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As palavras se movem no Cairo

Uma artista e seu dicionário vivo da revolução egípcia

DIOGO BERCITO

RESUMO Projeto desenvolvido por artista do Egito pretende catalogar os significados que as palavras árabes assumem nas ruas do Cairo. A nova proposta de dicionário, com foco nas transformações dos vocábulos e não em seus sentidos estanques, usa a língua como ponto de partida para escrutinar as revoltas que tomam o país.

A artista egípcia Amira Hanafi quer redefinir o definido. Em seu mais recente projeto ela se dispõe a repensar o significado das palavras listadas no dicionário da língua árabe e também a própria concepção de um léxico. Em vez de tratá-lo como a reunião do sentido estanque dos termos, ela o concebe como um apanhado de suas transformações.

Hanafi, 34, prepara o que chama de "Dicionário da Revolução", incluindo não as definições teóricas das palavras, mas o que elas significam na prática, nas ruas do Egito, para a população. "Em certos sentidos, é um não dicionário", diz a artista à Folha.

A raiz da ideia está nos usos do termo "fuluul", que, em árabe formal, se refere a reminiscências. No Egito, a palavra passou a representar os resquícios do regime militar de Hosni Mubarak.

Até a insurgência de 2011, na qual o ditador foi deposto por manifestações populares, o termo "fuluul" era apenas mais um no "desmancha-dúvidas". "Ninguém sabia o que significava, a não ser que fosse um acadêmico", afirma Hanafi. Até que o termo ganhou vida e passou a ser um dos mais usados em qualquer conversa sobre as revoltas. "Foi aí que decidi usar a língua como ponto de partida para que o povo pudesse se expressar sobre a revolução."

Para a artista, importa mais o modo como as pessoas usam a linguagem nas ruas do Cairo do que o significado da palavra em sua origem.

A metodologia de trabalho dela envolve os chamados "cartões do vocabulário revolucionário": fichas com palavras ou frases ligadas ao universo da revolução. Ela mostra os cartões aos entrevistados e pede que eles se expressem sobre aqueles termos. O dicionário de Hanafi trará transcrições literais das respostas.

O trabalho tem uma importância especial no âmbito da língua árabe, em que existe uma situação de diglossia --isso é, a convivência de uma variante padrão e de versões dialetais, a exemplo do experimentado pelo latim durante o surgimento de variantes vernaculares como português, espanhol e italiano.

Ao definir as palavras especificamente no dialeto cairota e no contexto da revolução, ela opta por um recorte específico e com forte cunho político.

É também uma questão de relevo linguístico. A diglossia é problemática tanto para nativos quanto para estudantes, pois impõe a escolha de um registro.

É uma opção que, por exemplo, divide autores entre os que escrevem em árabe literário, distanciando-se da realidade da fala, e aqueles que adotam o árabe dialetal, ao qual acadêmicos podem torcer o nariz por ser "popular" demais.

Amira Hanafi demarca claramente sua escolha. "O texto do livro não será transformado em árabe correto'."

A opção está relacionada ao público almejado. "O árabe coloquial tem muito mais alcance se você quer atingir os egípcios, já que nem todos eles foram educados o suficiente para ter uma ideia do que é o árabe padrão."

BICHO-PAPÃO O dicionário é o bicho-papão dos estudantes de árabe. A tradição das línguas semíticas --o que também inclui o hebraico-- concebe as palavras a partir de raízes consonantais, o que representa um desafio inclusive na hora de organizar o léxico.

Se no português pensamos em uma palavra como escrever e a modificamos a partir de um núcleo, criando escritor, escreve e escritório, no árabe elas costumam começar em três consoantes. Assim, a ideia de escrita está expressa na raiz "KTB", a partir da qual surgem "kataba" (escrever), "kaatib" (escritor), "yaktub" (escreve) e "maktab" (escritório).

