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02/03/2011 - 18h47

Decisão sobre Emir Sader passou por Dilma

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DE BRASÍLIA

A decisão de não nomear o sociólogo Emir Sader para a Fundação Casa Rui Barbosa foi sacramentada durante reunião da presidente Dilma Rousseff com outros integrantes da cúpula do governo.

A desistência ocorreu após a Folha divulgar críticas de Sader à ministra da Cultura, Ana de Hollanda, inclusive chamando-a de "meio autista".

Rafael Andrade - 23.fev.2011/Folhapress
Em entrevista em seu apartamento, no bairro do Leblon, zona sul do Rio, o sociólogo chamou a ministra Ana de Hollanda de "meio autista"
Em entrevista em seu apartamento, no Leblon, zona sul do Rio, o sociólogo chamou Ana de Hollanda de "meio autista"

Na prática, a definição indica que a presidente arbitrou em favor da ministra justamente num momento em que ela é alvo de críticas de diversos setores ligados à cultura.

A própria Dilma já chegou a comentar com interlocutores que a ministra não está controlando oposições dentro do próprio ministério, e avaliou que ela precisa ser mais firme para evitar que esse tipo de "fogo amigo" a enfraqueça no cargo.

A nomeação de Emir Sader ainda não havia sido publicada no "Diário Oficial da União". A desistência abre uma fissura entre a ministra e alguns setores do PT, apoiadores do sociólogo.

Sader, aliás, foi integrante assíduo da campanha de Dilma Rousseff, e tinha lugar cativo nos debates promovidos por emissoras de TV durante os dois turnos da eleição como convidado do partido. Era, eventualmente, consultado pela cúpula petista.

ENTREVISTA

No último domingo, a Ilustríssima publicou reportagem (para assinantes) na qual ele se referiu à ministra Ana de Hollanda como "um pouco autista".

Sader falou ainda sobre o delicado tema dos cortes orçamentários, sem que a Folha tivesse feito perguntas a respeito. Emir Sader não pediu "off", recurso utilizado por jornalistas e fontes jornalísticas para passar informações importantes sem que seu nome seja identificado.

O sociólogo rebateu a reportagem em seu blog: "As referências, antes de tudo à Ministra da Cultura, mas também ao Gil e ao Caetano, apareceram de forma totalmente deturpada".

O tema dos cortes foi introduzido durante a exposição de seus planos para os seminários da Casa Rui: "Vamos ver com que ritmo a gente consegue organizar, né? Até porque vai ter corte de recursos...", disse Sader, para retomar, mais adiante: "Tem corte, o orçamento é menor, tem corte e tem dívidas. Desde março não se repassou nada aos Pontos de Cultura. Teve uma manifestação em Brasília. Está estourando na mão da Ana porque ela fica quieta, é meio autista".

Ouça trecho da entrevista:

áudio 1

PONTOS DE CULTURA

Na mesma passagem, Emir Sader qualifica o formato de convênio dos Pontos de Cultura, programa que é a menina dos olhos dos ministros Gilberto Gil e Juca Ferreira, como "um desastre", e se refere aos conveniados do Pontos, espalhados pelo Brasil, como "merdinhas". Os Pontos de Cultura em princípio não fazem parte do escopo de atuação da Casa de Rui Barbosa e também foram espontaneamente introduzidos na entrevista por Emir Sader.

A seu ver, o sistema de prestação de contas seria a causa da ausência de repasses que motivou as manifestações em Brasília: "O formato convênio foi um desastre. Porque convênio tem que ter prestação de contas. Uma empreiteira vai construir uma ponte. Agora um 'merdinha' que recebe R$ 15 mil não sei aonde, o cara não consegue prestar contas".

Emir Sader discorre ainda sobre os "grandes temas" que pretende levar para os seminários da casa, que foram objeto de críticas por parte de intelectuais, pela intenção de levar temas alheios à linha de pesquisa da casa e com viés governista.

Um desses seminários seria sobre propriedade intelectual, por ele chamado de "tema pendente": "Vamos aproveitar, já que [o debate] não foi ao Congresso". Trata-se de um assunto particularmente sensível na Casa de Rui Barbosa, uma vez que a instituição lida com a propriedade intelectual em sua materialidade (arquivos, esboços, diários, cartas, fotos etc.), muitas vezes às voltas com herdeiros idiossincráticos ou exigentes.

Cultura e políticas culturais eram outros temas que Sader pretendia abordar. Sem mencionar a produção do setor da Casa Rui responsável por políticas culturais, o sociólogo elogia a equipe montada pelo ministro Gilberto Gil no Ministério da Cultura e expõe novamente a sua concepção de que os intelectuais devem dar amparo teórico às políticas executadas pelo governo.

"É uma meninada boa", disse, "que com o Gil se meteu nisso de cabeça, e foi tropeçando, foi criando, é muito legal, uma geração nova, que tá mexendo com museu, com patrimônio, não sei que lá, e a universidade tem que ter o papel de dar os fundamentos teóricos".

 

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