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Emmanuel Carrère usa recursos do romance em tramas verídicas
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LENEIDE DUARTE-PLON
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA, DE PARIS
O último livro do autor, cineasta e roteirista francês Emmanuel Carrère, 54, "Outras Vidas que Não a Minha", foi um extraordinário sucesso de crítica e de vendas em seu país em 2009.
O tsunami que ele presenciou no Sri Lanka, em 2004, é um dos panos de fundo do livro, que ele não chama de romance. Os protagonistas são reais: dois juízes engajados na defesa de humildes superendividados e atingidos por tragédias pessoais.
O autor e narrador está na história, mas não como personagem central, como em "Um Romance Russo".
Em julho, Carrère estará na Festa Literária Internacional de Paraty, em sua terceira viagem ao Brasil.
Além dele, a França será representada no evento por Claude Lanzmann e Michel Houellebecq, ganhador do prêmio Goncourt de 2010 por "O Mapa e o Território" --que será lançado no Brasil neste ano pela Record.
| Boris Svartzman/Folhapress | ||
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| O escritor, cineasta e roteirista francês Emmanuel Carrère, que participará da Feira Literária de Paraty neste ano |
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Folha - Michel Houellebecq também irá a Paraty. Você disse que fica "impressionado" "pela visão que ele tem do mundo, do momento de civilização que vivemos". Por que ele é interessante?
Emmanuel Carrère - Ele é realmente um dos maiores romancistas atuais. Tem uma grande capacidade de observação, um enorme talento romanesco, que é também o talento de fazer com que as pessoas queiram ler, virar a página, com uma verdadeira reflexão sobre o mundo atual.
*Por que escreve romances?
Não escrevo romances. Os livros que faço não são romances há muitos anos. Escrevi o último em 1995.
Meus livros atualmente são escritos de forma romanesca, mas parte da definição de um romance é que seja uma história inventada.
Seriam uma mistura de reportagem e romance?
Há criação romanesca, mas não na forma de imaginação. O que é contado nos meus livros é verídico.
De fato, nas regras da reportagem ou do jornalismo, tem-se um contrato com o leitor que assegura que o que é narrado é verdadeiro. Por outro lado, a organização, a forma da narrativa, é absolutamente romanesca.
Tenho a impressão de utilizar todos os recursos do romance com um material que não é imaginário.
Folha - O sr. estava escrevendo sobre a Rússia, sobre o escritor Eduard Limonov. É a história recente do país que lhe interessa?
Acabo de terminar esse livro, que se chama "Limonov". Trata do fim do comunismo e do pós-comunismo. Limonov está com quase 70 anos, sua história vai da Batalha de Stalingrado até os dias de hoje.
Por que o escolheu como personagem central?
Ele é, ao mesmo tempo, um aventureiro e alguém cuja vida me permite contar 50 anos de história de maneira muito... Como dizer? É mais ou menos como se ele estivesse sempre lá, onde coisas estranhas aconteciam na história contemporânea. Desse ponto de vista, acho que é um bom herói romanesco.
O livro é uma espécie de biografia autorizada?
Não, acho que ele não vai gostar. Penso que, em geral, as pessoas não gostam quando alguém conta suas vidas. Tenho uma interpretação com a qual ele não vai concordar. Na realidade, não é uma biografia, apenas conta sua vida.
Biografias são limitadas?
O livro sobre Limonov é uma biografia no mesmo sentido em que "Outras Vidas que Não a Minha" é uma biografia dos dois juízes. No mesmo sentido em que "O Adversário" é uma biografia de Jean-Claude Romand.
Isso não corresponde exatamente ao que se chama uma biografia. Mas, ao mesmo tempo, literalmente pode-se dizer que é uma biografia porque é a narrativa da vida de uma pessoa.
O sr. é roteirista, escritor, dirigiu um documentário e um filme. Qual a atividade mais importante em sua vida?
Escrever livros é a atividade na qual penso que me saio melhor. É a que me dá mais satisfação. Mas é uma grande sorte poder escrever roteiros e fazer filmes.
Escrever livros é uma atividade muito solitária, exigente, que pode ser gratificante, mas angustiante. Nesse aspecto, é bom poder parar e fazer outra coisa.
O sr. pensa em continuar a exercer as três atividades?
Comecei a trabalhar para uma série de televisão para o Canal Plus. Uma história fantástica, sobrenatural, e talvez eu dirija alguns episódios. Ainda está em fase embrionária, mas é muito excitante.
O sr. disse que "Outras Vidas" não é autoficção porque é 100% verdadeiro.
E, além disso, não é tão autobiográfico. "Um Romance Russo" é um livro no qual eu era o narrador e o personagem principal, enquanto nesse eu não sou o centro.
"Um Romance Russo" é um livro de autoficção? Existe o que se chama na França de autoficção?
Essa palavra me incomoda, não acho que seja feliz, mas, ao mesmo tempo, me interesso pelo que se chama autoficção. No fundo, acho que seja uma moda literária.
Seria uma forma de narcisismo dos autores, uma forma de falar deles mesmos em seus romances?
O que me espanta é que se apresente como moda algo que é mais antigo que o romance. As pessoas sempre foram levadas a escrever suas vidas. O romance é um gênero muito mais especializado, recente, como a tragédia em cinco atos, como o soneto, uma coisa particular.
Acho estranho chamar de autoficção o que é parte da literatura autobiográfica. Gosto da literatura autobiográfica de maneira geral.
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