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A dona do espaço

Obra de Lina Bo Bardi é celebrada mundo afora em seu centenário

GABRIEL KOGAN

RESUMO Mostras, livros sobre Lina Bo Bardi (1914-92) e reedições de objetos assinados pela arquiteta italiana radicada no Brasil celebram a data em diversos países. Enquanto sua figura é incensada como exemplo de criadora voltada à coletividade, prédios seus são desvirtuados e, em alguns casos, encontram-se à beira da ruína.

Lina Bo Bardi gostava de cultivar mitos sobre si mesma. Certa vez, a arquiteta ofereceu uma bebida a um jornalista que visitava sua casa. Ele, ingenuamente, disse que aceitava um uísque: "Isso é coisa de burguês!", respondeu ela, e passou-lhe uma longa lição de moral. Na mesma noite, logo após se despedir do entrevistador, a arquiteta -sem vacilar e zombando de sua própria personagem- pediu a amigos que lá estavam e haviam presenciado toda a cena: "Tragam um uísque, vamos tomar".

Agora que se celebra o centenário de Lina -22 anos após sua morte-, seu legado e sua história começam a ser reescritos explorando a dualidade entre lenda e realidade. Vários países veem eclodir uma febre de Lina, com exposições e publicações, construindo novas versões da arquiteta, mais jovem e viva do que nunca.

"Muito do que se fala sobre Lina é uma reprodução da mitologia sobre ela; exposições e publicações investem na ideia de que ela era mágica. Tenho certa dúvida a esse respeito", ironiza Zeuler Lima.

Professor da Universidade Washington em St. Louis (EUA), Lima empreendeu uma vasta pesquisa sobre Lina em acervos diversos; em mais de dez anos, havia produzido 1.200 páginas sobre a arquiteta.

Desse trabalho, saiu uma importante monografia, intitulada simplesmente Lina Bo Bardi [Yale University Press, US$ 65, aprox. R$ 145, 256 págs.]. "Penso meu livro na contramão dessa 'Linamania'; não é um estudo de santo. Minha tarefa foi colocá-la dentro de um contexto histórico."

O livro foi publicado no fim do ano passado, somente em inglês -o autor espera que seu trabalho frutifique, em breve, em uma publicação brasileira mais ampla.

Zeuler Lima reconstrói, em 20 breves capítulos permeados por fotos e desenhos, episódios que vão da vinda do casal Lina Bo e Pietro Maria Bardi da Itália para o Brasil até as últimas obras da arquiteta na Bahia.

Recuando à formação de Lina como arquiteta, na era Mussolini, Zeuler Lima desmistifica alguns pontos, como seu projeto de graduação na faculdade.

"Descrições de Lina sobre o projeto como um 'hospital para mulheres solteiras' poderiam sugerir um espírito provocativo, mas era de fato uma instituição fascista dominante, que reforçava a identidade da mulher como mãe. Lina era muito jovem nessa época para ter qualquer convicção política", explica o autor.

Zeuler Lima também esclarece outros pontos acerca de Lina -como o seu gosto pelo famoso uísque. "Todo mundo voltava das suas festas com muita dor de cabeça; descobriram que ela comprava uma garrafa de 'single malt' e enchia com uísque falsificado: o bom ficava escondido para ela", diverte-se, recordando o lado caricato, contraditório e provocativo da ítalo-brasileira.

VISIBILIDADE

Se, até o final da última década, a arquitetura brasileira era identificada no exterior quase exclusivamente pelas curvas dos edifícios de Oscar Niemeyer, a obra de Lina -com apenas 15 projetos executados durante a carreira- ganha hoje grande visibilidade mundo afora.

Longos artigos sobre sua arquitetura foram publicados em jornais como o britânico "The Guardian", o francês "Le Monde" e o italiano "Corriere della Sera". E duas obras põem nas livrarias traduções para o inglês de textos da arquiteta sobre seu ofício: "Stones Against Diamonds" [intr. Silvana Rubino, Architectural Association Publications, £15, aprox. R$ 58, 132 págs.] e "Lina Bo Bardi - The Theory of Architecture Practice" [intr. e trad. Cathrine Veikos, Routledge, US$ 49,95, aprox. R$ 112, 280 págs.].

O deslumbramento atual é tanto que o curador de arquitetura do MoMA, de Nova York, Barry Bergdoll, chegou a dizer que "Lina se tornou uma 'starchitect' póstuma", usando um neologismo em inglês para arquitetos-celebridades. Mas afinal, por que o atual crescente interesse por ela? Por que tamanha sedução por seus projetos, transformados em pontos de peregrinação?

Um impulso fundamental foi dado pela Bienal de Arquitetura de Veneza de 2010, para a qual a japonesa Kazuyo Sejima -que naquele ano havia ganho o Prêmio Pritzker ao lado de seu parceiro no escritório Sanaa, Ryue Nishizawa- concebeu uma sala com maquetes de obras de Lina.

"Muita gente, incluindo Rem Koolhaas e Norman Foster, a descobriu lá", conta Renato Anelli, um dos diretores do Instituto Lina Bo e P.M. Bardi, que funciona na Casa de Vidro (1951), nome dado à residência que ela projetou para o casal, no Morumbi, em São Paulo.

