São Paulo, domingo, 19 de março de 2006

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O alemão Friedrich Nietzsche tem lançados "A Visão Dionisíaca do Mundo" e "Crepúsculo dos Ídolos", uma crítica ao moralismo cristão e à metafísica

A filosofia do exagero

MARCELO COELHO
COLUNISTA DA FOLHA

Sócrates era feio, raquítico, malvado, cheio de argumentos. Os criminosos típicos, como se sabe graças à antropologia criminal desde Lombroso, são feios também. Os judeus, por sua vez, são notáveis pelo uso da dialética. Que, nunca é demais lembrar, não passa de uma estratégia de plebeus, ressentidos contra a força e a beleza dos nobres. Além de plebeu, Sócrates era um palhaço; um palhaço que se fez levar a sério pelos seus discípulos.
Barbaridades desse tipo podem ser encontradas sem esforço em menos de duas páginas de "Crepúsculo dos Ídolos", livro escrito por Friedrich Nietzsche em 1888 ("o último ano de sua vida mental lúcida", informa o tradutor Paulo César de Souza no posfácio desta edição). "Tudo nele é exagerado, "buffo" (burlesco), caricatura": essa frase de Nietzsche sobre Sócrates poderia aplicar-se ao próprio Nietzsche.

Leitura seletiva
A disposição de levar Nietzsche (1844-1900) a sério, a exemplo do que foi feito pelos seguidores de Sócrates, exige naturalmente uma leitura bastante seletiva. Não se pode dizer que não seja recompensada; em alguns trechos de "Crepúsculo dos Ídolos" abandonamos o âmbito da provocação bizarra para pisar no terreno mais firme -e, quem sabe, até banal nos dias que correm- da crítica ao moralismo cristão e às pretensões da metafísica.
Felizmente, e graças a um longo caminho a partir de Freud, tornou-se bom senso muito daquilo que, em fins do século 19, ainda escandalizava na obra de Nietzsche. Veja-se, por exemplo, sua defesa dos instintos contra o ascetismo eclesiástico: "Aniquilar as paixões e os desejos apenas para evitar sua estupidez e as desagradáveis conseqüências da estupidez, isso nos parece, hoje, apenas uma forma aguda de estupidez. Já não admiramos os dentistas que extraem os dentes para que eles não doam mais...".
O que resulta, aliás, não numa defesa do puro excesso e da embriaguez, ao contrário do que levam a crer as versões mais "pop" da filosofia nietzschiana. O moralista que demoniza o desejo é, na verdade, apenas a face simétrica do decadente, do fraco que se entrega sem resistência ao vício. "Somos fecundos", acrescenta Nietzsche numa bela passagem, que também poderia ser aplicada a sua obra, "apenas ao preço de sermos ricos em antagonismos: permanecemos jovens apenas sob a condição de que a alma não relaxe, não busque a paz...".
Já nos curtos aforismos de suas primeiras páginas, com efeito, "Crepúsculo dos Ídolos" alterna percepções geniais com tiradas extravagantes, a um passo da inépcia humorística. É estimulante ler, por exemplo, que "o verme se encolhe ao ser pisado. E com isso mostra inteligência. Diminui a probabilidade de ser novamente pisado. Na linguagem da moral: Humildade".
No mesmo espírito, mas já se aproximando de uma espécie de auto-ajuda ensandecida, o autor escreve: "Ajude a si mesmo, então todo mundo lhe ajudará. Princípio do amor ao próximo". O declive mental prossegue: "A satisfação consigo mesmo protege até do resfriado. Alguma vez uma mulher que se sabia bem-vestida se resfriou? -Estou supondo que estivesse pouco vestida".
Outras passagens são nossas tristes e velhas conhecidas: o elogio da "besta loura", ou seja, dos belos e nobres germanos da Idade Média, que o cristianismo, segundo Nietzsche, errou em "domesticar". O conseqüente elogio da humanidade "ariana", feita de sangue puro. O repúdio a um suposto "democratismo" da educação superior, que deveria ser apenas privilégio de uns poucos...
Mas a ligeireza de estilo e pensamento, preconizada por Nietzsche, acaba evitando que essas teses sejam levadas ao extremo de um nazismo avant la lettre. Afinal, "o alcoolismo da juventude instruída" é para Nietzsche prova de que o espírito de seus compatriotas se torna a cada dia mais raso e grosseiro: "Quanta cerveja há na inteligência alemã!".
O que não significa -nova pirueta- que a embriaguez seja indesejável; ao contrário, é precondição fisiológica para toda arte, se a entendermos como "um sentimento de acréscimo de energia e plenitude".
O tradutor, aliás, ressalta que, nos comentários estéticos e críticos do final do livro, os dois famosos conceitos nietzschianos de "apolíneo" e "dionisíaco" serão tratados não mais como opostos, mas como dois tipos -entre vários outros- de embriaguez. Pequenos textos sobre Carlyle, George Sand, Emerson, Sainte-Beuve constituem deslumbrantes e bem-vindos fogos de artifício no encerramento de tão tumultuado volume.
Em muitos autores, os primeiros livros são mais fáceis de ler. Não é o que ocorre com Nietzsche. "Crepúsculo dos Ídolos" resume vários temas de sua obra anterior, constituindo uma introdução ou um "aperitivo" -no dizer de Souza- para leituras mais aprofundadas.

Escritos de juventude
Quase 20 anos separam este "Crepúsculo dos Ídolos", que vai completando a excelente série de edições nietzschianas da Companhia das Letras, de um livro menos fluente e acessível, "A Visão Dionisíaca do Mundo e Outros Textos de Juventude", que agora surge traduzido por Marcos Sinésio Fernandes e Maria Cristina dos Santos Souza, com abundantes e minuciosas notas de rodapé. Trata-se de três estudos escritos por Nietzsche em 1870, quando o autor, então com 25 anos, se preparava para escrever "O Nascimento da Tragédia", e servem sobretudo como suplemento à leitura desse clássico.
Também interessará ao pesquisador brasileiro o precioso e movimentadíssimo livro com organização e prefácio de Roberto Machado, "Nietzsche e a Polêmica sobre "O Nascimento da Tragédia'" (Jorge Zahar), reunindo as violentas resenhas que o filólogo Ulrich von Wilamowitz-Möllendorff (1848-1931) escreveu contra Nietzsche, acompanhadas das réplicas escritas por dois defensores deste autor: o também filólogo Erwin Rohde, e um certo compositor de óperas chamado Richard Wagner.


Crepúsculo dos Ídolos
160 págs., R$ 32 de Friedrich Nietzsche. Tradução de Paulo César de Souza. Companhia das Letras (r. Bandeira Paulista, 702, conjunto 32, CEP 04532-002, SP, tel. 0/xx/ 11/3707-3500).

A Visão Dionisíaca do Mundo e Outros Textos de Juventude
112 págs., R$ 19,80 de Friedrich Nietzsche. Tradução de Marcos Sinésio Fernandes e Maria Cristina dos Santos Souza. Ed. Martins Fontes (r. Conselheiro Ramalho, 330, CEP 01325-000, São Paulo, SP, tel. 0/xx/11/ 3241-3677).



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