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18/10/2011 - 16h50

"Fiz uma aposta e sobrevivi", diz escritor japonês

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EMMA BROCKES
DO "GUARDIAN"

"1Q84", o novo romance de Haruki Murakami, tem mil páginas de extensão e é publicado em três volumes. Levou três anos para ser escrito pelo autor, e, em uma viagem de 11 horas de Nova York a Honolulu, é possível ler mais ou menos metade do livro.

Murakami parece desanimado com essa notícia --razão entre o tempo levado para escrever e o tempo de leitura nunca é muito encorajadora para um escritor--mas, se existe algo que testa a capacidade de um romance de nos enlevar, é fazer sua leitura nos últimos assentos da classe econômica de um avião lotado, em um percurso de longa duração. Durante aquelas 11 horas você mergulha por completo no mundo de Murakami.

Estamos na suíte presidencial do hotel Hyatt em Waikiki, com vista para uma praia perfeita, de anúncio de turismo, emoldurada por montanhas. Murakami --que, aos 63 anos, ainda parece um skatista adolescente-- divide seu tempo entre suas casas no Havaí e no Japão e um terceiro lugar que ele chama de Lá.

É nesse terceiro lugar que ele desaparece todas as manhãs enquanto escreve seus livros --um lugar povoado pelo tipo de personagens que definem o estilo Murakami: enigmáticos, impassíveis, cheios de emoções grandiosas achatadas pela repressão e apresentadas com um desapego que, fato incomum para um romancista que vende milhões de cópias de seus livros, lhe conferiu um status cult. Antes de eu embarcar para o Havaí, um amigo confessa que seu entusiasmo por Murakami se baseia em parte em um desejo de ser o tipo de pessoa que gosta de Murakami.

"Não me vejo como artista", diz o autor mais de uma vez ao longo da entrevista. "Sou apenas um sujeito que sabe escrever. Yeah."

A atitude cool de Murakami foi propiciada por um passado pouco nerd comandando um bar de jazz, quando tinha 20 e poucos anos, e sua rotina igualmente pouco nerd de Ironman. Como ele detalhou recentemente em "Do que eu Falo Quando Falo de Corrida" (Alfaguara, trad. Cássio de Arantes Leite, 152 págs., R$ 31,90), Murakami se levanta às 4h na maioria das manhãs, escreve até o meio-dia, passa a tarde treinando para maratonas e vasculhando lojas de discos antigos e vai dormir, com sua mulher, às 21h. Como estilo de vida, é quase tão famoso quanto seus romances, e tem o ar limpo e fanático de uma correção da confusão que foi sua década dos 20 anos. É também o tipo de disciplina necessária para produzir mil páginas complicadas em três anos.

Marion Ettlinger/Divulgação
Haruki Murakami lança "1Q84" no final deste mês na Inglaterra
Haruki Murakami lança "1Q84" no final deste mês na Inglaterra

Para Murakami, que tem físico de um pequeno touro, é uma questão de força. "É algo físico. Para continuar escrevendo todos os dias por três anos, é preciso ser forte. É claro que você também precisa ser mentalmente forte. Mas, em primeiro lugar, precisa ser forte fisicamente. Isso é muito importante. Física e mentalmente, é preciso ser forte."

Quer seja um tique estilístico ou um efeito colateral da tradução do japonês ao inglês, seu hábito de repetição tem o efeito de fazer com que tudo o que Murakami fala soe infinitamente profundo. Ele já escreveu sobre a importância metafórica de seu correr --que completar uma ação todos os dias cria uma espécie de exemplo cármico para seu escrever.

"Sim", diz Murakami. "Mmmmmm." Ele faz um som longo e contemplativo. "Preciso de força porque tenho que abrir a porta." Ele imita o gesto de abrir uma porta pesada. "Todos os dias vou a minha sala de trabalho, sento diante de minha mesa e ligo o computador. Naquele momento, tenho que abrir a porta. É uma porta grande, pesada. É preciso entrar na Outra Sala. Metaforicamente, é claro. E precisa retornar para este lado da sala e fechar a porte. Portanto, é literalmente força física para abrir e fechar a porta. Se eu perco essa força, não posso mais escrever um romance. Posso escrever alguns contos, mas não um romance."

Há algo de medo a ser superado nessas ações, todas as manhãs?

"É apenas uma rotina", diz Murakami, e ri alto. "É um pouco tedioso. É uma rotina. Mas a rotina é tão importante."

Por que há caos no interior?

