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19/09/2011 - 07h30

Linguagem de "Angústia" traduz personagem à altura de si mesmo

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MANUEL DA COSTA PINTO
COLUNISTA DA FOLHA

O enredo de "Angústia" é simples: o narrador, Luís da Silva, é um funcionário público que, após sofrer frustração amorosa, compõe um catálogo de ódios, culminando no assassinato do rival Julião Tavares, figura que condensa seu sentimento de aversão pelo burguês de fala empolada, que a todos ludibria e explora.

A articulação narrativa, porém, teve efeito perturbador não apenas na literatura brasileira, mas na própria recepção crítica do escritor. Com suas frases encadeadas em solilóquio raivoso, mas controladas por uma espécie de razão analítica, que vai dissecando cada acontecimento ou personagem para justificar o impulso destrutivo de seu protagonista, "Angústia" se desvia da obra anterior de Graciliano Ramos pela densidade psicológica e por uma escrita na qual o próprio autor (em carta ao crítico Antonio Candido) identificou "muita repetição desnecessária, um divagar maluco em torno de coisinhas bestas, desequilíbrio, excessiva gordura".

A edição comemorativa dos 75 anos de publicação do livro traz ao final uma "Fortuna Crítica" que traduz o espanto e o lento processo de assimilação do romance. Resenhas e ensaios publicados no calor da hora, logo após o lançamento de "Angústia", esboçam paralelos entre Graciliano e autores como Dostoiévski, Thomas Hardy, Julien Green ou, de maneira geral, o existencialismo.

São avaliações ao mesmo tempo elogiosas e perplexas, que procuram conectar o rancor de Luís da Silva à crítica social do romance anterior, "São Bernardo", e às ações públicas do comunista Graciliano Ramos, que seria preso pelo regime de Vargas logo depois de concluir "Angústia".

A melhor apreciação do conjunto da obra de Graciliano --"Ficção e Confissão", de Antonio Candido-não caberia nessa fortuna crítica, devido à extensão de seus quatro ensaios, mas é citado na apresentação de Elizabeth Ramos, neta do escritor (infelizmente, as referências bibliográficas, ao final do volume, não fazem menção à mais recente edição do livro, pela editora Ouro sobre Azul).

Assim, entre textos de Jorge Amado e Álvaro Lins, o ensaio mais agudo é o de Otto Maria Carpeaux, que identifica em seu meticuloso processo de supressão estilística (a linguagem pétrea, anti-retórica, de Graciliano) uma atitude ética de dissolver o mundo, de reduzi-lo a suas misérias e, assim, revogar a Criação.

O texto de Marcelo Coelho compartilha dessa visão, ao enxergar em Graciliano "uma obra de recusa, de negatividade", cujas ironias em relação ao beletrismo brasileiro ultrapassam a mera opção estética para dar forma a uma consciência determinista que impediu o autor de acreditar no elixir do progresso, de depositar nos humilhados e ofendidos a promessa de um bem social futuro: seu pessimismo era mais forte do que suas convicções ideológicas.

Marcelo Coelho, porém, considera "Angústia" um livro ruim, cujo "estilo pastoso", saturado de "blá-blá-blá existencial", preenche o intervalo entre as rememorações do narrador e seus apelos aos sertanejos distanciados da cidade.

Essa avaliação severa diz muito a respeito do livro: de fato, Luís da Silva é um sertanejo deformado, descendente de um fazendeiro falido; sua transformação em burocrata sem lugar social (nem proprietário, nem proletário) faz dele o tipo de herói problemático característico do romance filosófico de Sartre, um Roquentin provinciano (mas sem as veleidades metafísicas do protagonista de "A Náusea").

Resta ao anti-herói de Graciliano uma consciência de classe "gauche" --no duplo sentido do termo: Luís da Silva tem furores de um esquerdista, mas, na falta da ambições intelectuais, remói seus ódios num discurso torto, crispado, que sucumbe a alucinações corporais (a repugnância com que descreve o corpo adiposo do rival, farejando safadezas em sua relação com Marina, a mulher que desencadeia um ciúme homicida).

Como personagem social ou de romance psicológico, Luís da Silva é um pseudointelectual maníaco que, após cometer um assassinato, na expectativa da prisão iminente, imagina, em frases ditadas por pulsões, o livro que escreverá na prisão. Ocorre que esse livro é "Angústia", permitindo leituras que iluminam o caráter metalingüístico de um escritor aparentemente avesso a formalismos.

Em "Caetés", o protagonista escreve um romance sobre os índios caetés que é um espelho irônico da trama de adultério em que está metido. E "São Bernardo" é a crônica de um latifundiário que mobiliza apaniguados para escrever suas memórias, mas cuja índole totalitária impede de transferir a outrem a tarefa de retraçar sua história de opressor culpado.

Nesses dois livros, há um incômodo descompasso entre a intenção dos protagonistas e a realização literária: João Valério ("Caetés") e Paulo Honório ("São Bernardo") são seres rústicos, toscos, criando uma defasagem entre o livro que pretendem escrever e o livro em que estão contidos. Em "Angústia", ao contrário, Graciliano Ramos conseguiu criar uma personagem à altura de si mesmo.

Por isso, José Castello, em outro belo ensaio da edição comemorativa, chega a afirmar que Julião Tavares, mais do que o rival de Luís da Silva, é o objeto desse espanto da literatura diante do mundo, que converte personagens e enredos em sublimações, na materialização de obsessões que é preciso perseguir e assassinar, na consciência de que cada destruição dará lugar ao vazio a ser preenchido por novos personagens e enredos.

 

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