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O fantasma de Pablo Escobar

Vinte anos após ter sido morto, narcotraficante colombiano ainda é uma celebridade na sua cidade natal, Medellín

FABIANO MAISONNAVE ENVIADO ESPECIAL A MEDELLÍN (COLÔMBIA)

Vinte anos após sua morte, que se completam amanhã, o megatraficante Pablo Escobar sobrevive como um fantasma que ainda assombra a Colômbia --e como um cadáver insepulto na casa de seu irmão mais velho, Roberto.

Ex-traficante, Roberto, conhecido como Osito (ursinho), é um dos poucos integrantes do Cartel de Medellín que, milagrosamente, sobreviveram à violência daquela época para contá-la.

Literalmente: após cumprir pena de 14 anos, ele agora abre a turistas a sua casa, convertida num pequeno museu em homenagem ao irmão.

A procura pelo "narcotour" revela um fascínio que Escobar nunca deixou de exercer. No ano passado, a série de TV "O Patrão do Mal" bateu recordes de audiência e causou um imenso debate entre os que criticam a glorificação de um criminoso cruel e os que argumentam que seus feitos mudaram a história do país.

"Depois da sua morte, o narcotráfico acabou penetrando e infeccionando tudo: o campo, a cidade, a guerrilha, o Estado, o sistema financeiro, a política: Pablo Escobar já não é o único narcoparlamentar", escreveu Antonio Caballero, colunista da revista "Semana", para quem o traficante, mesmo morto, "ganhou a guerra".

"O exemplo vai se espalhando pela chamada colombianização --ou seja, escobarização-- do México, da América Central, da Argentina, do pacífico Uruguai, do Brasil."

É difícil superestimar os crimes de Escobar: contrabandeou centenas de tonelada de cocaína para os EUA, mandou assassinar, a tiros ou em atentados a bomba, dezenas de políticos e altos funcionários do governo e dominou a agenda de três presidentes colombianos.

Mas em Medellín, a cidade mais violenta do mundo na época em que Escobar reinava, muitos continuam vendo nele o benfeitor que ajudava os bairros mais pobres, onde iluminou cerca de cem quadras de futebol e distribuiu mil casas populares.

MEMORIAL

Após acerto por telefone na véspera, uma van identificada "escolar" pega o repórter da Folha em um supermercado, na região do Poblado.

O ingresso de R$ 70 por pessoa é uma ninharia perto da fortuna estimada em US$ 25 bilhões de Escobar, no final dos anos 1980. Hoje, resta só a casa onde mora Roberto, única propriedade onde não se provou a compra com dinheiro do narcotráfico.

O motorista-guia se identifica como Jaime. Desinibido, conta que conhece a família há 32 anos e que trabalhou como segurança de um laboratório de cocaína, entre outras funções.

Minutos depois, repete a mesma história para quatro turistas mexicanos. Completam o grupo ainda três norte-americanas, atendidas por um guia que fala inglês.

Depois de visitar o túmulo de Escobar no elegante cemitério Montesacro e o prédio Dallas, que pertencia ao traficante e foi atingido por um atentado, é a hora de visitar a casa de Roberto.

No caminho, Jaime orienta: "Não perguntem coisas como: Por que Pablo matou tanta gente'? É o irmão dele."

A casa, ampla, fica em bairro nobre e com uma bela vista para Medellín. Roberto, 66, recebe o grupo pessoalmente, cumprimenta um a um e convida a todos para um café no final da visita.

De perto, as cicatrizes da guerra são nítidas. Dias depois da morte do irmão, em dezembro de 1993, Roberto, que estava preso, abriu uma carta-bomba. Perdeu um olho e parte da audição --é preciso gritar para que escute.

Na parte da casa convertida em museu, várias fotos de Escobar: em cima de um jet-ski, descendo de um avião e sobre uma moto presenteada a ele por Frank Sinatra.

Uma delas, em que aparece em traje típico colombiano, chama mais a atenção -- está perfurada por uma bala.

"Em 2011, um empregado da casa contratou pistoleiros para sequestrar o Roberto. Queriam que ele contasse onde o Escobar enterrou caixas com dólares, mas ele não sabe", explica Jaime.

Avisada, a polícia trocou tiros com os invasores. Um deles morreu, dois foram baleados e dois capturados.

Numa sala, há também fotos e troféus da juventude de Roberto: ele foi campeão colombiano de ciclismo, um esporte popular na Colômbia, antes de trabalhar para Escobar --segundo ele, para defender a família.

No final da visita, Roberto posa para fotos e autografa pôsteres e DVDs piratas vendidos por R$ 12. Para arrematar, molha o dedo indicador em tinta e imprime a digital.


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