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New York Times

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Catolicismo enfrenta desafios

Por SIMON ROMERO

Rio de Janeiro

Em uma megaigreja em São Paulo, um padre católico que já foi personal trainer cantava energicamente, como um astro de rock, diante de 25 mil fiéis. Outros padres brasileiros vêm usando chapéus de caubói e cantando músicas country nas missas ou escrevendo livros de conselhos, que viram best-sellers, com fotos em estilo de galã nas capas.

Se existe um lugar representativo dos desafios enfrentados pelo catolicismo pelo mundo afora, esse lugar é o Brasil, o país que tem o maior número de católicos do mundo e que funciona como uma espécie de laboratório das estratégias da igreja para chamar fiéis de volta às suas fileiras.

Refletindo a paisagem religiosa mutante que o sucessor do papa Bento 16 irá enfrentar, o Brasil rivaliza com os Estados Unidos pelo lugar de país com o maior número de pentecostais. O monólito católico cede diante da ascensão de igrejas evangélicas protestantes.

Alguns católicos temem pelo futuro de sua fé, em vista da secularização crescente e da indiferença em relação à religião. De acordo com o Censo de 2010, hoje apenas 65% dos brasileiros se dizem católicos. Em 1970, eram mais de 90%.

O declínio é tão acentuado, especialmente no Rio de Janeiro, que uma das maiores lideranças católicas do Brasil, o cardeal Cláudio Hummes, comentou: "A gente se pergunta com ansiedade: por quanto tempo o Brasil vai continuar a ser um país católico?".

Antes que Bento 16 anunciasse sua saída do pontificado, estava previsto que o papa visitasse o Rio no Dia Mundial da Juventude, um encontro de milhões de jovens que visa fomentar novas gerações de católicos. Muitos dos fiéis brasileiros esperavam que a viagem representasse uma nova investida do Vaticano contra as ameaças do secularismo e da concorrência evangélica.

Alguns no Brasil têm a esperança de que o novo papa ainda venha para o Rio no início de seu pontificado. Eles sentiram-se encorajados pelo fato de dois brasileiros, o cardeal João Braz de Aviz e dom Odilo Scherer, arcebispo de São Paulo, estarem entre os nomes mencionados como possíveis candidatos à sucessão de Bento.

Mas outros parecem resignados com o que descrevem como uma combinação de descaso e condescendência por parte do Vaticano.

"Acho que vão levar adiante a mesma linha de Bento 16", opinou a socióloga especializada em catolicismo Silvia Fernandes, da Universidade Rural do Rio de Janeiro.

A socióloga disse que restam grandes divisões na igreja brasileira, entre bispos da Amazônia que focam os direitos humanos, o desmatamento ilegal e as lutas indígenas e a liderança católica mais conservadora e tradicional do sudeste brasileiro, relativamente próspero.

Há também os padres cantores da Renovação Carismática Católica, um movimento que procura revigorar as missas, infundindo nelas uma animação que os fiéis encontram com frequência em outras igrejas. Esses padres ganharam a adesão do Vaticano, até certo ponto.

O mais famoso deles, o ex-personal trainer Marcelo Rossi, 45, já vendeu mais de 12 milhões de CDs e já celebrou uma missa num estádio diante de dezenas de milhares de fiéis.

Mesmo assim, Rossi queixou-se de ter se sentido humilhado durante a visita de Bento 16 ao Brasil em 2007, quando líderes católicos o impediram de chegar perto do papa.

"Muitas pessoas estão voltando para a igreja graças a esse movimento", comentou Almir Belarmino, 53, técnico de uma empresa de tratamento de esgotos. Ele era uma das 1.200 pessoas que participavam de um retiro do movimento carismático no Rio de Janeiro. "Por que não dançar no lugar onde a presença de Deus é tão forte? A alegria e a emoção fazem parte da nossa adoração."

A infusão de novas práticas nas missas não é novidade no Brasil.

Muitos brasileiros se dizem católicos ao mesmo tempo em que praticam religiões de origem africana, como o candomblé, que funde as identidades de santos católicos e divindades africanas.

Ao mesmo tempo, as igrejas evangélicas de sucesso vêm aumentando seus representantes no Congresso brasileiro e expandindo suas operações na América Latina e na África.

Em São Paulo, a Igreja Universal do Reino de Deus, uma organização pentecostal multinacional fundada no Brasil em 1977, está gastando US$ 200 milhões para construir uma réplica do Templo de Salomão, com lugar para 10 mil pessoas sentadas.

Alguns cantores evangélicos têm milhares de fãs. É o caso da cantora gospel premiada com o Grammy Aline Barros, que tem quase 1 milhão de seguidores no Twitter. Pregadores na televisão como Silas Malafaia, líder pentecostal do Rio de Janeiro, vêm ganhando destaque com críticas aos defensores da legalização do aborto e dos direitos dos gays.

A ascensão do secularismo também ameaça todas as igrejas no Brasil.

Andrew Chesnut, especialista em religiões latino-americanas na Universidade Virginia Commonwealth, disse que o segmento da paisagem religiosa brasileira que mais cresce hoje pode ser o segmento dos não crentes e pessoas não ligadas a igreja alguma, que compõem até 15% da população brasileira.

Para um país que ainda em 1980 tinha níveis mínimos de pessoas que se declaravam ateístas, essa novidade aponta para transformações profundas na sociedade.

De acordo com Philip Jenkins, professor de história que leciona no Instituto de Estudos de Religião da Universidade Baylor, no Texas, em toda a América Latina um número crescente de pessoas afirma não ter nenhuma filiação religiosa. Seria um fenômeno semelhante ao que aconteceu na Europa e nos Estados Unidos, mas menos pronunciado.

Um sinal disso, segundo especialistas, é a queda drástica no índice de fertilidade, o que, para a igreja, significa menos crianças para serem batizadas e fazerem a primeira comunhão e menos candidatos a se tornarem padres e freiras.

O índice de fertilidade no Brasil está em aproximadamente 1,83 por mulher -abaixo do nível necessário para garantir a estabilidade da população.

"Se eu fosse um cardeal brasileiro", disse Jenkins, "estaria muito mais preocupado com o tamanho das famílias e com os índices de fertilidade, que são indicativos muito confiáveis da secularização, do que com o pentecostalismo".

Durante o carnaval carioca, um folião, o analista de sistemas católico Thiago Assis, 30, disse estar decepcionado com as posições conservadoras de Bento 16 e esperançoso de que o novo papa traga a igreja para mais perto dele e de outros brasileiros.

"Há uma grande expectativa de que o próximo papa assuma posturas mais progressistas", disse Assis. Ele discorda especialmente da posição da igreja com relação ao uso da camisinha, algo que descreveu como "uma questão de saúde".


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