São Paulo, #!L#Sábado, 05 de Fevereiro de 2000


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FANTASMA EXTREMISTA
Governo com presença da extrema direita toma posse; UE, EUA e Israel anunciam represálias
Áustria começa a enfrentar sanções

France Presse
O chanceler (premiê) austríaco, Wolfgang Schuessel (à dir.), e a sua vice , Susanna Ries-Passer


FÁBIO ZANINI
enviado especial a Viena

A comunidade internacional anunciou ontem sanções contra a Áustria, logo após a posse do novo governo do país, com membros da extrema direita.
A secretária de Estado norte-americana, Madeleine Albright, expressou "grave preocupação" e anunciou que estava chamando de volta seu embaixador na Áustria. Israel fez o mesmo.
A União Européia (UE), da qual a Áustria faz parte, colocou em vigor medidas de represália anunciadas no início da semana. A principal delas reduz os contatos diplomáticos entre a Áustria e seus 14 parceiros na UE.
O foco do repúdio internacional é a presença no governo do Partido da Liberdade, de extrema direita, que foi empossado ontem em coalizão com o Partido Popular, de centro-direita.
Em breve cerimônia, o presidente austríaco, Thomas Klestil, confirmou a formação do novo gabinete, que terá seis integrantes de cada um dos dois partidos.
Visivelmente contrariado, Klestil disse, no final da tarde, em comunicado em rede nacional de televisão, que não permitirá a quebra de "valores democráticos".
"Estou deixando claro que a quebra destes princípios trará consequências graves", afirmou o presidente. Klestil pediu, entretanto, que a população "dê uma chance ao governo".
Klestil, porém, critica as ameaças contra seu país e afirma que sua soberania deve ser respeitada. Pesquisa divulgada ontem também indica que 79% dos alemães são contrários às sanções, segundo o instituto "Forsa".
Anteontem, o presidente obrigou o líder do Partido da Liberdade, Joerg Haider, a assinar uma declaração condenando a xenofobia, o anti-semitismo e o racismo.
Haider tornou-se alvo de protestos por suas polêmicas declarações favoráveis ao regime nazista do austríaco Adolf Hitler na Alemanha. Ele chegou a afirmar que o governo de Hitler teve "uma política econômica consistente" e homenageou veteranos da SS, tropa de elite nazista, por sua "bravura e coragem", desculpando-se depois.
Nas eleições de outubro, seu partido surpreendeu ao receber 27% dos votos, com uma plataforma baseada no ataque a imigrantes, que estariam trazendo violência e desemprego.
"Em várias partes da Europa, sentimentos xenófobos e racistas estão em ascensão, o que é motivo de grave preocupação", disse a secretária Madeleine Albright.
O governo israelense, além de convocar seu embaixador, proibiu a entrada de Haider no país.
"Israel não pode se manter em silêncio enquanto um partido de extrema direita chega ao poder em um país que teve participação no extermínio de judeus", disse um comunicado do governo.
O secretário-geral da ONU, Kofi Annan, em um raro comentário sobre assuntos internos, também expressou preocupação com a situação austríaca.
O novo chanceler (premiê) é Wolfgang Schuessel, do Partido Popular. Haider, que não faz parte do gabinete, garantiu para sua legenda postos-chave, como os Ministérios das Finanças, Justiça, Defesa e Assuntos Sociais. A vice-chanceler também é de seu partido, Susanne Riess-Passer.
Haider voltou à carga ontem, em entrevista a uma TV alemã. "Não tenho intenção de sair por aí me desculpando por todo tipo de coisa", disse.
Enquanto a posse ocorria, cerca de 5.000 manifestantes entravam em confronto com a polícia diante da sede da Presidência. Por causa das manifestações, o novo gabinete não seguiu a tradição de caminhar da Presidência até a Chancelaria, usando uma passagem subterrânea.
A crise política afetou a Bolsa de Valores de Viena, que registrou queda de 3,5%, atingindo seu menor índice em mais de um ano.


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