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02/09/2010 - 07h32

Angolanos que estarão na Bienal de São Paulo propõem nova imagem da África

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DE SÃO PAULO

Uma enorme barragem bloqueia a vista da baía de Luanda. Tratores estão aterrando o mar para alargar uma avenida da cidade. Lufadas de pó vermelho sublinham a cacofonia de britadeiras, guindastes e apitos.

Empreiteiras derrubam o que sobrou da era colonial, esqueletos de prédios e casarões retalhados por décadas de guerra, para erguer uma nova capital angolana. São torres que formam outra paisagem, espécie de Dubai africana, movida a petrodólares.

Nesse cenário, artistas angolanos tentam digerir o passado sem saber imaginar um futuro. Chamam de "afro-futurismo" a estética que surge do descompasso entre o fim das guerras e a reconstrução.

Divulgação
Tríptico do artista angolano Kiluanji Kia Henda, escalado para a Trienal de Luanda e para a Bienal de São Paulo, que mostra imagem de um militar de Luanda treinado pelos russos
Tríptico do artista angolano Kiluanji Kia Henda, escalado para a Trienal de Luanda e para a Bienal de São Paulo

"É ficção científica feita na África por africanos", resume Kiluanji Kia Henda, artista angolano que expõe na Trienal de Luanda, mostra que começa em duas semanas, e também na próxima Bienal de São Paulo. "Vou contra esses estereótipos de um continente do passado."

Difícil imaginar ficção científica num país onde água tratada e energia elétrica ainda são coisas de elite. Menos ainda uma mostra de arte contemporânea com a ambição do festival que começa agora, com Kia Henda entre seus artistas de ponta.

Mas sua obra parece abraçar essas contradições. Transforma a herança do domínio português e resquícios da presença russa no país em fábula de conquista espacial, em que Angola leva o primeiro homem ao Sol, batendo a viagem sessentista à Lua.

Na maquete que montou para a Bienal, o mausoléu construtivista onde está o corpo de Agostinho Neto, primeiro presidente do país, vira um foguete apontado para o astro no céu. Um cinema português abandonado, de formas modernistas, funciona como planetário bizarro.

"É a possibilidade de resgate de um passado recente, desbravar o choque entre capitalismo e comunismo", diz Nástio Mosquito, outro angolano escalado para a Bienal de São Paulo. "São as emoções orgânicas de um lugar não definido, onde você decide se quer ser um filho da puta ou um homem decente."

Mosquito ironiza essa dicotomia nos vídeos que faz. Contrapõe imagens de uma África pop traduzida por Hollywood à realidade dos conflitos de raça e domínio colonial vivida em Luanda.

"Somos consequência desse mundo moderno, contemporâneo", afirma. "Mostro como identificam o exotismo no africano e como isso propagou a imagem do negro, do preto, do tribal, o que constrói todo o preconceito."

NOVA ESTÉTICA

Na ânsia de desbancar essa imagem enraizada da África, fotógrafos de Luanda buscam referências de fora, nos contornos da moda.

"Minha geração é a primeira pós-independência", diz Cláudio Rafael, fotógrafo que está na Trienal de Luanda. "Tem a obrigação moral de criar novos padrões estéticos, herdou esse peso."

Talvez por isso, Rafael nunca fotografa Luanda. Seus modelos são quase sempre brancos, posando em estúdios imaculados, que em nada lembram os becos e vielas encardidos de sua cidade.

O jornalista Silas Martí viajou a convite da Trienal de Luanda

 

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