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03/10/2011 - 16h29

Documentário "Rádio Nacional" é dedicado a demitidos pela ditadura

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GUSTAVO ALVES
DO RIO

"Rádio Nacional", documentário de Paulo Roscio sobre a emissora que foi o primeiro meio de comunicação de massa do Brasil a fazer jus ao nome, não dedura quem é acusado de dedurar.

O filme de 79 minutos é dedicado aos 66 funcionários demitidos depois do golpe militar de 1964. Não trata, porém, do papel de César de Alencar, radialista apontado por colegas como responsável por entregar à ditadura os nomes dos profissionais que deveriam ser mandados embora por "subversão".

"Será que foi só ele?", perguntou Roscio na pré-estreia do documentário, no Cine Odeon, no centro do Rio. "Acho que não".

Acervo/Família Tapajós
Emilinha Borba e Paulo Gracindo em cena do documentário "Rádio Nacional"
Emilinha Borba e Paulo Gracindo em cena do documentário "Rádio Nacional"

Para Roscio, o expurgo na rádio foi uma maneira de os militares mostrarem que o golpe "era para valer".

"Acho que não é justo botar na conta de uma pessoa só", disse o diretor, para justificar porque poupou Alencar. "Não dá para um homem só fazer isso", opinou.

"Foi ele sim", rebateu o radioator Gerdal dos Santos, 82, o mais antigo funcionário da rádio, que também foi demitido em 1964. "Foi um grande radialista, mas nos denunciou", insistiu, na noite da pré-estreia. Alencar morreu em 1990, aos 72 anos. A reportagem não encontrou parentes dele para comentar o caso.

Santos, que entrou na rádio em 1953, foi denunciado por pertencer ao PCB (Partido Comunista Brasileiro). Voltou à rádio em 1980, depois da anistia do governo Figueiredo.

Hoje, apresenta dois programas ("Onde canta o sabiá", aos sábados, de 8h às 11h, e "Radio Memória", de 7h às 9h, aos domingos). "No fundo, não tenho mágoas".

Santos foi um dos entrevistados por Roscio, ao lado dos cantores Cauby Peixoto, de pesquisadores como Ricardo Cravo Albim, Rodrigo Faour e Sérgio Cabral, da apresentadora e atriz Daisy Lúcidi, ex-deputada e ex-vereadora ("A Rádio Nacional me deu três mandatos"), e de Roberto Carlos.

O "Rei" tem participação destacada no documentário, falando da importância da Nacional. Roberto Carlos foi questionado por Pery Ribeiro, na noite de pré-estreia.

"Passei minha infância na Rádio Nacional, me lancei na Rádio Nacional, e não me lembro de ter visto Roberto Carlos por lá", disse Ribeiro, filho de duas estrelas da era do Rádio, Dalva de Oliveira e Herivelto Martins.

Roberto Carlos conta, no filme, como se esforçou para se apresentar em um show de calouros da emissora.

Os shows eram parte de um tripé de programação que inspirou e até hoje influencia a programação dos canais de TV: música, humor e radionovelas. "Aprendemos muito com a Rádio Nacional", diz o ex-vice-presidente de Operações da Rede Globo José Bonifácio Sobrinho, o Boni.

O diretor do documentário afirma que, no seu auge, a Rádio Nacional foi mais influente que a Rede Globo. Um concurso feito para escolher o melhor jogador de futebol do Brasil, em 1951, é um exemplo dado por ele no filme para provar seu argumento.

Como conta Sérgio Cabral em "Rádio Nacional", o concurso era patrocinado pelo remédio Melhoral, e os votos deveriam ser enviados com uma embalagem do medicamento.

O concurso teve de ser encerrado antes do prazo, porque faltou Melhoral: o laboratório que produzia o medicamento não conseguiu suprir a demanda.

Ademir Menezes, artilheiro da Copa do Mundo de 1950, foi eleito com 8 milhões de votos. Foi a maior votação que um brasileiro recebeu, até a eleição de Jânio Quadros, em 1961.

O filme já está em cartaz no Rio e estreia nesta segunda-feira em São Paulo, no CineSesc.

 

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