"Sim. Eu vou ao meu subconsciente. Tenho que entrar naquele caos. Mas o ato de ir e voltar é uma espécie de rotina. É preciso ser prático. Assim, toda vez eu digo que 'se você quer escrever um romance, precisa ser prático', as pessoas ficam entediadas. Elas se decepcionam." Ele ri novamente. "Elas esperam ouvir algo mais dinâmico, criativo, artístico. O que eu quero dizer é: você precisa ser prático."

Uma pessoa que se levanta tão cedo assim quase consegue viver duas vidas. É um tropo de Murakami, esta vida única dividida em duas, ou por meio de uma transformação radical de circunstâncias ou no abismo entre a vida exterior e interior de um eu dividido. Em seu novo romance, a heroína, Aomame --"Ervilhas", em japonês-- começa em tom realista, presa no trânsito em um táxi em uma via expressa elevada de Tóquio. É 1984, um gesto em direção a George Orwell. Para evitar se atrasar, ela sai do táxi e desce por uma escada de manutenção, não usada, até o nível do chão, onde se descobre em um mundo paralelo ao qual dá o nome de 1Q84.

Como uma parte tão grande da ficção de Murakami, o livro combina uma narrativa realista que prende a atenção do leitor com uma espécie de surrealismo maluco --relógios que levitam, cães que explodem, uma entidade chamada "Povinho" que emerge pela boca de uma cabra morta-- que visa fazer o leitor parar para pensar e indagar-se se não será tudo bobagem, dúvida essa que o autor incorpora ao romance.

"As pessoas são deixadas num lago de pontos de interrogação misteriosos", diz um editor a seu leitor principal, em "1Q84". "Os leitores tendem a interpretar essa ausência de esclarecimento como sinal de 'preguiça autoral'."

Ao quê o autor fictício responde: "Se um autor conseguisse escrever uma história 'composta de maneira excepcionalmente interessante', que 'carrega o leitor até o final', quem poderia tachar esse escritor de 'preguiçoso'?" "IQ84" vendeu 1 milhão de exemplares no Japão no primeiro mês depois de ser lançado.

SOBREVIVENTE

Alguns elementos do passado de Murakami são misteriosos, até mesmo para ele. Murakami não consegue dizer por que decidiu tornar-se escritor. Essa ideia simplesmente lhe veio um dia, do nada, enquanto assistia a uma partida de beisebol, e sem nunca ter tido a menor pendor nessa direção. Ele estava no final da casa dos 20 anos e era dono de um bar de jazz ao qual deu o nome de Peter Cat, em homenagem a seu bichano de estimação. Era 1978. Sua fase de rebelião estava mais ou menos terminada. Ele tinha crescido nos anos 1960, filho único de um professor universitário e uma dona-de-casa, e, juntamente com o resto de sua geração, rejeitava o rumo que se esperava que seguisse na vida.

Ele se casou assim que terminou a universidade e, ao invés de seguir estudando, emprestou dinheiro para abrir o bar de jazz e dar vazão a seu amor pela música. À sua volta, seus amigos também se rebelaram. Alguns se mataram, coisa sobre a qual Murakami escreve com frequência. "Eles se foram", diz. "Foi uma época muito caótica. Ainda sinto saudades deles. Então às vezes me sinto estranho por ter chegado aos 63 anos. Sinto-me uma espécie de sobrevivente. Cada vez que penso neles, tenho a sensação de que preciso viver, preciso viver muito forte. Porque não quero passar anos de minha vida... a própria vida deve ser a finalidade. Porque sobrevivi, tenho a obrigação de dar plenamente. Assim, a cada vez que escrevo minha ficção, de quando em quando penso nos mortos. Amigos."

Olhando em retrospectiva, ele vê como era precária sua própria situação. Ele estava fortemente endividado, trabalhando muitas horas por dia no bar com sua mulher, incerto quanto ao futuro. "Em 1968 ou 69, qualquer coisa podia acontecer. Era tão instigante, mas, ao mesmo tempo, era arriscado. As apostas eram tão grandes. Se você puder vencer, poderá ganhar grandes apostas, mas, se perder, estará perdido."

Ele se arriscou com o bar?

"Aaaaargh", diz Murakami. "Foi com o casamento que eu me arrisquei! Eu tinha 20 anos, ou 21. Não sabia nada sobre o mundo. Eu era estúpido. Inocente. É uma espécie de aposta. Com minha vida. Mas eu sobrevivi. Seja como for."

