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01/11/2011 - 08h40

Quando a carreira de um artista encalha no segundo álbum

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ROB FITZPATRICK
DO "GUARDIAN"

Em março de 2005, o Kaiser Chiefs lançou "Employment", seu primeiro álbum. Antes, a banda lançara um single, "Oh My God", que chegou ao sexto posto nas paradas e mereceu uma cover por Mark Ronson e Lily Allen, no disco de estreia de Ronson, "Version".

A revista de rock "NME" deu à canção o 36º lugar em sua lista de "hinos indies", algo que àquela altura talvez parecesse mais elogio que insulto. Outro single, "I Predict a Riot", saiu depois do álbum, e logo se tornou o hino da banda. O Kaiser Chiefs conquistou um troféu Ivor Novello pelo melhor álbum de 2006 e três prêmios Brit, no mesmo ano (melhor grupo britânico, melhor grupo de rock e revelação). "Employment" vendeu dois milhões de cópias, desde seu lançamento.

O álbum seguinte do grupo, "Yours Truly, Angry Mob", saiu em fevereiro de 2007, incluindo "Ruby", canção que chegou ao topo das paradas.

O disco vendeu 800 mil cópias, uma queda de 55%. Passados outros 18 meses, o grupo lançou "Off With Their Heads", seu terceiro álbum, que até o momento vendeu 200 mil cópias, 75% a menos que o segundo disco e 90% a menos que o primeiro. O quarto álbum, "The Future Is Medieval" foi lançado no site da banda, algumas semanas atrás. Ao sair em disco, chegou ao 10º lugar nas paradas e só ficou nelas por cinco semanas.

Divulgação
Integrantes da banda inglesa Klaxons, que vendeu apenas 30 mil unidades de seu segundo álbum
Integrantes da banda inglesa Klaxons, que vendeu apenas 30 mil unidades de seu segundo álbum

"É estranho pensar que 800 mil, ou mesmo 200 mil, cópias vendidas sejam um fracasso", diz um executivo do setor que pediu que seu nome não fosse mencionado. "Mas as vendas do Kaiser Chiefs os caracterizam como banda em queda, e é muito difícil escapar disso. Como tudo mais na vida, as pessoas gostam de aderir ao sucesso". Se o sucesso tem muitos pais, o fracasso é sempre órfão.

Um outro exemplo: "Rockferry", o álbum de estreia de Duffy, vendeu 2,2 milhões de cópias no Reino Unido, mas não foi apenas o colossal fiasco do comercial que ela estrelou para a Diet Coke em 2009 que causou queda de 90% nas vendas do seu trabalho seguinte, "Endlessly", lançado em 2010 com apenas 200 mil cópias vendidas.

"O caso de Duffy é interessante", diz um advogado que trabalha para o setor de música, "porque a história dela se aplica a muitos artistas. Entusiasmados com o sucesso, eles imediatamente questionam por que estão cedendo 6% de seus royalties, um terço dos direitos de licenciamento e 20% de comissão sobre seus cachês para outras pessoas? Acham que são gênios, que podem cuidar de tudo sem ajuda!"

(Duffy abandonou sua empresária, Jeanette Lee, da Rough Trade, e o produtor Bernard Butler, que tocou boa parte dos instrumentos e co-escreveu muitas das canções de "Rockferry".)

"Depois, quando fazem um disco horrível sem orientação de profissionais, ficam se perguntando por que tudo saiu errado", acrescentou o advogado.

E as coisas saem mesmo errado. O grupo Glasvegas estreou com um álbum que ganhou um disco de platina no Reino Unido, ou seja, vendeu mais de 300 mil cópias. O "NME" apostou que a banda definiria o final da década. Bono disse que "It's My Own Cheating Heart That Makes Me Cry" era uma das melhores canções que já tinha ouvido. Apesar dos elogios, "Euphoric Heartbreak", seu segundo esforço, que levou nove estrelas das 10 possíveis na classificação do "NME" (ou seja, foi um dos melhores álbuns de 2011 na opinião da revista) só vendeu 30 mil cópias desde seu lançamento, em abril -queda de 90%. A Columbia Records cancelou seu contrato com a banda semanas depois que o disco foi lançado.

