São Paulo, domingo, 07 de dezembro de 2008

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Terror acirra rivalidade Índia-Paquistão

Com troca de acusações sobre autoria de atentados, correntes políticas radicais ganham força nas duas potências nucleares

Atuação considerada frouxa contra o terrorismo e crise econômica minam governo indiano e favorecem avanço de nacionalistas hindus


Adnan Abidi/Reuters
Muçulmanos indianos rezam na Grande Mesquita de Déli

RAUL JUSTE LORES
ENVIADO ESPECIAL A MUMBAI

Os atentados que mantiveram Mumbai sob domínio terrorista por 62 horas entre os últimos dias 26 e 29 conturbaram ainda mais uma das fronteiras mais explosivas do mundo: a que divide Índia e Paquistão, potências nucleares que já se enfrentaram em três guerras desde a independência de ambos do Reino Unido, em 1947.
Na Índia, um partido nacionalista hindu que prega retaliações ao Paquistão pode chegar ao poder em 2009. O moderado premiê Manmohan Singh enfrenta a desaceleração econômica mundial e críticas por ser fraco contra o terrorismo.
Já o Paquistão está sob pressão dos EUA, seu aliado histórico, para combater o fundamentalismo islâmico. Considerado refúgio da Al Qaeda, o país ainda precisou recentemente de um resgate do FMI para salvar sua economia em frangalhos.
A rivalidade pode se agravar se o partido nacionalista hindu Bharatiya Janata (BJP), acusado de antimuçulmano, emplacar na campanha para as próximas eleições legislativas indianas sua bandeira de combate ao terrorismo fundamentalista.
Soma-se à sua retórica a previsão de que a economia indiana, depois de anos de crescimento acima de 9%, deve avançar de 4% a 5% no ano que vem, o que enfraquece o principal trunfo do governo Singh, a prosperidade econômica.

Radicalismo em alta
Para especialistas, as forças de segurança indianas não estão preparadas para o terrorismo. Os comandos levaram nove horas para chegar aos locais onde os radicais faziam centenas de reféns. "Aqui cada pedaço de prova vira uma conclusão, qualquer suspeita vira prisão, e os muçulmanos acham que a polícia está sempre contra eles, o que em parte é verdade", diz o analista Swapan Dasgupta. "A polícia é incompetente."
Lidar com o vizinho também ficou mais difícil. "O Paquistão está perto de ser um Estado falido", disse à Folha o historiador indiano Ramachandra Guha. "O governo não tem controle nem do Exército, nem de seu serviço secreto, que também não se falam entre si. Há áreas do país com campos de treinamento de terroristas que o governo não consegue controlar."
Nos últimos quatro anos, mais de 6.000 pessoas morreram nas mãos do terrorismo na Índia. Cinco das maiores cidades indianas sofreram grandes atentados no último ano. Após anos de terrorismo da minoria sikh, hoje enfraquecido, há atentados de radicais hindus, muçulmanos e cristãos.
O governo indiano diz ter provas suficientes de que os terroristas que atacaram Mumbai, matando 172 pessoas, eram paquistaneses e treinados no vizinho, e não indianos.
Para Dasgupta, os atentados mostram que a Índia "já entrou no mapa da guerra santa global por ser aliada dos EUA, de Israel e do Reino Unido".
"O atentado foi mais uma mensagem para o Paquistão. Ao exacerbar a tensão com a Índia, você tira o foco da luta na fronteira com o Afeganistão, onde a Al Qaeda atua", diz.
Neutralidade laica e nacionalismo hindu voltam a se enfrentar nas eleições de maio do ano que vem. O Partido do Congresso, de Singh, governa graças a uma coalizão de minorias. Com apenas 145 deputados, conta com o apoio de 50 pequenos partidos para chegar à maioria necessária de 272.
O partido de Singh ocupou o poder por quase todo o período pós-independência. Além do desgaste da longevidade, o premiê "não é tão popular ou carismático, não é um Lula", compara o historiador Guha.
"O problema é que o BJP acha que a Índia tem que ser um país hindu assim como o Paquistão é muçulmano", diz Dasgupta. "Já o Partido do Congresso teme perder seu eleitorado muçulmano se for mais duro com o Paquistão."
Apesar do esforço americano em melhorar as relações entre seus dois aliados, há pessimismo quanto ao poder de persuasão do novo presidente. "Obama é irrelevante. Com tanta bagunça para arrumar em casa, ele terá pouco tempo para este conflito", diz Guha.


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