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São Paulo, sábado, 08 de março de 2003

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Crítico discute o embate entre ficção e realidade em "Nove Noites", de Bernardo Carvalho

Segredos e distorções

Nove Noites
Bernardo Carvalho
Cia das Letras
(Tel. 0/xx/11/3167-0801)
176 págs., R$ 28,00

ALCIR PÉCORA

Ao escrever neste Jornal de Resenhas a respeito de "Nove Noites", novo romance de Bernardo Carvalho, alguma circularidade se instala, pois ele começa justamente com a referência à leitura de um "artigo de jornal". O nome do jornal, o título ou o autor do artigo em questão não são explicitados no romance, mas não é difícil descobri-los, desde que o livro está dedicado a Mariza Corrêa, conhecida antropóloga da Unicamp, e a data do tal "artigo de jornal" é dada como 12 de maio de 2001, um segundo sábado do mês. Com efeito, nesse dia, o "Jornal de Resenhas" publicava "Paixão Etnológica", resenha da própria Mariza Corrêa a respeito do livro "Cartas do Sertão - De Curt Nimuendajú para Carlos Estevão de Oliveira" (Museu Nacional de Etnologia/ Assírio & Alvim).
Logo ao início de sua resenha, Mariza escrevia que, entre os poucos casos de morte de antropólogos no "campo", estavam "os de Buell Quain, que se suicidou entre os índios krahôs, em 1939, e o de Curt Nimuendajú, que morreu durante uma visita aos índios ticunas, em 1945, em circunstâncias até hoje debatidas pelos etnólogos". Referindo-se à morte do norte-americano Quain, principal assunto do romance, Mariza escreve apenas mais um parágrafo, mas ele é suficientemente intrigante para que Bernardo Carvalho possa apresentá-lo como o primeiro indício do "plot" orquestrado por seu romance: "A comoção causada por sua morte foi sentida lá e aqui, e durante muitos anos esse foi um dos segredos da história da etnologia".
A frase pode ser lida de modo a favorecer a intriga armada pelo romance, que, em termos rápidos, organiza-se em torno da pergunta pelos motivos que teriam levado Quain, aos 27 anos, a cometer um suicídio brutal, no qual flagelara o próprio corpo com uma navalha antes de se enforcar, em plena selva, quando voltava da aldeia krahô para a cidade de Carolina, no atual Estado de Tocantins.

Inquietação e desconfiança
Isso posto, pode-se dizer que o livro de Bernardo Carvalho se apresenta como um misto de romance-reportagem e de romance policial, selado pela obsessão investigativa do narrador-jornalista e pelo suspense do andamento das descobertas, que é, em parte, sustentado pelo minucioso balizamento das datas e circunstâncias da investigação. A certa altura da leitura, comecei a rodear com lápis as inúmeras referências temporais e geográficas aplicadas aos menores acontecimentos e percebi que é rara a página na qual não se encontra alguma delas.
O procedimento ostensivo cria alguma inquietação ou mesmo certa desconfiança derivativa e paranóica, tal como a explorada na série "Arquivo X", por exemplo, quando estar no deserto do Arizona numa certa hora, minuto e segundo parece se articular a um processo irresistível que culminará com uma invasão alienígena a milhares de anos e quilômetros dali. A analogia pode parecer desmerecedora para o romance, e talvez o seja, pelo que me desculpo, mas ela dá uma idéia razoável da criação do clima conspiratório, sub-reptício naquela frase inspiradora de Mariza Corrêa, e dramaticamente manifesto no livro inteiro de Bernardo Carvalho.
Posso usar uma comparação menos popular. O tratamento dado pelo romancista ao caso da morte de Quain vai no sentido oposto àquele que o antropólogo Roque de Barros Laraia, da Universidade de Brasília (UnB), imprimiu ao seu artigo "As Mortes de Nimuendajú" ("Ciência Hoje", vol.8, nš 44, de 1988), quando procura demonstrar, a contrapelo das várias hipóteses de assassinato do antropólogo alemão Curt Unkel, rebatizado pelos índios como Nimuendajú, que ela teria sido "apenas uma morte natural", não importa quanta decepção causasse à imaginação romântica das pessoas. Em "Nove Noites", ao contrário, tudo é ou se torna suspeito; todas as personagens aparentam saber mais do que dizem; toda a investigação parece estar fadada a não descobrir e mesmo determinada a deliberadamente encobrir. Aliás, no andamento do romance, fica claro que o próprio narrador-jornalista, o único parceiro de ignorância e curiosidade sincera do leitor, não está ele mesmo isento de suspeitas e de motivos secretos.