Sua mulher, Yoko Takahashi, é sua primeira leitora. O romance que saiu de sua ideia luminosa teve o título "Hear the Wind Sing" (escute o canto do vento) e lhe valeu um prêmio para escritores novos no Japão. Por algum tempo, ele continuou a administrar o bar ao mesmo tempo em que escrevia, e isso foi essencial para seu progresso, ele explica: "Eu tinha meu clube de jazz e tinha dinheiro suficiente. Por isso, não precisei escrever para ganhar a vida. Isso é muito importante." Quando seu livro "Norwegian Wood" vendeu mais de 3 milhões de cópias no Japão, Murakami não precisou continuar com o bar, embora algumas vezes tenha uma visão de uma existência paralela em que continuou com aquela vida. Ele não está convencido de que teria sido menos feliz assim.

Petr Josek - 30.out.06/Reuters
Haruki Murakami ao receber prêmio em Praga
Haruki Murakami ao receber prêmio em Praga

"Se eu tenho um senso de vidas alternativas? Ummmmm-a. sim. Então sinto que é muito estranho, ainda. Às vezes me pergunto porque sou um escritor neste momento. Não há uma razão profissional definitiva que me levou a ser escritor. Alguma coisa aconteceu, e eu virei escritor. E agora sou um escritor de sucesso. Quando vou aos EUA ou à Europa, muitas pessoas me conhecem. Foi tão estranho. Alguns anos atrás eu fui a Barcelona e fiz uma sessão de autógrafos, e mil pessoas vieram, sabe? As moças me beijaram. Fiquei tão surpreso. O que aconteceu comigo?"

Ele escreve intuitivamente, sem um plano. Seu romance mais recente lhe veio enquanto estava sentado no trânsito de Tóquio. E se ele saísse para a via expressa engarrafada e descesse pela saída de emergência --o rumo de sua vida mudaria? "Esse é o ponto de partida. Tenho uma espécie de premonição de que vai ser um livro grande. Vai ser muito ambicioso. Era isso o que eu sabia. Escrevi o romance 'Kafka à Beira-Mar' uns cinco ou seis anos atrás e estava esperando o novo livro chegar; ele chegou. Eu sabia que seria um projeto grande. É simplesmente uma sensação."

Como um romance do comprimento de "IQ84" pode, ao mesmo tempo, parecer elíptico é algo que faz parte do brilhantismo de Murakami, embora possa deixar no leitor uma estranha sensação de insatisfação. A artificialidade no romance pode ser desculpada pelo autor como comentário sobre a própria natureza da artificialidade, e o tom impassível de vez em quando é enfurecedor. "Desde que ele vira duas luas no céu e uma crisálida de ar se materializando no leito de seu pai no sanatório, nada mais deixava Tengo muito surpreso."

Como nos romances anteriores, algumas das cenas de maior ternura são tangenciais à trama principal. Em "Norwegian Wood", que Murakami escreveu da maneira mais convencional possível, na esperança de que se tornasse um sucesso comercial, elas se davam entre o herói e o pai moribundo de sua namorada.

Em "IQ84", são cenas entre Tengo, o amado de Aomame, e seu próprio pai moribundo, que ele tinha dificuldade em amar. A maioria dos personagens de Murakami teve infâncias infelizes --o que não é coincidência, diz ele. Nada dramático aconteceu quando ele era criança. No entanto, ele comenta, "tive a sensação de ser abusado, de certo modo. É porque meus pais esperavam que esse filho fosse desse jeito; e eu não era." Ele ri. "Então eles esperavam que eu tirasse notas boas na escola, mas eu não tirava. Eu não gostava de passar muito tempo estudando. Queria apenas fazer o que eu queria fazer. Sou muito fiel a mim mesmo. Eles esperavam que eu fizesse uma boa faculdade e conseguisse um emprego na Mitsubishi ou algo assim. Mas eu não fiz isso. Eu queria ser independente. Então abri um bar de jazz e me casei quando ainda era estudante universitário. Eles ficarem decepcionados com isso."

Como isso foi expresso?

"Simplesmente ficaram decepcionados comigo. É difícil para um jovem sentir essa decepção (dos pais). Acho que eles eram gente boa, mas, mesmo assim... Fiquei ferido. Ainda me recordo dessa sensação. Eu queria ser um filho bom para eles, mas não podia ser. Eu mesmo não tenho filhos. Às vezes me pergunto o que teria acontecido se eu tivesse tido filhos. Não consigo imaginar. Não fui tão feliz como criança, e não sei se poderia ser feliz como pai. Não faço ideia."

Como, então, ele encontrou a confiança para fazer o que queria?

"Confiança, quando adolescente? Porque eu sabia do que gostava. Eu adorava ler; adorava ouvir música, e adoro gatos. Essas três coisas. Assim, embora eu fosse apenas uma criança, podia ser feliz porque eu sabia do que gostava. Essas três coisas não mudaram desde minha infância. Ainda hoje eu sei do que gosto. Essa é uma confiança. Se você não sabe do que gosta, está perdido."

