São Paulo, domingo, 20 de março de 2011

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ANÁLISE

Mudança exige que trabalhador de nível médio ajuste expectativa

NAÉRCIO MENEZES FILHO
ESPECIAL PARA A FOLHA

Atualmente, os trabalhadores com ensino médio formam quase metade do contingente de desempregados nas regiões metropolitanas do país, enquanto em 2002 eles eram apenas 32%.
Em contrapartida, apenas 8% dos desempregados hoje em dia têm pouca ou nenhuma escolaridade, em comparação com 20% no início da década passada. O que pode explicar essa mudança no perfil do desemprego?
Essa mudança decorre de um descompasso entre a oferta e a demanda por trabalhadores com ensino médio e de um lento processo de ajuste das expectativas desses trabalhadores.
Pelo lado da oferta, houve rápido aumento do número de jovens com ensino médio.
Em 1992, só 23% das pessoas com 22 anos de idade completavam esse nível e não estavam na faculdade. Hoje, mais da metade dos jovens está nessa situação.
Esse aumento da oferta de jovens com nível intermediário de qualificação não teve como contrapartida uma geração de vagas com esse perfil no mercado de trabalho.
As vagas que estão ganhando espaço são as que exigem ou pouca ou muita qualificação. Com a automação do processo produtivo, decorrente da queda dos preços dos computadores, as tarefas antes desempenhadas pelos jovens com ensino médio estão sendo codificadas em softwares por máquinas.
As ocupações que estão ganhando espaço são aquelas que não podem ser realizadas por computadores, como as tarefas abstratas, que envolvem resolução de problemas, mas também as tarefas manuais, que exigem presença física e interação.
Exemplos desse último tipo são empregadas domésticas, limpadores, trabalhadores na construção, segurança privada, motoristas e embaladores. Essas ocupações não exigem qualificação, mas não podem ser realizadas por computadores.
Além disso, com o aumento da renda das classes C e D, a demanda por esses serviços manuais tem aumentado.
Mas por que então os trabalhadores desempregados não se ajustam a esse novo perfil do mercado de trabalho, preenchendo as vagas que exigem pouca qualificação? Porque eles não têm informações completas sobre as vagas que estão sendo abertas e sobre a concorrência por essas vagas.
Baseados na experiência passada, os trabalhadores com ensino médio ainda têm a expectativa de obter um emprego "condizente" com o seu nível de qualificação.
Atualmente, para encontrar emprego, o jovem que acabou o ensino médio tem duas opções: ingressar numa faculdade ou ajustar suas expectativas e aceitar um emprego não qualificado.

NAÉRCIO MENEZES FILHO é doutor em economia pela Universidade de Londres, professor titular e coordenador do Centro de Políticas Públicas do Insper e professor associado da FEA-USP.


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