São Paulo, sexta-feira, 21 de abril de 2000


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O sertão quer virar mar


É positiva a chegada de caravanas à Bahia, desafinando o coro da preguiça comemorativa


MARINA SILVA

O delírio de um beato -de que o sertão vai virar mar e o mar vai virar sertão-, quem diria, acabou se transformando na metáfora perfeita para contar o que nos acontece hoje em dia. Parece que tudo se mexe, nada mais quer ficar no lugar. Mas, ao mesmo tempo, está presente uma sensação angustiante, como respiração curta e incompleta, de que nada acontece, de que está tudo travado por algum nó imaginário.
Para dizer isso de maneira diferente, pode-se usar outra metáfora, tão presente nos últimos tempos. A dos "outros 500", que povoa os sonhos e os planos de tanta gente, para substituir os 500 anos de Brasil que se foram, colados a tanta injustiça, a tanta aberração. Mas, enfim, por mais insatisfatório que sejam, é o que temos para partir para outros diferentes 500.
Será que este é o momento de realização da profecia? Talvez não completamente, mas o sertão, como símbolo da maioria que herdou aridez e carência, na repartição dos 500 anos passados, quer virar mar, quer penetrar a imagem da exuberância e da fartura tão maldivididas.
A colonização empurrou os nativos para dentro do território e ficou com o "mar". Instalou-se na faixa litorânea, criou muita riqueza e cuidou ciosamente para que nunca fosse distribuída. Tomou de assalto e destruiu o que podia e não podia daquilo que parecia ser uma dádiva divina inesgotável. A natureza, os recursos naturais de toda espécie. É o que está por trás do balanço dos 500 anos de destruição florestal no Brasil, feito pela WWF: 93% da mata atlântica exterminados, 50% do cerrado, 15% da Amazônia.
Hoje já não estamos divididos em invasor e invadido, nativo e colonizador, mas permanece atávica, nas mentes e corações de muitos, a barreira ancestral. De um lado os "índios e negros escravos": a população que permanece colonizada, iludida, discriminada, explorada e sem direitos em seu próprio país. Perde muito, ganha pouco, recria-se continuamente na cadeia de miscigenações culturais, sociais, espirituais, raciais e econômicas trazidas pelas caravelas eletrônicas da globalização. De outro, os donos da terra e de tudo, que se sentem naturalmente talhados para o poder e privilégio, senhores eternos do melhor pedaço, do "mar". Sem sensibilidade social, sem criatividade, com uma percepção deformada de qualidade e objetivos de vida, são o verdadeiro e único "custo Brasil". Há 500 anos.
Não percebem, contudo, que sob o aparente cenário de permanência há uma energia inquietante em movimento. E se prestassem mais atenção veriam que o sertão está, literalmente, descendo para o mar. De todo o país, caravanas de trabalhadores, de comunidades indígenas e negras, dirigem-se para Coroa Vermelha, para Porto Seguro, onde tudo começou. Trazem a agressividade política da afirmação da sua existência e do seu espaço. E quem há de negar que sua revolta é justa?
Mas o movimento que vem do sertão tem outras novidades, também, para mostrar. Há sinais consistentes de alianças e parcerias que confirmam, na prática, a viabilidade de outra lógica para a exploração econômica dos recursos naturais, baseada na conservação e no equilíbrio ecológico e social. A Amazônia é hoje espaço fértil dessas parcerias e dessa lógica, que começam a impregnar grandes estruturas institucionais, como é o caso dos governos estaduais do Acre e Amapá.
Há em todo o país experiências alternativas de desenvolvimento comunitário, institucional, político. Os sem-terra, sobre quem pesa a acusação de radicais, dão uma lição de futuro, instalando escolas para suas crianças nos acampamentos. Há coisas acontecendo neste país que dão alento, em vez de asco. Mas por que é tão difícil ganharem escala capaz de botar para correr as bandas podres, que parecem tudo corromper, poluir, contaminar, como esgoto clandestino entrando na corrente sanguínea do país?
A resposta implica coragem para reconhecer que é positiva a chegada de caravanas populares ao sul da Bahia, desafiando e desafinando o coro da preguiça comemorativa, ultrapassando a abordagem passadista, pobremente festiva da programação oficial e oficiosa. É um país ferido, porém vivo, cuja história real deve ser exposta, discutida, enfrentada, para afirmar, de todas as maneiras, que muita coisa passou dos limites nestes 500 anos.
A chegada dessas caravanas, de gente que tem pouco ou nada a perder, é um sinal forte, mesmo que às vezes intimidante, de que o povo ainda procura soluções coletivas, institucionalizáveis, identificadas com um sentimento de pertencer ao país. Assustador seria se esses laços já se tivessem rompido de vez. É preciso lembrar que o maravilhoso mar também traga, faz naufragar.
Poucas vezes tivemos tantas coincidências, tantas simbologias de esperança e ameaça. Dia 19, Dia do Índio. Dia 22, Dia do "Descobrimento" e também Dia Internacional da Terra, o planeta no qual a nossa parte, o que nos identifica, está neste espaço físico, cultural e político que chamamos de Brasil, mas que ainda, de fato, não descobrimos.
O maior resultado esperado da tensão destes dias e do acerto de contas histórico feito na Bahia é uma enfática e clara atitude, por parte do governo federal -que, deve-se reconhecer, é a maior força institucional estruturadora ou desestruturadora do país-, que vá além de arranjos de última hora, paliativos conjunturais ou culpas retóricas e se comprometa, de fato, com o fim do Brasil-colônia.


Marina Silva, 41, historiadora, é senadora pelo PT do Acre. Foi fundadora da CUT (Central Única dos Trabalhadores) no Acre.
E-mail: marinasi@senado.gov.br




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