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Canção do ano, 'Get Lucky' aponta mudança

Sucesso da dupla francesa Daft Punk indica que a fórmula repetitiva das paradas de sucesso deve ser repensada

Trunfo da faixa, lançada em abril, é soar despretensiosa, sem pirotecnias, como um clássico esquecido

ALEXIS PETRIDIS DO "GUARDIAN"

"Random Access Memories" é um álbum que almejava um ouvinte perfeitamente ciente do esforço realizado para sua produção.

Trata-se do fato, muito alardeado, de que as faixas não continham samples; o elenco de músicos de estúdio lendários, e caríssimos, reunido para as sessões em Los Angeles, e os créditos da orquestra envolvida na criação do trabalho, com 22 violinistas e cinco trompistas.

Além disso, a campanha publicitária à moda antiga, com comerciais de TV e outdoors na Sunset Strip.

A ironia é que a canção que serve de peça central ao álbum parecia ter surgido sem esforço --e se impôs como a melhor canção de 2013.

Do vocal de Pharrell a todos os demais elementos, "Get Lucky" soava como uma faixa na qual ninguém tivesse precisado suar a camisa, e ainda assim o resultado final pode ser considerado como uma das jogadas mais difíceis no rock e na música pop.

É assim: gravar uma canção nova que pareça instantaneamente familiar, como se sempre tivesse existido, como um clássico que o ouvinte tivesse esquecido por algum tempo e reencontrasse.

Dado seu imenso sucesso e o lançamento ruidoso --trechos nos intervalos de "Saturday Night Live", estreia muito bem recebida do vídeo no Coachella Festival--, "Get Lucky" tem algo de muito discreto e despretensioso, especialmente no contexto do pop atual.

Sem pirotecnias vocais, sem um refrão prenunciado por um break instrumental e --excetuado o uso ocasional de um vocoder (sintetizador de voz)-- sem qualquer das marcas registradas dos discos do Daft Punk que se tornaram a assinatura sonora do pop dos anos 2000.

Em um álbum de grandes gestos sonoros --faixas episódicas que oscilam da música eletrônica às canções de musicais da Broadway, passando por disco music cafona e baladas--, o som de "Get Lucky" nada tem de ostensivo.

É apenas uma sucessão de pequenos e sutis prazeres: a forma pela qual a guitarra característica de Nile Rodgers se combina intrincadamente ao piano elétrico, a palavra "look" que Pharrell diz em tom casual antes de cantar o primeiro refrão...

O apelo reside quase inteiramente em sua melodia e em sua assinatura sonora.

O sucesso conquistado --7,3 milhões de cópias vendidas nos cinco primeiros meses-- parece indicar uma mudança de direção na música pop.

Deve existir algo de revelador no fato de que os dois maiores singles do ano --"Get Lucky" e "Blurred Lines", de Robin Thicke-- nada tenham a ver com o rave-pop de fórmula repetitiva que domina as paradas nos últimos anos.

Depois das duas canções, qualquer artista que se apegue ao modelo antigo parecerá um tanto defasado --quer se trate de Lady Gaga, quer se trate de Jessie J.

Astros pop, produtores e compositores talvez tenham de se esforçar mais no futuro. "Vamos subir o nível", canta Pharrell. "Get Lucky" fez exatamente isso.


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