Arquitetura complexa
O que fiz até agora, como disse, foi apenas tomar uma via rápida de apresentação do romance. Pois a sua arquitetura é bem mais complexa e está assentada na alternância de uma dupla narração, muito diferente entre si -traço comum aos romances de Bernardo Carvalho. Assim, o repórter que escreve em 2002 não é o único a ocupar a posição de narrador: há ainda um contemporâneo de Quain, um engenheiro-sertanejo, morador de Carolina, que se tornara amigo do antropólogo.
Este escreve em meados dos anos 40, quando pressente a iminência da própria morte e relembra as "nove noites" em que estivera com o americano, bebendo e conversando, num intervalo de cinco meses a contar do dia em se conheceram até aquele em que o engenheiro o acompanhou em parte de sua última viagem à aldeia krahô. O texto desse narrador é, assim, uma espécie de carta-testamento, cujo destinatário particular seria um antigo amante de Quain, que estaria no centro da causa de seu suicídio e cuja chegada é esperada para breve.
Nesse ponto, são tantos os detalhes de construção do mistério, que confesso ser difícil dar dele qualquer imagem aproximada e ao mesmo tempo suficientemente embaçada para não ser um estraga-prazer dos futuros leitores do romance. Fiquem, pois, apenas esses indícios.
A narração epistolar do engenheiro não tem a mesma paranóia de objetividade que apontei na do jornalista. Ela é alusiva, sinuosa e remete com estranha intimidade a fatos que não são conhecidos ou que são apenas imaginados, o que produz um efeito de cumplicidade solene e tácita (e, em seus maus momentos, sentenciosa e kitsch) entre o narrador e o destinatário ausente.
E produz não apenas uma cumplicidade entre eles. O destinatário secreto, referido pelo engenheiro como um simples "você", produz o tipo de ambiguidade insolúvel dos dêiticos -termos da linguagem usual que não têm sentido fixo ou lexical, mas sim dependente do conhecimento da posição de quem fala-, quando empregados fora de uma situação oral particular. Assim, virtualmente, o "você" a quem a carta se dirige inclui não apenas o esperado amante de Quain, como também qualquer um que esteja em posição de lê-la: exatamente aquela em que está o leitor do romance.
Bernardo Carvalho joga firme nessa ambiguidade. Todas as frases apontam e incluem os leitores na cumplicidade dissimulada em torno da morte trágica e de sua herança de "segredo". Cada frase da carta, cujo "você" é potencialmente preenchido pelo leitor, acaba por enredá-lo no coração da intriga, sem que saiba exatamente qual seja ela ou qual o papel provavelmente escuso que ocupa aí.
A morte de Quain não apenas não é "natural", como contamina e destrói toda idéia de naturalidade assumida pelas personagens e pelos narradores. No limite, resta a suspeita de que mesmo o leitor que busca uma explicação para os acontecimentos narrados não pode ser inteiramente inocente, como certamente não pode sê-lo o narrador da carta-testemunho que lhe escreve confessando ter feito tudo o que pôde, até aquele momento, para esconder a suposta explicação de todos.

Três tempos
Para avançar, será preciso retomar o narrador-jornalista e notar que a sua própria narração se desdobra em três tempos diferentes. O mais atual, para simplificar, é contemporâneo do ambiente de desconfiança generalizada que se seguiu à queda do World Trade Center. O mais recuado passa-se ao final dos anos 60, quando o jornalista é ainda uma criança e viaja com o pai fazendeiro pelo alto Xingu, aterrorizando-se com os vôos precários, a promiscuidade paterna e o contato canhestro e mal intencionado com os indígenas.
Há ainda um tempo intermediário, situado no início dos anos 90, quando o pai já foi atingido por uma doença degenerativa do cérebro e o narrador passa com ele alguns dias em seu quarto de hospital, interessando-se simultaneamente por outro paciente em estado terminal, norte-americano como Quain, que parece esperar, há anos, um antigo amigo, cujo nome, pronunciado em delírio, soa como "Bill Cohen".
Percebe-se então, em algum instante súbito da leitura, que os três tempos da narração do jornalista absorvem ou ecoam as principais situações e acontecimentos assinalados pelo enigma de Quain, de modo que o objeto de sua investigação se confunde com a memória mais irreparavelmente dolorosa de quem o investiga. Esse é o ponto sem retorno da investigação: aquele em que a causa do suicídio, sem se esclarecer pela explicação, volta a pulsar no cerne da narração. A eventual loucura da aniquilação do corpo no passado remoto se reinstala como vírus da linguagem no presente.
Por esse entrecho, pode-se perceber quão certeiras permanecem as palavras de Luís Costa Lima quando notava a propósito de "Teatro", outro romance de Bernardo Carvalho, a sua "extrema habilidade de duplicar, distorcer e deformar cada figura ou acidente de sua trama". Também em "Nove Noites", como naquele livro, com o "cruzamento da óptica dos dois narradores (...), desestabilizam-se as idéias de referência e realidade". O resultado é que "o mundo da realidade virtual amplia o presente para convertê-lo em pesadelo". Criticável em "Teatro", para Costa Lima, era o esforço de Bernardo Carvalho para encaixar todas as peças de seu quebra-cabeça narrativo, extremando-se em "transformar o inverossímil em verossímil" e "em não deixar brechas para uma leitura adversa". "Nove Noites", a meu ver, está livre dessa falha. Pois o narrador-epistolar parece justamente significar uma resposta a esse tipo de crítica, ao produzir a sua escrita como uma "combinação" daquilo que Buell Quain lhe contou e daquilo que ele próprio imaginou, liberando igualmente o "você" a quem se dirige para imaginar o que nunca chegou a escrever.
Seja como for, o encaixe das peças da morte de Buell Quain -deformado em "Bill Cohen" (cujas iniciais são as mesmas do autor) ou até em um simples "Quem"- nunca chega a ser completa ou sequer satisfatória. O leitor está obrigado a imaginar hipóteses precariamente capazes de dar sentido aos dados apresentados com minúcia alucinada, sem que nenhum deles adquira jamais o estatuto de "evidência". São mais alegações interessadas, autodescrições empenhadas, no caso do narrador-jornalista, e racionalizações afetivas, no caso do narrador-testemunho. Os "fatos" -principalmente os "fatos"- são os grandes inverossímeis de "Nove Noites".


Alcir Pécora é professor de literatura na Unicamp.


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