A mesma Casa de Vidro foi palco do lance que inscreveria definitivamente o nome de Lina no circuito das mostras de arte no mundo, ao abrigar, no ano passado, a exposição "O Interior Está no Exterior", concebida pelo todo-poderoso curador suíço Hans Ulrich Obrist.

"Ela reúne todas as palavras-chave para que algo seja considerado excepcional hoje: Brasil, Nordeste, artesanato, mulher, moderno, espaço público...", resume o curador do Instituto Tomie Ohtake, Paulo Miyada, ao opinar sobre a "canonização" da arquiteta.

COLETIVIDADE

Em entrevista para o documentário "Arquitetura, A Transformação do Espaço" (1972), de Walter Lima Jr., Lina falou sobre a relação entre projetos e seus usos: "Quando fiz o projeto do Museu de Arte de São Paulo, minha preocupação era uma arquitetura com espaços livres que pudessem ser criados pela coletividade; assim nasceu o grande belvedere. Eu quis fazer um projeto feio, formalmente, mas que fosse aproveitável pelos homens".

Os espaços abertos, previstos por Lina quase de forma a que a ocupação humana os transforme numa criação coletiva, estimulam a imaginação de estrangeiros.

Para a britânica Jane Hall, contemplada em 2013 com a Lina Bo Bardi Fellowship (bolsa oferecida pelo British Council para estudos sobre a obra da arquiteta), "o Masp e o Sesc Pompeia lidam com a dimensão pública de uma forma humanista que está lentamente desaparecendo da arquitetura britânica". "Não temos nada similar por lá e já perdemos o contato com metodologias mais simples e primitivas", afirma Hall.

Ela é fundadora do coletivo Assemble, que promove pequenas ocupações de espaços públicos usando estruturas simples, feitas de materiais descartados. São trabalhos que revelam grande influência do pensamento de Lina.

"Ela nos recorda valores fundamentais em que a arquitetura deveria se concentrar, no nosso contexto econômico e global", diz. "O nosso maior desafio é fazer uma sociedade mais justa por meio das estruturas que construímos."

O documentário "Precise

Poetry", lançado em março num festival de cinema dedicado a filmes sobre arquitetura em Budapeste, também circunscreve o assunto. Dirigido pela arquiteta austríaca Belinda Rukschcio, professora da Universidade Técnica de Brandemburgo, na Alemanha, o filme explora obras como o Sesc Pompeia (1977), cujo projeto, ao aliar intervenções sutis na estrutura existente e a construção de um novo complexo esportivo, converteu uma antiga fábrica em um centro cultural muito utilizado.

EXPOSIÇÕES

O centenário da arquiteta será marcado por exposições (veja na página ao lado) no Brasil e no exterior, em centros como o Museu de Arquitetura de Munique e a Galeria Nacional de Roma, cidade onde nasceu, em 5 de dezembro de 1914.

Com frequência, a imagem de Lina que chega ao exterior tem passado pela arquiteta argentina Noemi Blager. Ela é a organizadora da mostra "Together", que já levou uma visão da obra da ítalo-brasileira a Londres, Viena, Basileia, Paris e Estocolmo e irá para Amsterdã, Berlim e Milão.

Para Blager, a atitude de Lina Bo Bardi era o oposto de uma mentalidade colonialista. "Lina foi para o Brasil, aprendeu e desenvolveu uma identidade própria, sempre respeitosa culturalmente. Pensei que era importante mostrar isso na Europa", afirma.

A incomum aproximação entre a cultura moderna e popular foi destacada pelo crítico Josep Maria Montaner em seu livro "A Modernidade Superada" [Gustavo Gili Brasil, R$ 65, 184 págs.], com um texto sobre Lina. "Ela conseguiu realizar obras em que a modernidade e a tradição não eram antagônicas", escreveu. Em parceria com o documentarista Jacobo Sucari, Montaner lançará "Entre la Tierra y el Cielo", um filme sobre a arquiteta. A dupla catalã ainda busca patrocinadores para concluir a empreitada.

Em lugares onde a construção civil é muito cara, as soluções simples e baratas de Lina soam surpreendentes. "Ela podia construir com nada, inclusive com um orçamento muito baixo. Nos países ricos não há essa habilidade de se virar em situações desafiadoras", opina Noemi Blager.

O teatro Oficina (1984) é um exemplo; as tradicionais plateias de um teatro de ópera são evocadas por andaimes verticais de madeira -como os utilizados em obras-, organizados em torno de uma rua-palco central.

Durante a construção do Sesc Pompeia, Lina mudou seu escritório para o canteiro, onde criava as soluções com os próprios operários e incorporava objetos inspirados no artesanato popular, como pequenas esculturas de flores de mandacaru no fechamento de frestas das passarelas.

INSPIRAÇÃO

A obra de Lina serve hoje como inspiração para posições políticas em tempos de vácuo de pensamentos humanistas e radicais. "Bo Bardi estava interessada num tipo de multiculturalismo vanguardista que ressoa na atual preocupação sobre achatamento promovido pelo capital global", afirma Barry Bergdoll, do MoMa.

