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"Os Sete Gatinhos", de Nelson Rodrigues, ganha nova montagem
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GABRIELA MELLÃO
DE SÃO PAULO
É num misto de casa, igreja e bordel que o diretor Nelson Baskerville situa sua montagem da peça "Os Sete Gatinhos" (1958), de Nelson Rodrigues (1912-1980).
O espetáculo entra em cartaz neste sábado e marca a última estreia da ocupação do Teatro de Arena dedicada ao dramaturgo, cujo centenário de nascimento é celebrado neste ano.
Neste espaço híbrido habitado por seu Noronha, dona Aracy e as cinco filhas do casal, pinturas religiosas (criadas pelo próprio Baskerville) convivem com desenhos pornográficos, calcinhas vermelhas rendadas, talheres, mesas e outros objetos usados no cotidiano.
A mistura revela as múltiplas --e contraditórias-- facetas da família. No primeiro ato, Silene, a filha caçula do clã, é endeusada por seus parentes, que sacrificam suas vidas para garantir-lhe uma boa educação.
A transformação é absoluta quando seu Noronha descobre que Silene não só matou uma gata grávida a pauladas como não é mais virgem e carrega um filho no ventre.
De santuário, a casa é transformada em bordel. Todos os pecados passam a ser permitidos e praticados. "Quando não existe o divino, motivo para a existência, o inferno é o caminho mais provável", diz Baskerville.
"Todos nós somos canalhas", conclui seu Noronha quando caem as máscaras de sua família. O personagem é interpretado por Renato Borghi, ator que dedicou seus 54 anos de carreira à renovação do teatro brasileiro.
"Com 'Os Sete Gatinhos', Rodrigues inventa a tragédia cafona suburbana do Rio de Janeiro e deixa claro que ninguém presta", diz Borghi.
O ator contracena com seu parceiro no grupo Teatro Promíscuo, Élcio Nogueira Seixas. Ele vive Aracy, mulher submissa que expurga frustrações escrevendo pornografia no banheiro. Usam figurinos trocados, uma maneira de evidenciar a inversão de valores e comportamentos da família Noronha.
| Lenise Pinheiro/Folhapress | ||
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| Renato Borghi (à frente) em cena da peça "Os Sete Gatinhos" |
DIVINA COMÉDIA
Nelson Rodrigues apelidou "Os Sete Gatinhos" de divina comédia. Em sua encenação, Barskerville enfatiza tanto a discussão religiosa como o humor do texto --no qual, segundo ele, Nelson "ri do ridículo da passionalidade do brasileiro".
O espetáculo marca a primeira incursão integral de Baskerville numa obra rodriguiana. Nessa empreitada, ele flerta de modo paródico com diversas linguagens teatrais, como tragédia, teatro de revista e comédia.
Não economiza na ousadia, como fez em "Luis Antônio Gabriela" --espetáculo que criou com a Companhia Mungunzá de Teatro, premiado nas últimas edições do APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte) e do CPT (Cooperativa Paulista de Teatro).
"Nesta peça, Nelson marca um posicionamento contrário à igreja, ridiculariza o misticismo. Eu exagero isso ainda mais", diz.
Para ele, a discussão sobre fanatismo religioso é oportuna: "O fundamentalismo cresceu proporcionalmente à falta de cultura e à condição social dos brasileiros".
Segundo conta, Nelson Rodrigues defendia a liberdade como sendo mais importante do que o pão. "Em 'Os Sete Gatinhos', a religião, levada às ultimas consequências, emburrece o homem e tira dele o melhor na vida: o livre arbítrio", completa.
OS SETE GATINHOS
QUANDO sáb., às 21h; dom., às 19h; estreia dia 11/2 (sábado); até 26/2
ONDE Teatro de Arena Eugênio Kusnet (rua Teodoro Baima, 94; tel. 0/xx/11/3256-9463)
QUANTO R$ 20
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