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A ficção do autógrafo

Cientes da importância das noites com os autores para a venda de livros, empresas tentam criar alternativas que permitam dedicatórias em e-books

RAQUEL COZER COLUNISTA DA FOLHA

"Parecem inscrições rupestres", constatou Noemi Jaffe, 52, dias atrás, ao olhar para a dedicatória que acabara de anotar na capa de seu livro "Comum de Dois". Com boa vontade, era possível ler "para o Samir, com carinho".

Munida de uma caneta stylus, feita para telas sensíveis ao toque, e de um iPad, a escritora protagonizava, na Livraria Cultura, em São Paulo, uma rara noite de autógrafos digitais. Seu recente livro de contos saiu apenas como e-book, pelo selo e-galaxia.

A dificuldade em escrever na tela de um tablet é o menor dos dramas envolvendo a ideia de autografar livros digitais, que ganha corpo nos Estados Unidos, onde os e-books correspondem a mais de 20% do total da venda de livros no país --por aqui, não chegam a 5% do mercado.

Pode parecer detalhe, mas dedicatórias têm valor comercial e afetivo. Para o leitor, é a prova inestimável de que esteve com o autor que admira. Para quem escreve, noites de autógrafos garantem livros vendidos. Autores independentes não raro vendem nessas ocasiões suas únicas cópias, a amigos e familiares.

Atenta a esse cenário, em setembro de 2013 a Apple patenteou um sistema que permitiria a autores autografar e-books vendidos por sua loja virtual, a Appstore. Ainda não pôs a ideia em prática.

A questão é que, para os autógrafos poderem ser inseridos nos e-books, é preciso que estes não tenham travas de segurança (o DRM, sigla de Digital Rights Management), que impedem cópias ilegais. Quase nenhuma loja vende sem essa trava.

Por aqui, a e-galaxia, uma das únicas editoras com noites de autógrafos digitais, recorreu ao aplicativo Skitch Notes. Com ele, é possível autografar a capa --mas uma capa de mentirinha, que não pode ser agregada ao e-book. O autor assina em seu tablet e envia por e-mail ao leitor.

"É uma espécie de souvenir", diz o editor Tiago Ferro. "O leitor pode compartilhar nas redes sociais", comenta.

A desvantagem é que ninguém garante que quem ganhou o autógrafo comprará o livro. E a ideia de um autógrafo avulso na rede não é exatamente animadora.

"Vai aparecer aqui no meu e-book?", quis saber uma leitora, na noite de autógrafos de Noemi. "Hm. Não. Vai aparecer só uma capa. Solta. No seu e-mail", respondeu a autora, cheia de sinceridade.

DEGUSTAÇÃO

Um ano atrás, a e-galaxia fez uma parceria com a americana Autography, precursora nesse mercado, para o lançamento de "The Book Is on the Tablet", de Alberto Villas. Na ocasião, autógrafos eram inseridos em uma "degustação", com parte do e-book.

A empresa americana, que começou a operar em junho de 2012, ofereceu os serviços de graça para chamar a atenção no mercado brasileiro, mas não houve interessados. Nos EUA, já recorreram à empresa mais de 600 autores, incluindo best-sellers do "New York Times", como Alison Gaylin e Jon Land.

Garry Martin, criador da Autography, diz que editoras como Penguin e Harper Collins aceitam que livros autografados sejam vendidos sem DRM pelo site da empresa porque a dedicatória serve como um "DRM brando", ao permitir identificar a origem de um exemplar pirateado.

Martin diz que seus advogados estudam a patente de autógrafos da Apple, "que é muito similar" ao modelo da Autography, lançada um ano e três meses antes.

Precursor por precursor, à frente nesta fila estão escritores independentes como o gaúcho Luís Peazê, 56, que há cerca de três anos oferece seu e-book "Alvídia - Um Horizonte a Mais" autografado, na venda por seu site. Mas é um desses pioneirismos que costumam ficar restritos a amigos e familiares.


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