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28/07/2010 - 08h02

Em novo romance, Salman Rushdie funde videogame e mitologia

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MARCOS FLAMÍNIO PERES
DE SÃO PAULO

Só um adulto bobalhão ignora que MCD+PDs são, é óbvio!, Máquinas Complicadas Demais para Descrever. Mas não Super Luka, Grão Mestre dos Jogos e super-herói do novo romance de Salman Rushdie, que é lançado hoje no Brasil.

Veja a cobertura completa da Flip 2010

Dedicado ao filho Milan, 11, "Luka e o Fogo da Vida" recicla mitologias arcaicas --grega, egípcia, persa...--, ao ritmo alucinante dos videogames. Nele, Luka mergulha no Mundo da Magia --versão literária de Wiis e Playstations, com etapas a superar e botões de "save" pairando no ar-- para resgatar o Fogo da Vida e salvar o pai moribundo na vida real.

Rushdie --que confessa na entrevista abaixo, por telefone, ser um antigo de fã de games-- diz que eles fornecem um novo padrão à ficção.

E, mais que isso, são uma outra forma de entender a existência: nos games, diz, "a vida se torna simplesmente algo que você coleciona".

O escritor anglo-indiano também fala da proibição do véu islâmico em países da Europa, de revolução digital, traça um paralelo entre Brasil e Índia e explica por que Maquiavel --tema de seu debate com o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, em 5/8, durante a Flip-- ainda é importante hoje.

Zsolt Szigetvary/Efe
Salman Rushdie
Salman Rushdie

Folha - Por que a opção por videogames?
Salman Rushdie - Gosto deles porque apresentam um modo muito novo de contar uma história. Há os estágios que você supera e pode, assim, salvar seu progresso.
É uma ideia bastante interessante: pode-se ter milhares de vidas em um videogame e, a cada vez que perde uma, você usa a próxima.
Refleti sobre o que aconteceria se eu aplicasse à literatura esse modo de contar uma história. Muitos videogames usam o formato da busca, e "Luka" também é um romance de busca.

Ele pode então ser considerado um experimento, fundindo o velho e o novo?
De certo modo, todos os meus livros fazem isso. Mesmo em "Os Filhos da Meia-Noite" há elementos mitológicos misturados à linguagem das ruas de Mumbai. São colisões criativas.

Gosta da série Harry Potter?
Sim. Meu filho lia, e eu também acabei lendo para saber do que se tratava. Nós dois éramos especialistas!

O sr. mencionou "Os Filhos da Meia-Noite", sua grande obra. É possível fazer um paralelo entre o narrador daquele, Salim Sinai --que está contando a história de sua vida e de seu país-- com a do garoto Luka, que recria sua própria história no contexto de um videogame?
Sim, pois em ambos são crianças que estão no centro da história. As crianças nos permitem ver o mundo todo como uma coisa única. Isso cria uma série de possibilidades divertidas para a ficção.

Em "Os Filhos da Meia-Noite", o sr. falou da independência da Índia como "um novo mito". Hoje, tanto Índia quanto Brasil "renasceram" para o mundo, econômica e geopoliticamente. Que similaridades vê entre os momentos históricos de ambos?
É uma pergunta muito interessante. Ambos estão se tornando potências globais, têm históricos de colonialismo, foram sociedades em que a religião foi muito importante e também são mundos em que há uma grande diferença entre riqueza extrema e pobreza acentuada.

O que é mito e o que é realidade na Índia atual?
As pessoas falam da Índia atual como se lá ocorresse uma experiência uniformemente positiva. De fato, é verdade que está em curso um milagre econômico, mas há uma série de dificuldades --a mais grave delas a desigualdade social.
Além disso, o primado da religião em todos os setores tem voltado ao centro da história do país, o que provoca um efeito assustador sobre as liberdades artísticas e intelectuais. Mesmo na política, há indícios preocupantes para a democracia, devido aos partidos dinásticos espalhados pelo país.

O que pensa de proibição do uso público do véu islâmico em países europeus?
Para mim, tanto a burca quanto o niqab representam uma forma de opressão.

A revolução digital, com o Kindle ou os iPads, pode ameaçar a ato da leitura e os direitos autorais?
Ainda não entendemos claramente como funcionará. Há gente que diz que aumentará o número de pessoas que leem livros, pela facilidade de baixar uma obra sem usar uma livraria virtual.
O que dá para saber é que haverá um número cada vez maior de componentes digitais envolvidos na produção, publicação e venda. Isso baixará os custos dos livros _o que é um grande argumento em favor dessa revolução.

O que "O Príncipe", de Maquiavel, tem a ensinar hoje?
Maquiavel foi entendido de forma errada pela história e passou, ele próprio, a ser visto como alguém maquiavélico. Seu livro é considerado um manual para tiranos, mas, na verdade, é uma notável parábola sobre como o poder corrompe.

O sr. espera receber o Nobel?
[risos] Claro que é um prazer ver a obra reconhecida, mas ninguém deveria esperar receber prêmio nenhum!

Como vê a "fatwa" hoje?
É algo de que trato no livro de memórias que estou escrevendo neste momento. Portanto, será algo que você terá que esperar para saber.

LUKA E O FOGO DA VIDA
AUTOR: Salman Rushdie
TRADUÇÃO: José Rubens Siqueira
EDITORA: Companhia das Letras
QUANTO: R$ 33 (208 págs.)
AVALIAÇÃO: bom

 

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