Publicidade

 

Publicidade

 

PUBLICIDADE

 
 
22/01/2012 - 08h00

Carla Caffé produz "sequência cinematográfica de edificações"

Publicidade

 

DE SÃO PAULO

O crítico de arte Agnaldo Farias produziu o texto abaixo para a exposição "Area Paulista" da artista Carla Caffé na Funarte São Paulo.

*

O que, afinal, recolhemos das cidades? Quais as sobras das experiências que temos delas, sobretudo das metrópoles, como São Paulo, esse conglomerado impossivelmente confuso, prédios gigantescos acotovelados uns aos outros formando muros imensos e truncados, responsáveis pelos canyons, abismos, gretas e fendas por onde, coleados aos seus pés, como um enxame de insetos rasteiros, deslizamos, roçando-nos, embaraçando-nos, agarrando-nos em fluxos desencontrados, cada qual indiferente ou desesperado, não importa, pois ninguém dá mesmo por isso, apenas um emaranhado de gente e máquina submerso em imagens, ruídos e na atmosfera densa, espessa de pó, variando do calor abafado às correntes geladas que no inverno soca-nos as caras?

Como sobreviver e o que reter dessa realidade, à triste chantagem dos miseráveis e malabaristas que loteiam os cruzamentos, aos engarrafamentos, aos ônibus e vagões rebentando de gente, senão desviando-se dela, preocupando-se com o compromisso de daqui a pouco ou simplesmente não pensando em nada, de pé ou sentado, deixando-se lentamente afundar sob o peso de um sono real ou inventado?

Mas a cidade, a verdadeira "obra de arte total", é também um espetáculo arrebatador, uma colisão de ritmos ordenados com outros que se dão ao acaso, e que se vai dando à medida em que nos deslocamos por ela, um filme do qual somos co-autores. Por isso é impossível não notá-la, melhor ainda quando gente, como Carla Caffé, dá-se ao trabalho de nos chamar a atenção para o que, dentro desse tudo, interessa.

Em "Area Paulista", Carla vai de uma ponta à outra da avenida Paulista, a trilha aberta ao longo da grande linha vertebral da cidade, de onde, à esquerda e à direita, descaem as encostas até se acomodarem em planaltos, compondo os vales por onde correm os dois principais rios que a atravessam. Da Bernadino de Campos à Praça dos Arcos, ela percorre anotando, registrando, examinando, esboçando, bosquejando, recortando, decupando, ou seja, empregando grande parte dos verbos que compreendem desenhar.

Vai representando excertos de construções notáveis por suas peculiaridades, arquiteturas e situações que, aqueles que vivem em São Paulo ou simplesmente vivenciaram essa avenida em algum tempo, percebem-lhes amadas, embora até esse momento a maioria não soubesse disso. A prova do afeto é que eles a reconhecerão de imediato e, como acontece, se reconhecerão nesse reconhecimento.

Mas, atenção, esses desenhos não interessam apenas aos paulistanos. Fosse isto não importariam a ninguém. Interessam porque, realizados a partir da avenida Paulista, uma sucessão de decalques obtidos por fricções do olhar e dos dedos empunhando lápis e pincéis, são muitas outras coisas. A começar pela constatação de que nossa memória expande-se e se materializa nos espaços que habitamos ou por onde frequentemente passamos. E como poderia ser diferente uma vez que dificilmente nos vemos ou, por outra, vemo-nos pelo lado de dentro? Vai daí que nos percebemos em relação ao que nos rodeia.

Somos, pois, constituídos pela idiossincrasia de cheiros e sons provenientes das ruas, do aroma insuportavelmente doce do vendedor de churros ao cheiro dos outros, quando estamos obrigados a promiscuidade das lotações; somos as buzinas, as sirenes, os alarmes, e também as conversas incessantes, em grupo ou solitárias, o prenúncio da chegada do próximo trem do metrô: o som surdo, que primeiramente se escuta pelas vísceras.

