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Amigos de Glauber apontam erros, e Nelson Motta corrige biografia
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FABIO VICTOR
DE SÃO PAULO
Amigos de juventude de Glauber Rocha (1939-1981) apontaram erros na biografia do cineasta baiano escrita pelo jornalista Nelson Motta, "A Primavera do Dragão", recém-publicada pela Objetiva. Motta desculpou-se, e a editora informou que vai corrigi-los na próxima reimpressão.
Quem detonou o caso, noticiado pelo portal "Terra Magazine", foi o historiador e poeta Fernando da Rocha Peres, 75, amigo de juventude de Glauber e um dos personagens citados no livro.
Peres é erroneamente identificado na obra como sendo "Bananeira", apelido de outro amigo de Glauber na mesma época, o jornalista Fernando Rocha, e aponta o que seriam outros erros pontuais na biografia.
As histórias atribuídas à "Bananeira", cujo nome é citado mais de 40 vezes no livros, são na verdade de Peres, que Motta diz ter entrevistado na Bahia em 1989 --o historiador diz que não se recorda-- e ter a fita guardada.
Peres enviou um telegrama à Objetiva com o seguinte texto: "Senhor editor: recebi dois exemplares não solicitados do livro 'A Primavera do Dragão', do sr. Nelson Motta. Agradeço a oferta editorial. Tenho a dizer que o livreco é feio, mal escrito e mentiroso e mais houvera adjetivos". Não recebeu resposta diretamente. Mas autor e editora se manifestaram.
Nelson Motta divulgou uma carta em que pede desculpas aos dois Fernandos, o historiador e o jornalista, por ter confundido um com outro, "um equivoco que lamento e será corrigido na próxima edição, mas em nada afeta a narrativa em que o protagonista absoluto é outro Rocha: Glauber".
O jornalista desculpou-se por outro erro pontual, de ter identificado a atriz Sonia Pereira, do filme "Mandacaru Vermelho", como Sonia Coutinho --na verdade uma escritora.
A editora Objetiva informou que "fará as mudanças conforme instruções do autor na próxima reimpressão, que é iminente (....), até o dia 15 de novembro."
Disse ainda que os exemplares em circulação não serão recolhidos. A tiragem inicial de "A Primavera do Dragão", lançado no fim de setembro, foi de 20 mil exemplares. A Objetiva diz não ter fechado o primeiro balanço de vendas.
| Divulgação | ||
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| O cineasta baiano Glauber Rocha (1939-1981) em Salvador, em 1979 |
Em entrevista à Folha, Fernando da Rocha Peres, professor emérito de história da UFBA (Universidade Federal da Bahia) com vários livros publicados, entre os quais uma biografia do poeta Gregório de Mattos, creditou os problemas apontados a uma certa folclorização da cultura baiana.
"É um livro pouco sério, e a Bahia é séria. Não é um balneário para os cariocas virem se divertir. O problema é que certos indivíduos assentados no divã das celebridades imaginam que a Bahia é um balneário."
JUVENTUDE
Definida por Nelson Motta como uma biografia romanceada da adolescência e juventude de Glauber Rocha, "A Primavera..." vai até 1964, com a boa recepção em Cannes de "Deus e o Diabo na Terra do Sol".
"Não existe biografia romanceada. Biografia é um gênero histórico. Biógrafos têm que se assentar em documentos. Podem se valer em entrevistas, mas as entrevistas têm que ser transcritas com fidelidade e ter a autorização dos entrevistados", criticou Peres.
Motta afirma que a ideia do seu livro surgiu de uma entrevista com a mãe de Glauber, Lúcia Rocha. Em 1989, o jornalista foi a Salvador e teve várias outras conversas com amigos do cineasta.
Diz que abortou o projeto ao saber que Zuenir Ventura já preparava uma biografia de Glauber, mas o retomou quando o amigo desistiu do projeto, e fez novas entrevistas para juntar às que fizera 23 anos atrás.
O "Terra Magazine" ouviu outros amigos de juventude de Glauber, entre eles João Carlos Teixeira Gomes, autor de uma biografia referencial do cineasta, "Glauber Rocha, Esse Vulcão".
Além dos erros pontuais, há críticas generalizadas ao tom jocoso dos relatos do livro em torno da chamada "Geração Mapa", que liderou a vanguarda artística nos anos 60 na Bahia.
Os amigos contestam a descrição de "atentados terroristas" planejados por Glauber e sua turma na Salvador dos anos 50/60 --como o ataque a um navio espanhol atracado no cais, o sequestro de um empresário e banqueiro e o fuzilamento do então governador Juracy Magalhães.
O tom empregado por Motta no livro, porém, é claramente zombeteiro, não de relato histórico.
"As 'conspirações de araque' (...) que obviamente não eram sérias, apenas fantasias anarquistas de jovens movidos a cerveja e alegria, me foram relatadas pelo artista plástico Calazans Neto, pelo escritor João Ubaldo Ribeiro e pelo cineasta Orlando Senna, em entrevistas gravadas, às gargalhadas. E também pelo próprio Glauber Rocha, sempre às gargalhadas, como lembranças de exercícios de imaginação de jovens inteligentes e abusados. Não dá para levar a sério, nem era para isto, mas mostra o espírito, o humor e a imaginação de Glauber e de alguns de seus amigos", escreveu Nelson Motta na carta de resposta.
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