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17/02/2013 - 08h11

Empreguetes. Só que não

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PEDRO BUTCHER
ESPECIAL PARA A FOLHA

A novela "Cheias de Charme" ainda estava no ar, em setembro do ano passado, quando o Festival de Brasília exibiu o documentário "Doméstica", de Gabriel Mascaro, antítese absoluta da visão simpática e glamourosa da vida das empregadas domésticas pelo filtro da Globo.

Desde sua estreia em Brasília, "Doméstica" tem percorrido festivais internacionais (como o International Film Festival Documentary, em Amsterdã, na Holanda, considerado o mais importante dedicado ao gênero) e nacionais (o mais recente foi a Mostra de Tiradentes, em Minas, que sob a curadoria do crítico Cleber Eduardo se consolidou como centro nervoso da nova produção independente brasileira). Agora, o filme aguarda uma brecha no concorrido circuito de salas brasileiro, com lançamento previsto para o segundo semestre, com distribuição da Vitrine Filmes.

Matheus Cabral/TV Globo
Thais Araújo, Isabelle Dummont e Leandra Leal interpretaram as empreguetes da novela "Cheias de Charme"
Thais Araújo, Isabelle Dummont e Leandra Leal interpretaram as empreguetes da novela "Cheias de Charme"

"Doméstica" não mereceu prêmios do júri de Brasília, e talvez não seja difícil entender o porquê dessa primeira rejeição em solo materno. Como os outros filmes de Gabriel Mascaro --possivelmente o cineasta mais provocativo da nova geração pernambucana--, "Doméstica" tem um efeito altamente perturbador. Trata-se de um raro exemplar da recente produção cinematográfica brasileira capaz de mexer com as entranhas de quem o vê.

A característica mais forte dos trabalhos de Mascaro é uma recusa à tendência apaziguadora tão arraigada na nossa cultura. "Doméstica" é seu filme mais bem resolvido nesse sentido. Ao contrário, por exemplo, de seu documentário "Um Lugar ao Sol", ataque às elites feito de entrevistas-armadilhas com moradores de coberturas, a opção pelo confronto, em "Doméstica", não traz travos de ressentimento. O truque está no "dispositivo" encontrado pelo diretor para conduzir o filme.

Em vez de recorrer a recursos tradicionais do documentário como entrevistas e registros de cenas cotidianas, Mascaro preferiu sair de cena e entregar a câmera aos jovens filhos dos patrões, todos entre 15 e 17 anos, pedindo que eles registrassem suas empregadas durante uma semana. Entre as condições impostas estava a obrigatoriedade de registrar o momento da negociação da imagem.

Das dezenas de jovens que entregaram o material bruto à produção, sete, de cinco cidades diferentes --Recife, São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador e Manaus--, entraram na montagem final, todos com características muito diferentes entre si. Em uma segunda etapa, o material foi retomado pelo diretor e o montador (Eduardo Serrado), que construíram a narrativa do filme, uma coletânea de diários cinematográficos.

A multiplicidade dos retratados contempla o amplo espectro social do país. Vemos desde uma tradicional família de classe média alta até a empregada de uma empregada, moradora de uma favela. Vemos também o raríssimo caso de um homem que assumiu sem pudores a tarefa de empregado doméstico depois de ter sido abandonado pela mulher.

Cada episódio ilumina e destrincha aspectos das relações sociais, profissionais e afetivas no Brasil e revela, ainda, como eles se embaralham e se complicam. Mascaro faz questão de dizer que seu filme não é um documentário sociológico ou mesmo antropológico, mas etnográfico. Mas se o diretor foge como o diabo da cruz das visões universalistas e generalizantes --"Não fiz um filme sobre o Brasil", faz questão de dizer--, é difícil não enxergar nas histórias apresentadas pelo filme um tecido comum à sociedade brasileira e às transformações que ela vem sofrendo, estabelecendo diálogos com a leitura do "Brasil cordial" descrito por Sérgio Buarque de Hollanda em "Raízes do Brasil" e à permanência de características da sociedade escravocrata apontada por Gilberto Freyre em "Casa Grande e Senzala".

Evidentemente, é preciso entender esses autores dentro de suas próprias complexidades. A empregada que dorme na casa dos patrões, bem como a própria arquitetura das casas com seus "quartos de empregada", são uma continuidade evidente da sociedade escravocrata analisada por Freyre; as relações de afeto que se desenvolvem, principalmente entre os filhos dos patrões e as empregadas, são um retrato vivo do "Brasil cordial" de Sérgio Buarque de Hollanda, ou seja, aquele em que as relações passam, antes de tudo, pelo coração e pelo afeto, com todas as consequências perversas que esse tipo de primazia pode representar (no caso, ligações afetivas que muitas vezes escamoteiam relações profissionais altamente problemáticas).

