São Paulo, Domingo, 28 de Novembro de 1999


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ELEIÇÃO NO URUGUAI
Blancos e colorados se revezam no poder; ao contrário dos vizinhos, desigualdade social é pequena
País tem histórico político conservador

Reuters
Uruguaios caminham em frente a muro com inscrições de apoio ao candidato de oposição Tabaré Vasquez


do enviado especial a Montevidéu

"O Uruguai é um país louco, completamente diferente do resto do mundo", diz Eduardo Galeano, o mais influente escritor uruguaio.
Até as eleições deste ano, o país tinha um dos sistemas políticos mais antigos do planeta. Os partidos Colorado e Nacional (ou blanco) governam o Uruguai desde que foram fundados por caudilhos rivais, em 1836.
O nome dos partidos vem das roupas usadas por seus líderes. O caudilho Manuel Oribe, que usava branco ("blanco"), e seus seguidores fundaram o Partido Blanco (depois Nacional). Já José Fructuoso Rivera e seguidores usavam vermelho ("colorado").
As coisas só começaram a mudar com o fim do regime militar (1973-85) e o crescimento gradual da coalizão de esquerda Frente Ampla, fundada em 1971.
O Uruguai foi pioneiro na adoção de vários benefícios sociais que levariam anos para serem adotados mesmo em países mais ricos da Europa.
O líder colorado José Batlle y Ordoñes (1856-1929), tio-avô de Jorge Batlle, o atual candidato colorado, foi o "pai" do Estado de bem-estar social uruguaio.
Introduziu no país durante suas duas Presidências (1903-07 e 1911-15) direitos sociais como a jornada de trabalho de oito horas diárias (em 1915), que, no Brasil por exemplo, só chegariam com a Revolução de 30.
A pena de morte no país foi abolida já em 1909. A separação constitucional entre Igreja e Estado veio em 1917. Em 1931, as mulheres uruguaias ganharam o direito de votar.
A renda obtida com as exportações de produtos agropecuários, principalmente carne e lã, garantiram a implantação de um Estado protetor e uma sociedade com níveis de desigualdade econômica até hoje muito menores que os de seus vizinhos.
Mas as crises da economia mundial e a queda dos preços dos produtos agropecuários tornaram o sistema impraticável. E as mudanças começaram a ocorrer, mesmo neste conservador e pequeno país de 3,2 milhões de habitantes.
A abertura uruguaia, porém, teve características próprias. O escritor Galeano alardeia com orgulho que o Uruguai foi o único país que levou às urnas a proposta de privatizar o grosso de suas estatais. Que foi derrotada, com 71% de votos contra, em 1992.
O crescimento da esquerda após o fim do regime militar foi gradual. Já na eleição presidencial de 1994, Tabaré Vázquez, o atual candidato da coalizão de esquerda Frente Ampla-Encontro Progressista, foi o candidato mais votado, com 30,8% dos votos, contra 24,6% do atual presidente, Julio María Sanguinetti, do Partido Colorado.
Mas o sistema eleitoral vigente permitia que os partidos apresentassem mais de um candidato à Presidência, com o mais votado recebendo os votos dos colegas de partido. Assim, Sanguinetti acabou ficando com 35,2% dos votos e, como não havia segundo turno, levou a eleição.
Colorados e blancos, unidos no governo Sanguinetti, aprovaram em 96 uma reforma eleitoral que instituiu o segundo turno e acabou com as candidaturas múltiplas dos partidos.
Sem o segundo turno, Vázquez talvez já fosse o presidente eleito do Uruguai hoje. Foi o candidato mais votado no primeiro turno, em 31 de outubro, com 39% dos votos, contra 31,7% de Batlle e 21,5% de Luis Alberto Lacalle.
A hegemonia "rosa" (blanca e colorada) já terminou no Congresso, onde a coalizão de esquerda será a maior bancada.
(SÉRGIO MALBERGIER)


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