Somos o extrovertido dos anúncios luminosos, cartazes, o alácre digladiamento das revistas expostas nas bancas de jornal, desejando que as olhemos de perto, em contraponto com a regularidade imponente das fachadas e dos desenhos das calçadas. Estamos na retícula das caixilharias, nos revestimentos especulares, como os que levam vidro, nos nervos expostos das estruturas que suportam as coberturas, no cume dos prédios, pretendendo inventar formas de diálogo com o céu ao mesmo tempo que nos persuade a olhar para cima.

Organizados em pranchas verticais que, transpostas para livro organizam-se a partir de páginas sanfonadas, os desenhos de "Aerea Paulista" são compostos por uma mesma base contínua formada por faixas coloridas, semelhantes a um corte topográfico ou, como quer a arqueologia, ciência em tudo afeta a leitura que a artista faz da cidade, um corte revelador das camadas estratigráficas, do chão físico e histórico que suporta a avenida emblema da metrópole paulistana.

Físico e histórico porque o empilhamento de faixas coloridas ao passo que sugere as camadas geológicas, o tempo lento em contraste com efemeridade humana, trazem os nomes das ruas que foram sendo criadas na passagem dos séculos da existência da cidade, as toponímias de louvor a santos, homens históricos, mulheres genéricas, datas e signos pátrios, outras cidades paulistas - Santo Antonio, São Vicente, Joaquim Eugênio de Lima, Brigadeiro Luís Antônio, Adoniram Barbosa, Maestro Cardim, Silvia, Augusta, Angelica, Abolição, Liberdade, 9 de Julho, Rio Claro, Santos, Jaú, Itú - todas elas partindo das imediações do vale do Anhangabaú, a profunda raiz indígena da urbe.

Uma cidade é feita de natureza e história. E é desse chão variado que a artista, estudando a avenida símbolo da cidade, faz irromper uma sequência cinematográfica de edificações que também são florações encorpadas, arbóreas, densas ou diáfanas.

Desfilam aos nossos olhos edifícios como o Cacique, o primeiro da série, à entrada do Parque Trianon, passando por uma típica banca de jornal, uma vista do paredão grafitado do "Buraco", a passagem subterrânea de onde se acede à Rebouças e à Dr. Arnaldo; o surpreendente Masp com seus pilares exaltadamente vermelhos emoldurando um grupo das pinturas de seu acervo; a fachada orgulhosamente longitudinal do Nações Unidas, um bloco apoiado por dois conjuntos de pilares e encimado por uma laje perfurada por círculos de tamanhos diversos, sem outra função que não a ornamental; até mesmo uma vista, não da fachada do prédio, de resto uma arquitetura vulgar, dos interiores dos cinemas Gemini 1 e 2, hoje desaparecidos, mas que sobretudo quando da sua inauguração, encantaram o público com o colorido vivo e contrastante de suas poltronas, paredes e carpetes.

A análise técnica reconhecerá a qualidade do olhar de Carla Caffé sobre a arquitetura, não fosse ela arquiteta de formação, os recortes precisos, sublinhando a intenção dos autores das obras em presentear os habitantes. Mas o melhor corre por conta da dimensão poética do olhar da artista, expresso na leitura de uma casa romaticamente nomeada de "das Rosas", das rodopiantes mandalas que nascem dos arcos da estação Consolação do metrô, dos signos estridentes que se irradiam da torre do Casper Líbero, ele mesmo uma construção gráfica, um hachurado denso que traz em sua base um paredão onde uma a palavra "gazeta" se repete em relevo.

Carla Caffé capta com linhas e cores aquilo que o acaso construiu, o lance de dados produzidos pela urdidura de signos projetados ou não, as provas de uma beleza quase secreta e que ela consegue decifrar.

 

Sobre a Folha | Expediente | Fale Conosco | Mapa do Site | Ombudsman | Erramos | Atendimento ao Assinante
ClubeFolha | PubliFolha | Banco de Dados | Datafolha | FolhaPress | Treinamento | Folha Memória | Trabalhe na Folha | Publicidade

Publicidade

 

Publicidade

 

Publicidade