A opinião de Murakami sobre quase todos os temas é valorizada no Japão, onde ele é o intelectual mais reconhecido do país. Murakami não gosta de aparições públicas; ele é tímido e modesto, mas se dispõe a participar em debates nacionais por meio de seus livros. Na esteira do ataque com gás sarin no metrô de Tóquio, em 1995, ele escreveu "Underground", um conjunto de ensaios jornalísticos sobre o fato.

Ele se sente na obrigação de representar seu país, como escritor japonês, e concorda em fazer publicidade no exterior, coisa que não faz em casa. E, embora tenha traduzido muitos romances ocidentais ao japonês --incluindo as obras de seu autor favorito de ficção, Raymond Chandler--, verter livros japoneses para o inglês é difícil demais, afirma. Ele nunca traduziria seus próprios livros --apenas contestar uma palavra aqui ou ali do trabalho de seus tradutores regulares.

Ele estava em Honolulu no início deste ano, quando o terremoto e tsunami atingiram o Japão. Isso mudou o país, ele diz. "As pessoas perderam a confiança. Vínhamos trabalhando tão arduamente, depois do fim da guerra. Por 60 anos. Quanto mais enriquecíamos, mais ficávamos felizes. Mas, no final, não ficávamos felizes, por mais que trabalhássemos. E veio o terremoto, e tantas pessoas tiveram que ser retiradas, tiveram que abandonar suas casas e sua terra. É uma tragédia. Tínhamos orgulho de nossa tecnologia, mas nossa usina nuclear revelou-se um pesadelo. Então as pessoas começaram a pensar que precisamos mudar nosso modo de vida drasticamente. Acho que esse é um grande momento de virada no Japão."

Ele compara o que aconteceu ao 11 de setembro, que, afirma, mudou o rumo da história mundial. Desde o ponto de vista de um romancista, é um "acontecimento milagroso", improvável demais para ser verdadeiro.

"Quando vejo aqueles vídeos dos dois aviões se jogando contra os edifícios, me parece um milagre. Não é politicamente correto dizer que é belo, mas tenho que admitir que há uma espécie de beleza. É terrível, é uma tragédia, mas, mesmo assim, há beleza nisso. Parece perfeito demais. Não consigo acreditar que aconteceu realmente. Às vezes me pergunto se, caso aqueles dois aviões não tivessem sido arremessados contra o edifício, o mundo teria sido muito diferente do que é hoje."

A mudança pela qual os japoneses estão passando é em parte, diz Murakami, a contabilização de perdas e ganhos que advém por terem perdido tanto e serem obrigados a questionar o que realmente é importante. Suas próprias prioridades são simples, diz ele. Por exemplo, ele não sabe quanto dinheiro tem. "Sabe, se você é mais ou menos rico, o melhor disso é que não precisa pensar em dinheiro. A melhor coisa que você pode comprar com dinheiro é a liberdade, o tempo. Eu não sei quanto ganho por ano. Não faço ideia. Não sei quanto pago de impostos. Não quero pensar em impostos."

Faz-se uma pausa longa.

"É uma chatice. Tenho meu contador, e minha mulher cuida disso. Eles não me deixam ficar sabendo de nada. Eu apenas trabalho."

Ele deve confiar na esposa! "Estamos casados há 40 anos, mais ou menos. Ela ainda é minha amiga. Conversamos, sempre conversamos. Ela me ajuda muito. Me dá conselhos sobre meus livros. Respeito a opinião dela. Às vezes brigamos. A opinião dela às vezes é muito dura. Pode ser dura."

Talvez ele precise disso.

"Acho que sim. Se meu editor dissesse a mesma coisa, eu ficaria furioso." Murakami dá de ombros. "Posso deixar meu editor, mas não posso deixar minha mulher."

Seu pai morreu dois anos atrás; sua mãe ainda está viva. Murakami espera que eles tenham ficado felizes com seu sucesso como escritor, mas tem dúvidas. Ele tem seus consolos. É sócio de um clube de corrida no Havaí e é de longe o mais velho do grupo, conta. Ele corre, assim como escreve --todos os dias. A persistência é tudo. "Gosto de ler livros. Gosto de ouvir música. Coleciono discos. E gatos. Não tenho gatos neste momento. Mas, se estou fazendo uma caminhada e vejo um gato, fico feliz."

"IQ84: Book One And Book Two", de Haruki Murakami, será lançado na próxima semana pela Harvill Secker, na Inglaterra. O terceiro volume sairá em 25 de outubro. No Brasil, "1Q84" será lançado no segundo semestre de 2012 pela Alfaguara.

Tradução de Clara Allain.

 

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