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Crítica: Com imagens que encantam, 'Azul é a Cor Mais Quente' é maior destaque do ano

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O que é um homem? Um ser que procura a si mesmo. Essa é a ideia mais evidente contida nas imagens e nas várias referências literárias de "Azul É a Cor Mais Quente", de Marivaux a Sófocles, de Rimbaud a Alain Bousquet.

Comecemos pela literatura, com um fragmento do poema de Bousquet que Adèle a horas tantas ensina a seus alunos de pré-primário: "Para o que serve o pescoço da girafa? Para alcançar as estrelas". Ou, podemos pensar: para o que serve a sexualidade de Adèle? Para o prazer.

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Mas o que é o prazer? Como alcançá-lo? Eis um drama pelo qual todo adolescente passa: o momento da descoberta do sexo, quando não há mais amigos, pais ou guias que nos amparem. Estamos sozinhos.

Divulgação
As atrizes Adèle Exarchopoulos e Léa Seydoux em cena do filme 'Azul É a Cor Mais Quente', de Abdellatif Kechiche
As atrizes Adèle Exarchopoulos e Léa Seydoux em cena do filme 'Azul É a Cor Mais Quente', de Abdellatif Kechiche

De certa forma é o momento de saber quem somos. É o que diz a professora que analisa a "Antígona" de Sófocles: neste momento, o de abandonar a infância, Antígona descobre-se diante da tragédia. Pois o trágico nada mais é do que isso: o inelutável.

Eis o trágico da bela adolescente: Adèle descobre-se mais atraída por garotas do que por rapazes. Quando transa com um é como se algo lhe faltasse --ela diz. Quando cruza na rua com Emma (Léa Seydoux), a menina dos cabelos azuis, a atração é imediata.

Eis o que Abdellatif Kechiche nos traz neste filme: a condição trágica. A impossibilidade, para Adèle (Adèle Exarchopoulos), de escapar à sua sexualidade. Ou seja, à sua homossexualidade.

Tudo isso, no entanto, poderia resultar num filme gay desinteressante como existem às pencas. Kechiche não é um doutrinador, um defensor de causas. É um cineasta, alguém que mostra. O que há de especial em Adèle, por um lado, é a força, a clareza com que caminha em busca de si mesma. E por outro lado, seu sorriso.

Pois este é um filme, sobretudo, de primeiros planos, de rostos. Do sorriso tão especial, tão aberto de Adèle. E que pode ser comparado, talvez, ao sorriso conquistador de Emma. Como descrevê-los? Não há muito a fazer: eis a riqueza do filme, de sua opção por uma relação estrita com a imagem, com o real.

Ele pode nos levar a uma bela cena de amor entre as duas moças, é verdade (talvez seja o principal ponto de venda do filme). Mas é ao retomar a ideia proclamada por Eric Rohmer de que o cinema foi a arte clássica do século 20, que o filme assume plenamente sua originalidade.

A relação do cinema com a realidade, desde os anos 80 do século passado, tornou-se progressivamente mais tênue. Parece que cada vez menos os cineastas conseguem captar o óbvio: o corpo humano, seus sorrisos, sua batalha para descobrir sua própria medida, sua estatura.

O que há de fascinante neste Azul-Kechiche é a veemência com que o autor, mais uma vez, afirma sua modéstia diante de suas personagens, como lhes permite, e ao mundo que habitam, se manifestarem na tela e irradiarem no espírito dos espectadores.

"Azul..." é o filme que mais se destaca neste ano tão fraco, de 2013. Mesmo que fosse um ano forte, seria, ainda assim, um filme especial: desses cujas imagens, aparentemente tão simples, chegam a nossos olhos, encantam, não se deixam esquecer.

(P.S.: Pessoalmente, penso na morena da escola de Adèle, com quem ela troca um beijo. A menina explicará que aquilo foi um momento a ser esquecido. Depois, quando outras colegas cercam Adèle e a chamam de lésbica nojenta, a garota aparece à distância, só seu rosto, em silêncio: em que estará pensando? --são esses momentos laterais que, muitas vezes, fazem os grandes filmes.)

AZUL É A COR MAIS QUENTE
DIREÇÃO Abdellatif Kechiche
PRODUÇÃO França, 2013
ONDE Reserva Cultural e circuito
CLASSIFICAÇÃO 18 anos
AVALIAÇÃO ótimo

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