Na prática, a análise consonantal do árabe faz com que o dicionário seja, tradicionalmente, organizado a partir da ordem alfabética das raízes, e não das palavras. Dessa maneira, é importante que o estudante saiba que uma estrutura de tipo "taXaaXaXa" listada em "KTB", em que "x" representa as letras da raiz, dá conta de um sentido de ação recíproca. Ou seja, "takaataba" significa corresponder-se. Não surpreendentemente o dicionário é conhecido como "qamus" em árabe, ou seja, oceano. É necessário mergulhar.

A lista de palavras do mar revolucionário de Hanafi inclui, em etapa seminal, termos como liberdade, justiça e sociedade. Há também entradas como "aish", que a rigor significa vida, mas é usado em sentido mais amplo para se referir ao pão, nas ruas do Egito. "São ideias abstratas, sem significado fixo. Elas podem representar algo diferente para cada pessoa", diz Hanafi.

MISCIGENAÇÃO A abordagem artística e política da língua já aparecia em trabalhos anteriores de Hanafi. Ela é autora, por exemplo, de um livro chamado "Minced English" (2010), sobre definições em inglês para a miscigenação racial.

De família egípcia, Hanafi cresceu nos Estados Unidos e fez seu mestrado em escrita criativa no Instituto de Arte de Chicago. Ela aprendeu árabe para conseguir ler o Alcorão, livro sagrado do islamismo. Mas diz que só encontrou chão firme no idioma quando se mudou para o Egito, em 2010. "Aprendi de maneira informal, conversando. Por isso tenho uma relação forte com a variante coloquial", conta.

O projeto de seu "Dicionário da Revolução" começou em 2011 e só deverá ser concluído daqui a um ano. A impressão do livro será custeada por um fundo árabe para artes e cultura. O restante do dinheiro necessário para o projeto será recolhido por doações, via internet.

O tempo de produção da obra é análogo, diz Hanafi, àquele tomado pela própria revolução --que, como ficou evidente pelo golpe de Estado de 3 de julho, ainda está em andamento. As mutações políticas em si fazem parte do projeto, a exemplo do termo "inquilaab", que se refere a um golpe.

Nas ruas do Cairo, durante a deposição do presidente islamita Mohammed Mursi, a reportagem da Folha ouviu em diversas ocasiões cairotas insistindo: "Isso não é um golpe de Estado". A frase tornou-se corrente, no Egito, entre a oposição secular que pediu a saída da Irmandade Muçulmana do poder. "É curioso", nota Hanafi. "Por que a palavra golpe' é importante? O que ela significa? Por que está sendo rejeitada?"

Essas perguntas fazem parte do escopo do projeto artístico dela. Afinal, as análises dos eventos políticos no Egito tratam, quase sempre, disso: houve ou não um golpe de Estado lá? "Não há muita reflexão, não há observações complexas de que, sim, houve um golpe, mas um golpe de outra natureza", afirma.

A insistência em negar a ocorrência de um golpe de Estado é uma postura comum entre os seculares, que se frustram ao ver que a deposição de Mursi, após a manifestação de milhões nas ruas, é analisada no Ocidente como um golpe semelhante àquele que levou o ex-ditador Hosni Mubarak ao poder, décadas atrás. Nas ruas e na mídia egípcia, a população pede que o evento se encaixe em outra definição, mais líquida, de um "golpe popular" em aliança com o Exército.

É uma definição para além do dicionário, e parece se encaixar na visão de léxico de Hanafi. Em termos geopolíticos, a ideia de que a deposição do ex-presidente islamita foi popular, e não militar, também está relacionada às relações internacionais, já que a ajuda financeira repassada pelos Estados Unidos está condicionada, por lei, à manutenção do regime democrático. Isso significa que, na prática, definir a transição política no Egito como um "golpe de Estado" fará secar os dólares que viajam ao país, já em grave situação econômica.

A Folha pede, então, que Hanafi faça parte de seu próprio jogo e defina, durante a entrevista, a palavra "thawra" ("revolução") em árabe. Ela hesita. "Uma das coisas que me motivam é justamente pensar que o significado é tão complexo que não consigo responder a essa pergunta. Vou precisar das histórias e das vozes das ruas para definir essa palavra."


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