Em outubro de 2007, quando o MGMT chegou com "Oracular Spectacular", seu álbum de estreia, o impacto bastou para gerar vendas da ordem de 500 mil cópias só no Reino Unido. A página do grupo na Wikipédia alardeia que o segundo álbum, "Congratulations", de 2010, vendeu 66 mil cópias na semana de lançamento ("a melhor semana de vendas que a banda já teve"). Mas o site não menciona que, nos 18 meses seguintes, o álbum vendeu apenas 11 mil cópias adicionais.

E há o caso do Klaxons, uma rave band indie que ganhou o prêmio Mercury e vendeu 350 mil cópias de "Myths of the Near Future". Lançado em 2007; o disco seguinte, "Surfing the Void", vendeu apenas 30 mil unidades, o que significa que 92% dos fãs iniciais do grupo decidiram que, pensando bem, já tinham todos os álbuns do Klaxon que queriam.

Qual é a sensação de passar por deserção dessa ordem? Como a pessoa se sente quando o telefone não toca mais? Nenhuma das bandas que mencionei acima quis conversar sobre o assunto, o que é compreensível: admitir um fracasso significa se condenar para sempre aos olhos da indústria da música.

"Bem, eu posso lhe dizer exatamente qual é a sensação", disse o executivo de uma gravadora. "É uma merda. Mas o segundo álbum de todas as bandas que contratei fracassou horrivelmente, e ninguém sabe o motivo. Ao assinar uma banda, a gravadora toda se anima, mas assim que as coisas começam a sair errado os sacanas todos correm de lá e só resta o executivo que os descobriu.

Às vezes, a banda mesma é a última a saber. Alguns meses atrás, o Hoosiers disse em entrevista à revista "Film and Music" que, inicialmente, todos eles estavam satisfeitos quando seu novo single, lançado depois de uma parada de dois anos, chegou ao 11º posto nas paradas. Até que perceberam a reação da gravadora. "Estávamos no 11º posto da parada e a caminho do 10º", conta o baterista Al Shanford, "e havia muita tensão com a gravadora. As pessoas diziam que seria muito mais fácil promover o single se ele estivesse no 10º posto, porque aí seria sucesso. Pura bobagem, e não deveria fazer diferença alguma. Mas aparentemente faz".

Mas será que as gravadoras se sentem tão mal quanto as bandas? "A verdade é que as gravadoras não ligam a mínima para o próximo disco, só querem arrancar a máxima grana possível do disco atual. Mas o setor é complexo, e por isso às vezes a coisa se inverte. Quando Paolo Nutini levou seu novo álbum à Warner (sua gravadora), sei que a reação de todo mundo por lá foi achar que era um lixo. Mas vendeu muito".

"Um fracasso pode servir como rito de passagem", disse Tony Wadsworth, presidente da EMI Music de 1998 a 2008. "A maldição do segundo álbum quase pegou o Blur, mas na verdade terminou por fortalecê-los. 'Modern Life is Rubbish' trouxe pesada queda de vendas. Tinham inventado um mundo novo, e as pessoas tiveram de ouvir 'Parklife' antes de entenderem o que a banda estava fazendo. Às vezes um grupo caminha muito adiante de sua audiência, e aí precisa ter a esperança de que os ouvintes não desistam".

Mas e se o grupo perder 90% de seu público? "É hora de parar e avaliar o que está fazendo", diz Wadsworth. "A banda precisa recomeçar, batalhar de novo, mas é crucial que acredite em seu processo criativo. Ninguém deveria colocar todas as suas melhores canções no álbum de estreia. Dylan e os Beatles sempre retinham alguma coisa. E também não se deve assustar as pessoas. No caso do Coldplay, cada disco vendeu mais que o precedente. Isso não é comum. A banda sempre progrediu, mas manteve a essência daquilo que é nas novas canções. Isso permitiu que mantivesse o apoio das rádios, o que é essencial".

