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Erro de economistas invade a internet

Estudo de Harvard que ligava endividamento a baixo crescimento tinha enganos básicos e critérios controversos

Falhas, descobertas por doutorando de 28 anos, fizeram autores virarem alvo de críticos das políticas de austeridade

PATRÍCIA CAMPOS MELLO DE SÃO PAULO

Foi o primeiro escândalo acadêmico de amplitude "viral" na internet. O estudo que se transformou na principal justificativa para as políticas de austeridade foi desacreditado por um grupo de pesquisadores --entre eles, um doutorando de apenas 28 anos.

Thomas Herndon, Michael Ash e Robert Pollin, da Universidade de Massachusetts, mostraram que o famoso estudo "Crescimento em uma época de endividamento", dos economistas Carmen Reinhart e Kenneth Rogoff, da Universidade Harvard, tinha erros básicos como problemas nas planilhas de Excel.

Em seu estudo, RR chegavam à conclusão de que, quando o endividamento de um país supera os 90% do PIB, a média de crescimento cai para -0,1%. O resultado foi usado por governos na União Europeia e pelos EUA para justificar cortes no orçamento (veja texto abaixo).

"Os métodos de análise de RR continham erros significativos", disse à Folha Michael Ash, um dos autores de Massachusetts. Segundo ele, RR seletivamente excluíram os dados de países que, embora muito endividados após a Segunda Guerra Mundial, cresceram a taxas altas, dados que iriam enfraquecer muito as conclusões. Com um erro nas planilhas de Excel, excluíram dados importantes. E, na hora de considerar o peso de cada país, usaram métodos questionáveis.

Feitas essas correções, os países com mais de 90% do PIB de endividamento tinham crescimento médio de 2,2%, e não -0,1%.

Rogoff e Reinhart admitiram os erros, mas afirmaram que eles não mudam a conclusão principal do estudo, que relaciona endividamento a menos crescimento.

TRABALHO DE CLASSE

Thomas Herndon, o doutorando de 28 anos, descobriu os erros a partir de um trabalho de classe em que os alunos precisavam replicar os resultados de estudos famosos. Reinhart enviou suas planilhas para Herndon, que descobriu os erros.

O trabalho de RR, apesar de muito famoso, nunca havia sido revisto por pares, e os autores não haviam compartilhado os dados e métodos de cálculo.

"Eles simplesmente não respondiam a e-mails pedindo os métodos de cálculo", disse à Folha o economista Dean Baker, diretor do Center for Economic and Policy Research em Washington.

"Se eles tivessem divulgado antes seus dados, poderiam ter evitado os erros surpreendentes que cometeram", disse Ash.

PIADAS

Rogoff e Reinhart se transformaram no principal alvo dos críticos das políticas de austeridade. "Nossa pesquisa, nossas credenciais e até nossa integridade foram atacadas furiosamente em jornais e na TV", escreveram RR no "The New York Times".

Sem falar nas piadas.

"Se eles não conseguem nem usar o Excel, duvido que saibam como anexar um arquivo a um e-mail", brincou o humorista Stephen Colbert. "Um erro de Excel destruiu as economias do mundo ocidental?", brincou o Nobel Paul Krugman em uma coluna.

O debacle de Reinhart-Rogoff foi apenas o mais recente de uma série de erros de economistas (veja arte ao lado). Um das gafes mais famosas foi cometida por Irving Fisher. Em 1929, pouco antes da quebra da Bolsa de Nova York, ele afirmou: "As cotações das ações atingiram um alto patamar permanente."

Há os erros históricos.

Thomas Robert Malthus previu no século 18 que a população cresceria em progressão geométrica, enquanto oferta de alimentos aumentaria em progressão aritmética, resultando em fome.

Nem a população manteve a progressão geométrica, nem a oferta de comida cresceu muito devagar. Malthus cometeu deslizes básicos como não diferenciar o fluxo de imigrantes da população nascida nos EUA.

No Brasil tampouco faltaram deslizes de economistas.

Delfim Netto, ao deixar o Ministério da Agricultura para tomar posse no Ministério do Planejamento, em 1979, profetizou: "Senhores, preparem seus arados e suas máquinas: nós vamos crescer". Em 1980, o PIB de fato avançou 9,2%. Mas encolheu 4,25% em 1981, ficou estagnado (0,83%) em 82 e voltou a cair (-2,93%) em 1983.

O ex-presidente do BC Gustavo Franco cunhou uma pérola ao insistir que o câmbio fixo estava no patamar certo e não se sustentava apenas por causa da pesada intervenção do governo: "Se há muita banana e pouca procura, o preço da banana cai". Com a desvalorização caótica do real em 1999, ficou claro que dólar não é banana.

Autores defendem, em artigo, caminho do meio'


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