ao leitor em primeira pessoa e tem um passado em comum com o escritor que o criou, nunca protagonizou tantos romances publicados no país.

Ficções recentes, como "Divórcio", de Ricardo Lísias, "A Maçã Envenenada", de Michel Laub, e "Antiterapias", de Jacques Fux, têm em comum essa aproximação entre autor e narrador.

Mais tradicional em países como a França --onde surgiu, nos anos 1970, o termo "autoficção"--, a mistura de autobiografia e ficção tem seu momento mais forte na produção literária nacional, na avaliação de especialistas.

"O Brasil finalmente descobriu a autoficção", diz Luciana Hidalgo, uma das maiores estudiosas do gênero no país. "Há uma moda. Começou na França, agora chega ao Brasil, à Argentina, ao México", diz a estudiosa Diana Klinger, que escreveu sobre o tema em "Escritas de Si, Escritas do Outro" (2008).

Em livros assim, o personagem pode ter o nome do autor --caso de Ricardo, protagonista de romances de Ricardo Lísias, ou de Marcelo ou M.M., como se apresentam os narradores das ficções de Marcelo Mirisola.

Pode compartilhar com o autor lembranças sem fim, tal como o protagonista de "Antiterapias", de Jacques Fux, agraciado no mais recente Prêmio São Paulo de Literatura, ou o de "O Filho Eterno", o premiadíssimo romance de Cristovao Tezza.

Ou pode, em nuances mais sutis, ter pontos do passado em comum com seu criador. Isso é algo que se vê nas obras de Michel Laub, autor de "Diário da Queda" e "A Maçã Envenenada", e de Paloma Vidal, autora de "Algum Lugar" e "Mar Azul".

Curiosamente, essa produção vem, em geral, acompanhada de uma recusa: a de que os leitores façam uma leitura biográfica da ficção que lhes é apresentada.

Laub diz que basta ler seus romances para constatar que um contradiz o outro, inclusive ao narrar ao fatos iguais.

"Não tenho como ter seis biografias diferentes, então é óbvio que estou manipulando a memória. Escritores fazem isso, com a memória, a imaginação, a matriz que for", diz ele, que vê como elogio o fato de o leitor deduzir que o que está escrito ali é verdade, e não criação.

Lísias, autor de romances radicais nesse sentido -- "O Céu dos Suicidas" parte da morte de um amigo do autor; "Divórcio" aborda o fim de seu casamento de quatro meses--, rejeita a "espetacularização" da leitura biográfica.

"Se por autoficção compreendermos a contestação radical da possibilidade de a literatura refletir, meus livros se enquadram no termo. Mas, se significa o autor dizer que o livro é sua vida, não. Livro algum reflete a realidade. Achar o contrário é matar o que há de arte na literatura."

TSUNAMI

"O Brasil foi tomado por esse tsunami autoficcional com força e particularidades", diz Luciana Hidalgo.

A estudiosa vê em Lima Barreto (1881-1922) o fundador desse tipo de registro. Ao escrever "Vida e Morte de M.J. Gonzaga de Sá" (1919), Lima chegou a dar a um dos personagens seu próprio nome, Afonso, mas voltou atrás. "Era uma ousadia na época" Hidalgo. "A exaltação do eu na ficção sempre foi tabu."

Se na França vê-se essa tradição na obra de Marcel Proust e Louis-Ferdinand Céline, no Brasil ganhou força a partir de "O que É Isso, Companheiro" (1979), de Fernando Gabeira, definido pela Companhia das Letras como "romance-depoimento"

O crítico literário e escritor Silviano Santiago foi um dos primeiros brasileiros a assumir o termo "autoficção" ao lançar os contos de "Histórias Mal Contadas", em 2005.

Embora ainda recorra ao expediente, Santiago acredita que exista um elemento facilitador nele. "Se você usa sua vida como base, não cria um obstáculo, facilita. É diferente fazer um Ulysses', de James Joyce", avalia.

CONFUSÃO

Marcelo Mirisola acha graça quando confundem sua vida com sua obra. "O bom escritor faz o que quer da memória: lembra, finge que lembrou, passa recibo", diz.

Para ele, "escrever na primeira pessoa não é para qualquer pangaré". "É mais arriscado. Por conta da exposição, da confusão que certamente virá. Eu escrevo na primeira pessoa porque adoro confusão. Precisa ter cacife ou ser louco varrido. Eu me incluo nas duas categorias, e isso aborrece muito meus pares", diz o escritor.

Para o estreante Jacques Fux, o uso da primeira pessoa tem a ver com "conforto".

"Acho que não teria destreza em fazer isso na terceira pessoa. Vai de autor para autor, há muitos que se sentem mais confortáveis em escrever em terceira pessoa e criar outro personagem", diz ele, que escreve um segundo romance, também com o "eu" como protagonista.

A tendência, na avaliação da estudiosa Diana Klinger, surge num momento propício. "Essa postura é oportuna hoje em dia, quando a figura do autor é fundamental para o mercado literário, quase tão importante quanto seus livros. Coincidência ou não, essa tendência contemporânea se adapta muito bem a essa necessidade atual de exposição do autor", diz.


Publicidade

Publicidade

Publicidade


 

Voltar ao topo da página