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05/10/2011 - 21h06

"Melancolia" valeu um prêmio a Kirsten Dunst e a mergulhou em uma controvérsia

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XAN BROOKS
DO GUARDIAN

"Melancolia" começa com um casamento e termina com um funeral. Na verdade, o novo filme do provocador dinamarquês Lars von Trier termina com o apocalipse --um funeral para todo o mundo, quando um planeta imenso surge no horizonte próximo, iluminando o gramado e fazendo os pássaros tagarelarem. Quando assistiu ao filme no festival de Cannes deste ano, Kirsten Dunst ficou surpresa ao descobrir-se gargalhando, como se o final fosse feliz. "Há algo de positivo a ser dito sobre o final do mundo", ela explica. "Isso resolve um monte de problemas."

Estamos tomando café no subsolo de um hotel londrino, com flocos de neve bordados no papel de parede e um veranico lá fora. A atriz está vestida como se fosse sair para uma balada --vestido preto transparente, pulseira balançante de prata--, apesar de ser o meio da manhã e ela ainda não ter tomado café. Ela confessa que não consegue parar de olhar os flocos de neve; seus olhos ficam parados, sua cabeça se afasta do aqui e agora. Na hora do almoço ela vai embarcar num vôo de volta a Nova York, onde vive, e então ela terá tempo livre pelo resto do ano. A impressão que ela dá é que não vê a hora de deixar 2011 no passado.

Com certeza "Melancolia" foi um momento tórrido para sua estrela de 29 anos: uma típica montanha-russa de Von Trier, em que o triunfo glorioso está lado a lado com o desastre nem um pouco cômico. No lado positivo da moeda está a atuação de Dunst, um papel que está a mundos de distância das bobagenzinhas de estúdio que vêm consumindo suas energias demais nos últimos tempos. Ela representa Justine, a brilhante heroína maníaco-depressiva, que passa cambaleando por uma cerimônia de casamento deprimente e então, tarde demais, se encontra quando o dia do julgamento final é iminente. É uma performance devastadora e que lhe deu um merecido prêmio de melhor atriz em Cannes.

Apesar disso, o filme correu o risco de perder destaque para a entrevista coletiva à imprensa que se seguiu a sua exibição. Brincando com uma pergunta sobre suas origens alemãs e seu interesse na "estética nazista", Von Trier respondeu que era nazista e "entendia Hitler". Em questão de horas a história tinha ganhado vida viral, levando os organizadores de Cannes a expulsar Von Trier da Croisette. A imagem que definiu o festival deste ano pode ter sido a de Kirsten Dunst, chocada, ao lado do diretor, segurando a própria garganta em um gesto de angústia.

Divulgação
Kirsten Dunst em cena de "Melancolia", de Lars von Trier
Kirsten Dunst em cena de "Melancolia", de Lars von Trier

Ela estremece quando se lembra daquele momento. "Bem, sim, dava para ver meu rosto. Eu estava sufocando, porque estava vendo um amigo tendo um derretimento. O que ele está dizendo é horrendo, numa sala cheia de jornalistas. Fizeram a ele uma pergunta inapropriada (sobre sua família), e ele respondeu com uma brincadeira. Mas ninguém riu, e ele continuou a degringolar."

Na ótica dela, o incidente foi uma tempestade perfeita de elementos instáveis, e ela foi pega no meio de tudo isso. Dunst culpa a jornalista, a crítica de cinema britânica Kate Muir, que abriu as comportas --e culpou as próprias comportas por se abrirem tão facilmente ("Lars sempre gosta de agitar as coisas"). Mas ela parece também estar irritada com seus colegas de elenco, que simplesmente ficaram sentados, sem nada fazer. "É isso o que eu não entendo. Éramos muitos sentados ali. Stellan (Skarsgard), John (Hurt), Charlotte (Gainsbourg). E ninguém disse nada. Ninguém quis ajudar. Eu fui a única a chegar perto de Lars e fazer com que ele parasse." Ela revira os olhos. "E, é claro, sou a única pessoa que as pessoas adorariam a puxar para dentro daquela situação. Elas adorariam me encher o saco."

Por quê? Porque ela é uma estrela de Hollywood? "Isso mesmo. Assim, eu virei a história. 'Olhem só a reação de Kirsten!'."

Esse deve ser um risco que enfrenta qualquer ator famoso que trabalha com Von Trier. O homem tem fama de colocar seus atores em posições comprometedoras, na tela e fora dela --e, quando a atriz em questão é a namoradinha americana de "Homem Aranha", "Teenagers - As Apimentadas" e "O Sorriso de Monalisa", isso só torna a coisa ainda mais interessante. Digo a Dunst que quero ler para ela uma frase publicada no "Guardian" do dia. É de uma entrevista com Paul Bettany, que trabalhou com Dunst na comédia romântica "Wimbledon - O Jogo do Amor", mas que também teve um papel importante em "Dogville", de Von Trier, em 2003.

"Eu sei", Dunst me interrompe no meio de um gole. "Eu amo Paul, mas sei que ele odeia Lars." A frase citada pelo jornal sugere que fazer "Dogville" foi um pesadelo. Von Trier, diz Bettany, não tem interesse em deixar que o ator seja parte do processo. Os atores não passam de marionetes dele.

