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Manguel e Sarlo brigam com editora britânica de apps infantis
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JOSÉLIA AGUIAR
ENVIADA ESPECIAL A PASSO FUNDO
A formação de leitores era o principal tema do debate da tarde desta sexta-feira na 14ª Jornada de Passo Fundo.
Subiram ao palco, diante de uma plateia bem mais vazia, alguns dos convidados estrangeiros mais esperados: os ensaístas Alberto Manguel, conhecido por antologias e livros sobre a leitura, e Beatriz Sarlo, crítica política e cultural. Outra convidada do exterior era Kate Wilson, que há mais de 20 anos faz livros infantis, primeiro para grupos editoriais de grande porte, agora com sua própria empresa, a Nosy Crow, criada ano passado.
A conversa transcorreu tranquilamente em dois terços do tempo. Manguel discorreu sobre o que significavam leitura e leitor; Sarlo contou episódios de sua formação como leitora, no tempo da escola. Ambos enfatizaram a importância da escola na formação de leitores.
A briga começou quando Kate Wilson, depois de uma apresentação sobre como tem crescido o uso de computadores entre crianças e jovens, exibiu uma das criações de sua Nosy Crow: um app (diminutivo de aplicativo) com a história de Cinderela que inclui música, personagens que dançam, trocam de roupa e repetem frases diferentes conforme a interação do leitor. A plateia aplaudiu.
Foi quando Manguel, elogiado sempre pela gentileza, pediu a palavra para fazer um discurso áspero. Chamou a editora de "comerciante"; disse que livro "não é um produto de consumo"; afirmou que o app apresentado iria "deformar" o leitor, e não formá-lo; enfatizou que aprender a ler era coisa muito diferente.
"Não me importo se computadores são usados para sexo virtual. Mas me importo se querem fazer com que as crianças aprendam a ler com eles", afirmou Manguel.
Atônita, na outra ponta do palco, Kate Wilson pediu a palavra para dizer que não falava espanhol, mas podia compreender muito bem o idioma que Manguel falava. Disse que existia diferença entre "literatura e letramento" e que o app, embora não fosse literatura, incentivava o letramento. "Não me importo o que eles leiam, desde que aprendam a gostar de ler".
Manguel tentou retrucar, Kate cortou: "Me deixe falar", ela disse "Isso não vai fazer as crianças gostarem de ler!", insistiu o ensaísta. "Quem é o senhor para dizer isso?", ela rebateu. "Alguém que criou três filhos que hoje gostam de ler", disse. "A pior coisa será se elas pararem de ler o que quer que seja", insistiu a editora. E em seguida recitou a primeira estrofe de "O Tigre", de William Blake, para mostrar que entendia de literatura -muito antes, Sarlo contara que foi com esse poema que ela teve, ainda menina, uma das grandes experiências de sua vida como leitora. Kate estava vermelha e era tranquilizada por dois tradutores, o que já estava no palco e uma outra, que subiu para ajudar.
Sarlo pediu então a palavra. Disse que faria uma crítica do "app" como de uma obra qualquer; e que nem entraria no mérito do tema defendido por ela, o do uso de apps para formar leitores.
Calma, mas firme, Sarlo começou: "Sua obra é esteticamente atrasada. Abusa do kitsch". E prosseguiu: "Quanto ao conteúdo, é a-histórico e anacrônico, pois, entre outras coisas, mistura trilhas musicais de épocas diferentes, formando leitores amnésicos, sem conhecimento histórico".
O clima só começou a amainar quando pediram a palavra outros dois integrantes do debate, Fabiano dos Santos, doutor em Educação e atual diretor do Livro, Leitura e Literatura no MinC, e o poeta Affonso Romano de Sant`Anna. A conversa prosseguiu, com perguntas da plateia para cada um dos convidados, que continuaram a divergir, mas sem mais se exaltarem.
Kate Wilson conversa com o público de São Paulo neste sábado (27) no Sesc Belenzinho, às 18h30.
Josélia Aguiar viajou a convite da 14a Jornada de Passo Fundo.
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