PATRÃOZINHO

A maior riqueza do dispositivo do filme é colocar o "patrãozinho" em uma situação de poder que, nos documentários em geral, costuma estar nas mãos do documentarista. Mais interessante ainda é que os jovens estão justamente em uma fase em que começam a aparecer esses primeiros questionamentos. O fato de estarem munidos com uma câmera, observando de uma perspectiva diferente situações que lhe pareciam corriqueiras, provoca uma nova significação daquele olhar, e o despertar --ou não-- de uma nova consciência.

Dessa forma, a ética do documentário reflete a ética interior de cada família, e, sobretudo, daquele jovem. Ao mesmo tempo, da parte das empregadas, aceitar se tornar objeto de um filme pode significar tanto mais uma obrigação ou uma oportunidade de "se inventar" para a câmera --e, nesse sentido, "Doméstica" se alinha ao que seriam as novas grandes tendências do cinema documental, a chamada "autoficção" e o "cinema de performance".

Outro ótimo documentário pernambucano que recorreu a um dispositivo semelhante, ainda que com objetivos e resultados completamente diferentes, foi "Pacific", de Marcelo Pedroso (2009). Codiretor, com Gabriel Mascaro, de "KFZ 1348" (documentário que acompanha a "vida" de um fusca), e montador de "Um Lugar ao Sol", Pedroso editou "Pacific" a partir de um farto material colhido entre registros amadores feitos pelos tripulantes de um cruzeiro marítimo para Fernando de Noronha. O resultado é uma narrativa divertidíssima e ao mesmo tempo acidamente crítica a determinados aspectos da classe média emergente.

Mas se "Pacific" sofria com o amadorismo da imagem e do som característicos dos vídeos amadores --o barulho do vento batendo no microfone da câmera é uma constante--, um dos aspectos mais surpreendentes de "Doméstica" é a qualidade do material. São raros os momentos em que a câmera treme excessivamente e o áudio é incompreensível. Volta e meia, surgem até mesmo enquadramentos e movimentos de câmera muito interessantes, como, por exemplo, o jovem que coloca a câmera dentro de um armário da cozinha, ou outro que focaliza os detalhes de fotos espalhadas na parede de um quarto.

No debate que se seguiu à exibição do filme em Brasília, Mascaro esclareceu que não houve milagre. Assim que começou a receber os primeiros materiais (as filmagens foram feitas com a mesma câmera, separadamente), o diretor se apavorou. "Não vai ter filme", pensou. Eram horas e horas de registro preguiçoso em que pouca coisa poderia ser aproveitada. Antes de passar a câmera à segunda família, acrescentou ao equipamento um tripé e um microfone um pouco mais sofisticado, e pediu aos produtores que ensinassem seu manuseio básico aos jovens (Mascaro, pessoalmente, não teve qualquer contato com os personagens do filme).

A partir daí, o material se revelou bem mais interessante. "Doméstica" traz momentos antológicos, alguns realmente devastadores, como o relato da empregada que aceitou o pedido de sua patroa para abdicar das folgas e trabalhar seguidamente durante três meses para cuidar de uma pessoa doente, sem saber que aqueles seriam os últimos três meses de vida de seu próprio filho, que morreu assassinado. Ou a entrada em cena do empregado doméstico, que provocou autênticas revelações na plateia masculina de Brasília (um espectador confessou ter achado estranhíssimo ver a imagem de um homem lavando louça, dando-se conta de que, até aquele momento do filme, não havia achado estranhíssimo ver as mulheres lavando louça).

"Doméstica" tem humor e delicadeza, mas, também, um profundo efeito de denúncia. É revelador de toda a tensão que desponta desse tipo de relação tão característica do Brasil, entre o afeto e a exploração do trabalho, entre a cordialidade e a subordinação. Seu resultado é diametralmente oposto, por exemplo, ao de "Domésticas", o filme que Fernando Meirelles codirigiu com Nando Olival, lançado em 2001. Para além do "s" que distingue os títulos, as diferenças são abismais, pois ainda que "Domésticas" tenha um crivo crítico, continua sendo uma comédia suave e apaziguadora. Mascaro vai na carne da questão e a encara em toda sua complexidade.

Por fim, "Doméstica" deve ser percebido também como um documentário histórico, na medida em que registra um tipo de relação em plena transformação, que tende a se profissionalizar paralelamente às mudanças econômicas e sociais do país. O que faz do filme de Mascaro, como bem definiu certa vez o cineasta português Pedro Costa, o "registro de uma sensibilidade humana em um momento em que ela pode desaparecer".

 

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