"Uau", fala Kirsten Dunst. "Eles devem realmente ter se odiado". Ela insiste que sua experiência não foi nada assim. "Eu já me senti uma marionete em filmes, já me senti realmente frustrada e com raiva. Bem, talvez Lars se enxergue como um manipulador mestre, mas não é essa a impressão que ele passa. Afinal, a maioria das cenas foi improvisada e ele nem sequer fala muita coisa. De que maneira isso faz de mim uma marionete dele?"

Veja bem, diz Dunst: ela concordou em fazer "Melancolia" porque adorou o roteiro. Não é como se Von Trier lhe tivesse pedido para fazer "Anticristo", o filme anterior dele, em que Charlotte Gainsbourg representou uma mãe que perde seu filho e mutila seus próprios genitais. "Esse tipo de filme é mais difícil de ser feito por alguém como eu. Eu vivo mais sob o olhar do público do que Charlotte." Dunst faz uma pausa para reconsiderar. "Também tem algo a ver com o corpo de Charlotte. Não daria para ter alguém como eu, com seios grandes, naquele filme. Charlotte é magra e os seios dela são pequenos. É mais fácil de assistir, de alguma maneira. Se alguém como eu fizesse aquele filme, seria ridiculamente chocante."

Ou seria chocante porque nossa visão de Kirsten Dunst é condicionada em parte por todas as encarnações anteriores dela? Afinal, ela é estrela de Hollywood desde sua infância. Fez sua estreia no cinema aos oito anos de idade, contracenando com Woody Allen em "Contos de Nova York", e depois apareceu como filha de Tom Hanks na adaptação feita em 1990 de "A Fogueira das Vaidades". Mas sua grande chance se deu alguns anos mais tarde, em "Entrevista com o Vampiro". Em seu papel de Claudia, a vampira com cachos adoráveis e olhos intensos, ela roubou a cena de Tom Cruise e Brad Pitt.

Ela recorda que foi divertido fazer esse filme. "Não me parecia trabalho, com certeza. Brad e Tom me tratavam como a irmãzinha deles, a princesinha. Mas acho que as crianças lidam com as coisas melhor que os adultos. Como adulta, você fica insegura. Você fica cansada, preocupada com sua aparência, preocupada com o que tudo quer dizer. Quando é criança você só pensa 'curto meu vestido. Vamos brincar!'." Dunst dá de ombros. "Além disso, eu não tinha nada a perder. As pessoas não vão fazer críticas arrasadoras a uma menina de 12 anos."

Desde então a vida ficou mais complicada, como não poderia deixar de ser. Em 2008, sofrendo de depressão, Dunst se internou por pouco tempo no centro Cirque Lodge, no Utah. De acordo com Von Trier, essa experiência foi crucial para sua interpretação de Justine, cuja aparência externa bem sucedida não passa de um verniz que esconde o núcleo de infelicidade profunda. "Ela é uma atriz e tanto", disse o diretor. "É muito mais nuançada do que eu pensava, e tem a vantagem de ter tido uma depressão, ela própria. Todas as pessoas de bom senso já tiveram."

Dunst procura o café. Sim, admite. Mas é difícil para ela conversar sobre isso. Por outro lado, ela não quer que a depressão seja vista como um estigma, algo a ser escondido na sombra. E, por outro lado, é uma coisa particular. "Não me sinto à vontade em falar sobre isso, nem mesmo com pessoas que conheço."

Para os observadores casuais, Kirsten Dunst é alguém que parece ter tudo. Então o estigma é diferente quando afeta uma estrela de Hollywood? É pior? "É algo pelo qual passam seres humanos, independentemente de quem são. E, sim, tenho um bom trabalho, e as pessoas me retratam como tendo um certo estilo de vida. Mas tenho a cabeça no lugar. Sustento minha família e sou cuidadosa com meu dinheiro. Tenho um apartamento em Nova York, um apartamento de um quarto." Ela mexe em sua pulseira. "Esta é emprestada." Mexe com seu vestido. "É emprestado. Não vivo uma vida maluca, cheia de carrões e joias." Ela contempla os flocos de neve. "Mas acho que nos afastamos do assunto. A depressão pode acontecer com qualquer pessoa, é claro. E é diferente para cada uma. Mas acho que estou apenas tentando desviar a conversa."

O tempo acabou. Kirsten Dunst está pronta para voar para casa e fugir de vez da órbita de "Melancolia". Há outro trabalho que a aguarda em janeiro, mas até então ela estará livre. Ela quer ler; ela gostaria de escrever. Em algum momento, gostaria de começar a produzir. Pelos próximos três meses, porém, sua prioridade é ficar em casa. "Vou relaxar com minha família. Pretendo ficar com minha mãe e minha avó. E minha prima também está morando lá no momento. Então, basicamente, são várias mulheres em casa, ficamos sentadas assistindo a 'Jeopardy'." Ainda vivendo perigosamente, então? "Com certeza", diz Dunst. "Nunca dá para se cansar de 'Jeopardy'."


Tradução de CLARA ALLAIN

 

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