Blockbusters de Hollywood explicam fórmulas da política americana

Crédito: Divulgação A atriz Daisy Ridley em cena de 'Os Últimos Jedi', da série 'Star Wars
A atriz Daisy Ridley em cena de 'Os Últimos Jedi', da série 'Star Wars'

PETER SUDERMANCE
DO "NEW YORK TIMES"

Parece que as ideias de Washington se esgotaram. Os debates sobre política pública não desbravam novos territórios. Para compreender a crise de criatividade que aflige a política dos Estados Unidos, e os incentivos que ameaçam prolongá-la, basta considerar, por um instante, o mais recente filme da saga "Star Wars".

Há quase nada de novo em "Os Últimos Jedi". Ainda que não se apegue de maneira tão servil quanto seu predecessor, "O Despertar da Força", à trilogia original dos anos 1970, o filme consiste basicamente de elementos reciclados –seu principal atrativo está em uma combinação de palatabilidade e nostalgia.

A Disney fez a mais simples das apostas. Se uma pessoa gosta de "Star Wars", deverá gostar de ainda mais "Star Wars". Um filme sobre a juventude de Han Solo, que não será parte da saga, sairá no meio de 2018, e um novo episódio da saga em 2019.

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Hollywood já não conta histórias que interessem como histórias. Em lugar disso, cria universos –grandes franquias interligadas que servem como publicidade delas mesmas.

Os profissionais da política definiriam essa estratégia como "mobilização da base". Na terminologia do cinema, a expressão é "serviço aos fãs". De qualquer forma, a intenção é estimular centros de prazer bem conhecidos, sem jamais abandonar fórmulas que sempre funcionaram. E, tanto na política quanto no entretenimento, os benefícios e perigos desse modelo são, se não iguais de todo, notavelmente semelhantes.

Há incentivos financeiros claros a essa abordagem: os grandes estúdios realizam menos filmes do que em décadas anteriores, mas com custos individuais mais altos de produção e divulgação. O custo de "Liga da Justiça", que estreou em novembro, foi estimado em US$ 400 milhões.

As campanhas políticas, da mesma forma, tornaram-se astronomicamente dispendiosas. O custo da eleição presidencial do ano passado foi estimado em US$ 2,4 bilhões, incluindo as primárias. O custo das campanhas para a eleição suplementar de um único deputado federal na Geórgia, neste ano, superou US$ 50 milhões.

Com custos tão elevados, tanto Hollywood como Washington optaram por responder tomando por foco produtos já com audiência cativa. No negócio do cinema, isso significa uma onda de refilmagens, adaptações, continuações e derivações.

Sim, existem outros tipos de filmes, especialmente na temporada de premiações, mas as produções de grande orçamento recebem a maior parte dos recursos e são a fundação sobre a qual os estúdios se constroem, hoje.

Na política, isso significa candidatos que já disponham de recursos significativos –pessoas com nomes conhecidos e, em muitos casos, com patrimônio pessoal elevado ou conexões importantes.

O que é um dos motivos para que os eleitores no ano passado tenham ficado com a escolha entre Hillary Clinton e Donald Trump, dois nomes já firmemente estabelecidos na consciência pública.

Tentativas recentes de desenvolver universos baseados em propriedades conhecidas também enfrentaram obstáculos. "A Múmia", com Tom Cruise, deveria ser a plataforma de lançamento para diversos filmes com monstros clássicos em um projeto chamado Dark Universe; mas o filme foi uma das decepções do ano.

Vê-se essa tendência a preferir valores conhecidos também na política, como Jeb Bush, cuja candidatura pode ser comparada à extensão de uma série de filmes de sucesso, mas com um novo personagem como protagonista, e não vingou.

Da mesma forma que as continuações de "Star Wars" na era Disney se inspiraram pesadamente nos filmes originais, as grandes iniciativas políticas dos principais partidos americanos muitas vezes não passam de ideias velhas, requentadas com ligeiras atualizações para se acomodarem a uma nova era.

Entre os democratas, uma das ideias mais quentes de política interna na eleição passada era o estabelecimento de um sistema estatal unificado de saúde, mas ela já consta do ideário do partido há décadas (o senador Ted Kennedy propôs uma medida nesse sentido em 1971).

O projeto tributário republicano aprovado pelo Congresso é, para o bem ou para o mal, uma proposta legislativa altamente convencional, que corta as alíquotas de impostos de pessoas físicas e jurídicas de uma forma que causará disparada do déficit.

O projeto tributário que Trump defende está sendo retratado como uma simples, e muito aguardada, extensão da reforma tributária aprovada na presidência de Ronald Reagan, nos anos 1980.

Da mesma forma que refilmagens oferecem uma percepção de certeza a executivos de estúdios que estão apostando seus cargos em filmes de US$ 400 milhões, uma abordagem semelhante oferece segurança à ansiosa classe política. Se você gostou de "Star Wars", vai gostar de mais "Star Wars". Se gostou de um corte de impostos, gostará de outros.

Mas, na busca por previsibilidade, tanto a política quanto o entretenimento adotaram uma abordagem que recompensa inerentemente a repetição, e não a inovação.

É frequente que as continuações atuais se pareçam mais com trailers do que com histórias completas. Elas só têm meio. Existem para estimular o apetite pelo que virá depois e para vender brinquedos de pelúcia, e não para criar um momento cinematográfico.

Disputar um cargo eletivo nacional, enquanto isso, tornou-se veículo para ambições que pouco ou nada têm a ver com governança: vender livros, ampliar o império de negócios da família ou, talvez, tornar-se presidente.

Há diferenças, claro: Hollywood está sintonizada mais diretamente às demandas do mercado, enquanto Washington exerce muito mais poder sobre as vidas dos americanos.

Mas o perigo em longo prazo é essencialmente o mesmo. O fim só chegará quando os espectadores se entediarem e os estúdios (e partidos) descobrirem que não lhes restam ideias a reciclar.

Tradução de PAULO MIGLIACCI

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