São Paulo, quarta-feira, 25 de agosto de 2010

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Minas no Chile negligenciam segurança

Segundo engenheiro, drama de 33 mineiros soterrados é fruto de falta de fiscalização e lucro mínimo do setor

Dona da mina San José, onde ocorreu acidente, irá decretar falência; médicos se preocupam com peso dos homens


LAURA CAPRIGLIONE
ENVIADA ESPECIAL A COPIAPÓ (CHILE)

Impedidos de ir à superfície por milhares de toneladas de pedras, terra e cobre, os 33 mineiros do Chile que foram localizados no último domingo após 18 dias sem comunicação "são vítimas de uma indústria que coloca sua própria sobrevivência à frente de vidas humanas".
O diagnóstico é do diretor de uma grande empreiteira especializada na construção de galerias para minas de metais que ontem, com um grupo de engenheiros, se dirigiu a Copiapó (norte).
Eles fazem parte de uma força tarefa convocada para discutir as novas normas que devem reger a segurança no trabalho e nas minas.
Segundo um engenheiro, que pediu para não ser identificado, a situação na mina San José é fruto da falta de fiscalização da Sernageomin, órgão do Ministério da Mineração do Chile, aliado a uma indústria que trabalha com margens de lucro mínimas -não tem, portanto, como investir em um item caro como segurança.
A mineradora San Estebán Primera, proprietária da mina, anunciou que irá decretar falência. Ela é acusada de não ter construído uma galeria de evacuação além da já existente, como era exigência do governo.
A Primera disse que vai falir por não ter condições de arcar com o custo operacional da obstrução da mina ou de sua reabertura de acordo com as condições de segurança requeridas.
Ontem, com a intensificação da troca de correspondência entre familiares e os mineiros debaixo da terra, ficou-se sabendo que, ao contrário do divulgado no domingo, eles não estão restritos a uma área menor do que 100 metros quadrados. Eles estão numa galeria que tem algumas centenas de metros de comprimento e, em média, 2,5 m de altura.
Um dos mineiros relatou que chegou a tentar desobstruir a mina usando um trator e caminhões que operavam no interior das galerias. A tentativa não funcionou, assim como a operação que visava atingir a galeria de evacuação.
No Chile reverberava ontem um clima de patriotismo. No centro de Copiapó, adolescentes gritavam o hino nacional à vista de qualquer câmera de televisão. "Também pudera, o Chile deve 40% de seu PIB à indústria de mineração. Esses homens são heróis", disse Federico Carrasco, empresário do setor.
Médicos e psicólogos que acompanham o drama dos mineiros querem evitar que os homens, que perderam em média 9 kg no início do isolamento, engordem a ponto de obstruir o túnel de 70 cm que será construído para içá-los até a superfície.
Já está estabelecida uma meta: cada um poderá ter no máximo 90 cm de circunferência de barriga. Meta difícil de cumprir, já que o alimento será fornecido e não há nada para fazer, a não ser esperar.

Veja fotos sobre o drama dos mineiros no Chile

folha.com.br/1023627


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