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14/01/2012 - 07h45

Leia poema de Emily Dickinson

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AUGUSTO MASSI
ESPECIAL PARA A FOLHA

A poesia de Emily Dickinson vem tornando-se cada vez mais conhecida do público brasileiro. Em função deste crescente interesse em torno de sua obra, reunimos logo abaixo diferentes traduções do poema "Morri pela beleza", realizadas por renomados tradutores brasileiros e portugueses, dentre eles, Manuel Bandeira, Cecília Meireles, Augusto de Campos.

Desta forma, o leitor poderá desfrutar de uma experiência rara, confrontar, década a década, as inúmeras leituras, estilos, opções e técnicas empregadas em torno da tradução de um mesmo poema que, por sinal, desde o trabalho pioneiro de Manuel Bandeira, em 1942, acabou por se constituir num desafio a todos aqueles que se candidatam a traduzir Emily Dickinson.

Chamo atenção também para um aspecto constantemente destacado pela crítica. No terreno das influências e das afinidades, é importante lembrar que "Morri pela Beleza" traz fortes ressonâncias de um conhecido verso da célebre "Ode sobre uma urna grega", de John Keats: "Beauty is truth, truth beauty" [A beleza é a verdade, verdade é beleza].

I died for Beauty - but was scarce
Adjusted in the Tomb
When One who died for Truth, was lain
In an adjoining Room -

He questioned softly "Why I failed"?
"For Beauty", I replied -
"And I - for Truth - Themself are One -
We Brethren, are", He said -

And so, as Kinsmen, met a Night -
We talked between the Rooms -
Until the Moss had reached our lips -
And covered up - our names -

Morri pela beleza, mas apenas estava
Acomodada em meu túmulo,
Alguém que morrera pela verdade
Era depositado no carneiro contíguo.

Perguntou-me baixinho o que me matara:
- A beleza, respondi.
- A mim, a verdade - é a mesma coisa,
Somos irmãos.

E assim, como parentes que uma noite se encontram,
Conversamos de jazigo a jazigo,
Até que o musgo alcançou os nossos lábios
E cobriu os nossos nomes.

Trad. Manuel Bandeira
In Pensamento da América, n. 12, suplemento de A Manhã, RJ, 20 dezembro de 1942.

Morri pela beleza, e ainda não estava
Meu corpo à tumba acostumado
Quando alguém que morreu pela verdade
Foi posto do outro lado.

Brandamente indagou: "Por quem morreste?"
"Pela beleza" disse. "Pois
Eu, foi pela verdade. Ambas são o mesmo.
Somos irmãos, os dois."

E assim, parentes de noite encontrados,
Conversamos entre as paredes,
Até que o musgo nos chegasse aos lábios
Nossos nomes cerrando em suas redes.

Trad. Cecília Meireles (1952)

Morri pela Beleza, mas na tumba
Mal me tinha acomodado
Quando outro, que morreu pela Verdade,
Puseram na tumba ao lado.

Baixinho perguntou por que eu morrera.
Repliquei, "Pela Beleza" -
"E eu, pela verdade" - ambas a mesma -
E nós, irmãos com certeza.

Como parentes que pernoitam juntos,
De um quarto a outro conversamos -
Até que o musgo alcançou nossos lábios
E encobriu os nossos nomes.

Trad. Aíla de Oliveira Gomes (1985)

Morri pela Beleza - e em minha Cova
Eu não me sentia a gosto
Quando Alguém que morreu pela Verdade
À Cova ao lado chegou -

Ele indagou gentil por que eu viera -
E eu disse - "Pela Beleza" -
"Eu vim pela Verdade" - a Mesma Coisa -
Somos Irmãos" - respondeu -

E quais Parentes juntos numa Noite
Conversamos nos Jazigos -
Até que o Musgo nos chegou aos lábios
E nossos nomes cobriu -

Trad. José Lira (2006)

Morri pela Beleza - e assim que no Jazigo
Meu Corpo foi fechado,
Um outro Morto foi depositado
Num Túmulo contíguo -

Por que morreu?" murmurou sua voz.
"Pela Beleza" - retruquei -
"Pois eu - pela Verdade - É o Mesmo. Nós
Somos Irmãos. É uma só lei" -

E assim Parentes pela Noite, sábios -
Conversamos a Sós -
Até que o Musgo encobriu nossos lábios -
E - nomes - logo após -

Trad. Augusto de Campos (2008)

Morri pela Beleza - mas mal me tinha
Acomodado à Campa
Quando Alguém que morreu pela Verdade,
Da Casa do lado -

Perguntou baixinho "Por que morreste?"
"Pela Beleza", respondi -
"E eu - pela Verdade - Ambas são iguais -
E nós também, somos Irmãos", disse Ele -

E assim, como parentes próximos, uma Noite -
Falámos de uma Casa para outra -
Até que o Musgo nos chegou aos lábios -
E cobriu - os nossos nomes -

Trad. Nuno Júdice

AUGUSTO MASSI é professor de literatura brasileira na USP

 

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