"O rádio ainda é a resposta", disse Feargal Sharkey, ex-vocalista do Undertones e agora diretor da UK Music, uma associação setorial da indústria de música britânica. "Sem apoio das rádios, você roda. É possível se recuperar dessa situação, mas é preciso ter em mente que a nova novidade sempre entusiasma mais que a novidade da semana passada".

O cantor David Gray não tinha perspectiva de grande sucesso ao lançar "White Ladder", em 2000. Era o quarto disco de Gray, e a expectativa era de que vendesse da mesma forma modesta que os três precedentes. Mas uma onda de entusiasmo que nasceu com "Babylon", o segundo single do álbum, resultou em vendas de mais de sete milhões de cópias.

"O que me ajudou foi que eu já era músico há um bom tempo quando o sucesso chegou", ele disse, em entrevista por telefone da Itália, onde estava em férias com a família. "Por isso eu estava mais preparado. Mas o período posterior ao sucesso é sempre complicado. Se o seu disco não entra na lista da BBC, o impacto sobre as vendas é imenso. Quando a BBC decidiu incluir 'Babylon', o impacto foi imenso. Mas se você não cria um novo sucesso, termina de volta no Borderline -e depois de tocar no Hammersmith Apollo (um teatro de rock em Londres), isso pode ser bem deprimente".

Mas qual foi a ascensão do período de ascensão ao sucesso? "Ah, foi uma onda maravilhosa", ele diz, rindo. "Mas um sucesso dessa ordem desnorteia sua bússola. É pesado demais, abrangente demais, e você começa a pensar que é um presente de Deus ao mundo. Passei três anos em turnê com 'White Ladder', mas quando os festivais, o champanhe e os jatinhos desaparecem e a realidade ressurge, o choque é pesado".

Gray admite alegremente que suas vendas recentes ficaram "drasticamente menores". Se no passado ele vendia um milhão de cópias de um álbum, agora vende 200 mil. Seu mais recente trabalho, "Lost and Found", gravado ao vivo, teve lançamento digital exclusivo pelo site de compras coletivas Groupon. O serviço de cupons de descontos enviou um link para download do disco a meio milhão de assinantes -"nossos públicos aparentemente coincidem"-, e cerca de 1,5% deles baixaram a gravação.

"Isso significa entre cinco mil e 10 mil cópias", diz Gray. "Isso representa sucesso ou um horrível fracasso? Nos últimos anos, tenho trabalhado bastante nos Estados Unidos, e é muito difícil vender discos por lá. Os números se tornaram ridiculamente pequenos. As gravadoras estão de joelhos".

Gray sem dúvida está certo, mas o desejo insaciável de grandeza permanece, da parte das gravadoras. Adam, o filho de Leonard Cohen, já assinou mais contratos de gravação do que a maioria dos músicos. O primeiro, com a Sony em 1998, incluía adiantamento de US$ 300 mil sobre os direitos de licenciamento e foi cancelado dias mais tarde por um figurão que alegou não saber quem era Adam Cohen. "Like a Man", seu excelente álbum novo, saiu pela Cooking Vinyl no Reino Unido e pela EMI na América do Norte, uma gravadora que já o dispensou no passado.

"Ontem à noite fiz minha festa de lançamento", ele disse de Toronto, ao telefone. "As mesmas pessoas de sempre, os mesmos executivos apareceram para me prestigiar, como se nada tivesse acontecido. Mas é bom lembrar que as gravadoras podem ser criaturas insensíveis e nefandas".

Wadsworth, feliz por ter saído do jogo, oferece um último conselho a todos os interessados: "Chega uma hora em que todo mundo deixa de vender discos. Infelizmente, para algumas bandas isso acontece muito mais rápido".

Tradução de Paulo Migliacci

 

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