São Paulo, domingo, 27 de abril de 2008

Texto Anterior | Próximo Texto | Índice

Somalilândia faz 17 anos em paz, após guerra civil

Crise no Chifre da África torna país que não está no mapa único Estado somali efetivo

Violência interrompe ajuda humanitária na Somália e fome ameaça milhões; no norte, governos autônomos mantêm uma paz relativa

CLARA FAGUNDES
DA REDAÇÃO

Ausente nos atlas e sem existência formal, a Somalilândia é uma ilha de relativa paz no conflagrado Chifre da África. Em 1991, em meio à desintegração da Somália, o ex-protetorado britânico declarava a independência que o mantém hoje relativamente isolado da guerra civil somali -emergência internacional adiada desde 1995, quando a última missão da ONU deixou o país, vencida pela falta de condições para restaurar a ordem.
"O que eu vi, andando nas ruas de Mogadício [capital da Somália] e da Somalilândia, é que Somalilândia é um Estado de fato, e a Somália não é", disse à Folha Norine MacDonald, presidente do centro internacional Senlis Council e uma das poucas ocidentais a visitar a Somália em meio à violência das últimas semanas.
Os pedágios cobrados por milícias e o risco para os funcionários interromperam a ajuda humanitária em quase toda o território somali, tornando a Somalilândia, com mais de 70% de miseráveis, "um dos melhores lugares para se viver na Somália", segundo MacDonalds. Lá, a ajuda internacional -pouca- chega.
Há um reconhecimento tácito do governo da Somalilândia por organizações internacionais, até por conta das necessidades operacionais, explica Sally Healy, especialista do centro de pesquisas britânico Chatham House. A Somalilândia e a Puntlândia -região que declarou autonomia, mas quer fazer parte de um Estado confederado- são o mais próximo de uma autoridade efetiva, diz.
Para MacDonald, mesmo em Mogadício, muito do que se chama de violência "clânica" tem uma dinâmica parecida com a das gangues das grandes cidades. Na ausência do Estado, grupos armados disputam o controle das ruas. São jovens que jamais viveram sob um poder instituído -o mais próximo a isso nos últimos 17 anos foi, em 2006, o breve controle da União dos Tribunais Islâmicos (UTI) sobre Mogadício.
Isto explica parcialmente a popularidade do Al Shabab -algo como "a rapaziada", em árabe-, grupo islâmico que os EUA e o governo provisório consideram terrorista. A milícia formou-se a partir do braço jovem da UTI, guarda-chuva de grupos que, diante da falência de Legislativo e Judiciário, passaram a resolver conflitos nas mesquitas a partir de 1992.
"Grande parte dos somalis recebeu bem a UTI porque estava desesperada por qualquer tipo de paz. Com o avançar do governo, viram que ela não tinha condições de estabelecer segurança e a situação deteriorou-se. As pessoas também depositaram esperanças no governo de transição [instaurado em 2004], mas o que se viu foi total ausência de autoridade."
Ela acredita que os ataques dos EUA aos islamistas e a intervenção das tropas etíopes -a partir de 2006, a favor do governo de transição- contribuíram para fortalecer os setores mais radicais da UTI, já desgastada pela dificuldade de costurar consensos.

Cidade fantasma
Há ruas e bairros inteiros de Mogadício totalmente desertos, conta MacDouglas, que não viu nenhuma ajuda sendo distribuída. Na estimativa da ONU, mais da metade da população deixou a capital em 2007. Nunca se saberá ao certo quantos morreram nos conflitos. Não há quem conte os corpos em Mogadício e na maior parte do país, dizem em uníssono os Médicos Sem Fronteira, a Chatham House e o Senlis Council.
"Os soldados do governo mataram um rapaz na rua, em frente a minha casa em Mogadicio. Atiraram porque queriam o celular dele. O corpo ficou lá", conta MacDonalds.
Heally é cética: "Não vejo como uma intervenção da ONU possa ter sucesso nesse cenário, sem um pacto político na sociedade". Mas, para MacDonalds, já há esboços de uma conciliação nos diálogos com milicianos rivais iniciados pelo premiê Nur Hassan Hassein.
Os EUA e o presidente Abdullahi Ahmed precisam parar de boicotar os acordos, afirma. Ela aponta a saída dos soldados etíopes como pré-requisito para a paz. "Seria preciso substituí-los por uma missão da ONU, que incluísse países islâmicos, mas não os vizinhos."
Desde 1991, quando o fim da ditadura pró-soviética de Siad Barre mergulhou o país em uma guerra civil, foram ao menos 15 conferências de reconciliação, que falharam em resolver as divisões internas e estabelecer um governo efetivo.


Texto Anterior: Artigo: A encruzilhada democrata
Próximo Texto: Violência interrompe auxílio na Somália
Índice



Copyright Empresa Folha da Manhã S/A. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita da Folhapress.