Ele é cocurador da mostra "Modern Architecture in Latin America 1955-1980", a ser inaugurada em março de 2015, tendo Lina como uma das protagonistas. O americano confirma a possibilidade de que a obra da ítalo-brasileira ganhe mostra individual em Nova York nos próximos anos.

"Desde a crise de 2008, com a diminuição de investimentos, a arquitetura passou a ser vista com austeridade. Há uma crise ideológica do neoliberalismo. Isso provoca uma inversão em como se pensava a arquitetura, antes com certo cinismo sobre a cidade, vindo à tona arquitetos então marginais", diz Zeuler Lima, referindo-se tanto ao pensamento urbanístico de Lina quanto à sua economia construtiva.

EFEITOS

Tanta visibilidade pode, porém, ter efeitos colaterais, gerando entendimentos superficiais de uma obra tão complexa.

A exposição de Obrist em 2013 na Casa de Vidro, ao mesmo tempo que catapultou Lina, foi considerada também um momento-chave para a exploração do fetichismo em torno da arquiteta. Paulo Miyada observa, na concepção da mostra, estereótipos fomentados sobre Lina.

"Todos os ambientes e nichos da casa traziam sutis interferências artísticas, menos o volume fechado dos quartos de empregados -um documento dos limites da integração social e espacial- tratado lá como se não existisse. A imagem de Lina foi editada para oferecê-la como heroína", diz.

O mercado da arte, porém, agarrou a oportunidade: o dinamarquês Olafur Eliasson produziu, especialmente para a exposição, uma obra que usava os famosos cavaletes de vidro da museografia original do Masp. Foi feita uma tiragem de apenas três peças, cada uma com preço de venda de R$ 280 mil.

Da mesma forma, a indústria do design capitalizou a nova fama de Lina Bo Bardi, e o poético discurso da arquiteta sobre desenho industrial influenciado pela arte popular virou arma comercial de empresas em busca de visibilidade internacional.

A italiana Arper reeditou 500 unidades da cadeira Bowl (1951) e venderá cada unidade por US$ 4.200 (aprox. R$ 9.340) -uma verdadeira barganha, se comparada aos mais de R$ 50 mil pagos por colecionadores em disputados leilões pelas peças originais.

A britânica Izé, que desenvolve maçanetas, colocou em linha a peça em formato de chifre que Lina criou para a Casa de Vidro.

RESTRIÇÕES

Já o celebrado discurso sobre o uso livre dos espaços encontra, na prática, restrições em nossos tempos. No vão do Masp, a "escadinha-tribuna a ser transformada em um palanque", como previa a arquiteta, foi gradeada, quando a instituição passou a utilizar parte da praça pública para fazer sua entrada.

Ao contrário do que sugeriam os desenhos de circos e de atividades lúdicas que ela imaginou no belvedere, hoje poucas intervenções culturais e artísticas acontecem no local.

Em vez disso, discussões envolvendo o próprio curador do museu, Teixeira Coelho, chegaram a sugerir algo incompatível com aquilo que já foi chamado pelo músico John Cage de "a arquitetura da liberdade": murar o vão e fechar a praça para proteger a área de usuários de drogas, criando mais um lugar de exclusão.

Há um descolamento entre a enorme atenção recebida pela arquiteta e a situação em que se encontram seus prédios hoje -não só o Masp, que teve o espaço expositivo alterado, após uma criticada reforma, há 15 anos.

O teatro Oficina vive uma longa batalha contra a especulação imobiliária que o encurrala no seu terreno no bairro do Bexiga, em São Paulo. Mesmo o Sesc Pompeia reformou de forma descuidada o interior de alguns andares da torre de concreto, inaugurando uma academia sem unidade estética com o conjunto.

Nas obras da Bahia, a situação é mais séria: alguns de seus projetos estão praticamente em ruínas, como as casas na Ladeira da Misericórdia (1987), redesenhadas para abrigar habitações e restaurantes.

Até mesmo seu instituto, na Casa de Vidro, onde fica o acervo de desenhos e objetos da arquiteta, encontra-se em grave situação financeira e enfrenta dificuldades para manter sua operação.

Em um assunto frequente e paradigmático do seu pensamento, Lina pensava museus como espaços vivos, lugares de aprendizado permanente, onde as obras pudessem ser exploradas pelo grande público, levado a fazer suas próprias descobertas, conclusões e percursos.

Para ela, os museus não deveriam ser depósitos escuros de coisas valiosas, a serem apenas admiradas, conforme valores prontos. Não poderia Lina, à sua revelia, ser envolta pelo deslumbramento atual, engolida por esse conceito passivo sobre o passado ou mesmo pelo próprio fetichismo sobre sua obra?

Marcelo Rezende, diretor do Museu de Arte Moderna da Bahia -projetado por Lina no Solar do Unhão, em 1959- resume a atual contradição: "O pior que poderia acontecer a ela neste ano de centenário seria o aprisionamento na lógica da homenagem, da museificação -no pior sentido do termo- de seu pensamento".


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