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Reinaldo Azevedo

Dilma, ignorância e espanto

Se o PT não quiser cometer erro brutal, convém não se comportar como expressão de uma elite insensível

Ao combater Marina Silva com truculência, Dilma Rousseff mexe com forças cujo poder ignora. Consta que, na juventude, a presidente-candidata foi professora de marxismo. Huuummm...

Dada a sua inclinação para anacolutos, imagino que a tarefa dos alunos não fosse fácil. Até porque há dois Marx, né? O de "O 18 de Brumário" e "A Ideologia Alemã", por exemplo, é brilhante, goste-se ou não do que lá vai. O de "O Capital", ao qual Dilma se dedicava, é intragável e, já conversei com especialistas, às vezes, não faz sentido nem em alemão. Imagino o bruto traduzido para o português e depois filtrado pelo "dilmês castiço". É bem possível que a luta armada só tenha sido tentada no Brasil por erro de tradução e de leitura.

O povo que aparece nos manuais de esquerda é o inventado pela taxidermia socialista. Não tem vísceras nem alma, só palha. Faltar-lhe-ia um conteúdo, a ser preenchido pelas utopias redentoras. É destituído de verdade e de história.

Sua consciência possível, segundo essa visão, é a de classe, que lhe seria fornecida pelas vanguardas revolucionárias. A alternativa é a falsa consciência.

O que vai acima é uma caricatura realista de um partido socialista à moda antiga, como o PSTU, o PCO ou mesmo o PSOL, esses pterodáctilos que voejam na bondade do Fundo Partidário do "Estado burguês" que querem destruir. Lixo. O PT é outra coisa, bem mais pragmática, mas conserva a visão autoritária do que seja o povo.

Lula só representou um sopro de renovação nas esquerdas porque trazia um pouco de verdade à luta política. À época, eu tinha 16 anos e era da Convergência Socialista (origem do PSTU). Malhávamos sem dó aquele sindicalista porque o considerávamos reformista, despolitizado, cooptável, não revolucionário.

Eu endossava a crítica, mas... O que me incomodava um pouco é que ele lembrava meu pai, um operário. Os meus amigos socialistas da época, a exemplo de Dilma, nunca tinham visto o povo de perto.

Marina pertence à Família Silva, uma força política inventada por Lula. Ela não respondeu à pregação terrorista do PT sobre a suposta extinção do Bolsa Família com uma simples negativa. Foi buscar na memória o tempo em que os pais dividiam com uma penca de filhos um ovo, um pouco de farinha e algumas lascas de cebola. Quase chorou.

Pobreza pregressa não é categoria de pensamento nem fonte legitimadora de convicções e utopias. Mas, se o PT não quiser cometer um erro brutal (do seu ponto de vista; do meu, resta o divertimento), convém Dilma não se comportar como a expressão de uma elite insensível (outra criação de Lula), que reage com truculência quando o povo -Marina!- acorda e fala.

A procuradora de um ente de razão chamado "PT", onde o povo está empalhado, é, sem dúvida, Dilma. Mas a herdeira do Lula da Silva, com vísceras e história, que não cabe nos manuais esquerdopatas, é Marina Silva. O PT não tem como apagar da história de sua adversária o ovo, a farinha e as lascas de cebola. Marina sabe ser Lula. Mas Dilma só sabe ser Dilma.

É grande a chance de Marina segurar a cabeça de Dilma com a férrea placidez com que Davi exibe a de Golias num quadro de Caravaggio. No rosto do morto, um misto muito humano de ignorância e espanto.


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